15.4.08

Transmudação das águas


1

Não era
ainda
o tempo das manhãs lavadas
como noturnas cabeleiras negras
escorrentes e interiormente macias,
ou como o som de um galopar em chão de estrelas,
ou mesmo a cor
de um vinho novo contra o sol.

2

Era o mato,
a mata,
a cor lisa da pedras
e das ramas,
o espinho raso,
a sombra inacessível,
o bruto e agreste piso.

Era a acácia,
rara ampola de umidade verde
concentrando
o derramar espinhoso da temente sede
nivelada
na escura sucessão das copas baixas.
A interminável dimensão do Sul
e pó.

3

Era um mês de nuvens baixas,
volumosas e ocas,
um mês de madrugadas curtas,
já pesadas,
e manhãs de céu palpável,
cinzento e rente.

Era o mês do extremo esforço das ramagens,
das derradeiras hastes
quebradiças ao vento.

O mês das migrações
tardias e arrastadas.
Mês de tributo às águas:
o sacrifício imposto,
a seleção do débil,
do cedente,
do mais pungente olhar brilhante
encastoado na latente anhara
como brasa
derradeira e longa,
entre a cinza
de um ritual de obrigação cumprida.

Era um mês de charcos negros,
elaborados
em profundo rasto de noturna busca,
silêncio e espera.
O mês das derradeiras umidades.

4

Era Novembro,
um mês de cargas raras.
úmido ardor,
goma indecisa,
sobressalto de ar.
De atenção às nuvens e à direção do vento,
consulta às luas e à ligeira referência
de um alado brilho de inseto,
precursor
de um Novembro a derramar-se em suave chuva.

Porque Novembro
o mês difícil, é também
o da mais breve primavera.
Escasso deslize
da mão da tempestade.

5

É tímida porém
a consentida chuva
e apenas nos detém a desmedida sede que governa
o percutir dos corpos coletivos
sobre as pedras,
e as pedras nas vertentes,
e a inquieta direção de um gesto
na mineral lisura.

6

Novembro
não é mais do que uma
lua solta sem raiz no Leste,
sem poder para embeber a terra
e anular-lhe
a face empedernida e velha.

Mal se desloca a sombra
na paisagem
e as hastes permanecem vegetal grafia
a destacar-se
num céu aquém de encostas confundidas.

E nem anula o pó
do trote das manadas
à volta das cacimbas,
e nem os animais ainda aspiram
urgência de viagens.

A chuva de Novembro
traz a marca
da podridão latente
(o que escurece
o grão da perspectiva,
acama a derradeira espiga
preservada
e marca de impotência
o som redondo
que se projeta curto).

7

Cansa olhar
ondulações sem brilho.
A claridade crua
de um sol que se não vê.
A próxima matéria
de um céu sem altitude.

A contenção do gesto
e das funções.
O navegar a mais serena ausência de contorno,
o chão sem som,
a sombra sem azul,
o ar sem eco,
sem fibra,
sem chicote.

8

Depois,
a pouco e pouco
decanta-se o alvoroço
e muda, em nós,
a direção do vento
vespertino.
O cacto agradecido
espiga já
e amadurece a flor
mais reservada
e rara,
rubro espinho cravado
na teimosia opaca
do dorso de Dezembro.

A nitidez das serras
denuncia
o altear das brumas.
E os dias de Janeiro,
renovados de vigor continental,
sucedem-se cada vez mais jovens,
dando-se as mãos na noite seca
e percutindo nela
o brusco estralejar da lenha seca,
o gume-instante da labareda esguia.

9

E perdem-se animais
ao pôr do Sol,
e chegam cães de longe
a farejar a espera,
e os rebanhos unidos
são mais lentos
e alongam as mil patas
num caminhar dorido
e delicado.

As vozes simplificam-se
e as visitas
são mais longas, mais serenas, mais alheias.
A terra espera unida aos animais
e à gente e à obra: as mãos
as orações e a alegria.
Os corpos
surgem nus
e os pés descalços
e as mãos são magras
e dorme-se ao relento.
E o cheiro das manadas
monta a brisa
para polvilhar a noite
de um pó de ouro
em que faísque
o sol da madrugada.
E se arredonda, em gotas duradoiras,
o derradeiro orvalho da estação.

10

O ar rareia
e o gesto
não se mede;
os passos são de leve
e o pó mais fino;
os charcos são de pedra
e os trilhos rangem.
Perdem-se as asas
sem atingir o céu
e a lua tomba, em cada noite,
cheia, no regaço das vigílias.
E as estrelas são de brasa, são de vidro
ou diamante.

11

Porém se o tempo pára
as serras se avizinham
e o vento é leste e a manhã sonora;
se os homens se despedem das mulheres e abalam
sem destino,
os cães trotam e latem receosos
e os animais bravios
não se ocultam;
se o mar se ouve ao longe
e os comboios
nos vêm recordar
o cansaço desmedido das viagens,

12

talvez esteja prestes
a pureza
da lua fevereira e decisiva
e baste
um vegetal estalido de mucosa
para rebentar,
em águas,
toda a prenhez do céu
num gesto muito simples
de parto extemporâneo e fácil.

Um brando golpe a declarar
cumprido
o tempo
saturado
da combustão da espera
intemporal e aceite,
uma madura sapiência
de olhar líquido
vertido no horizonte
para embeber-lhe a sede.

13

Talvez até
(porque se arrasta
desmedida
a calma e aguarda
a lua negra e nova)
um ato de mistério
venha arder
na puríssima e última alvorada:

um estupro; um crime;
em ai de carne acesa, penetrada,
que vá verter-se
em bocas deslumbradas de crianças;
a morte de um profeta;
a entrega oferecida de uma fêmea menstruada
que esconda em si um útero de espinhos
e um destino de exílio.

14

Em verde estala então a estação crua
que desponta em branda nata
e se povoa
da coletiva sede transumante.

15

Caldeira ressequida
a terra aceita a chuva
que lhe dissolve incrustações remotas.
E em alternada projeção de luz
o céu descobre o sol
e lhe arremessa
o peso imenso de uma nuvem baixa
a vomitar-se em espasmos
de ensossa claridade fluida.

Horizontal e calma
a terra aceita a chuva
que lhe dissolve o cio
e lhe penetra
a natureza funda fecundável.
Transmuda-se a macheza do horizonte
e desabrocham lábios
de avidez passiva.
Ovulações guardadas,
animadas pela surpresa
de um reviver festivo,
breve se animam, jovens, resolutas,
para aninhar em si uma semente achada,
anônima aventura
de ansiada entrega.

16

Fazem-se os rios,
despontam os capins,
passam rebanhos
e cruzam-se recados de água achada.
Seguem-se o rasto de mensageiros
demandantes de outras pátrias para os seus gados.

Atingem-se murmúrios de manadas,
sofreguidão liberta a derramar-se em dambas.
Despertam-nos vagidos de recentes crias
paridas coma água pelos caminhos
e o seu olhar serve de espelho ao verde
de que se faz o leite a derramar-se
farto
na áspera ternura dos seus beiços.

Cortinas
de excitante e odoroso cio
tolhem a ,archa cega de corpos luzidios
para embeber pulmões e enrijecer
a quadratura sólida dos machos
donde escorre a nata
espessa, excedente
e nacarada,
que redime a espera ultrapassada.

17

E faz-se gorda a terra
e lhe estremece a carne-madre farta,
contente e abundante,
saciada,
bem parida e já refeita,
acarinhada.
Sobram quindas de mel pelas vertentes
E o peito escorre, generosos e alto.
Dorme a terra em verde e luz
imensurável mesa de um anual banquete
que festeja
a imanência fêmea e mãe
da natureza.

18

Que corajosa ação,
explosão, renúncia, desmedido voto,
haverá, ainda assim, para deter
a cósmica e divina translação
que oferece o dorso largo
ao renovar da sede?
Das luas em cadeia se liberta
a cáustica aspersão
que extingue o verde
extemporâneo e baço já.

À estepe cabe a capa de uma austera cor,
A míngua de água,
A face dada à brisa seca,
O caminhar de leve
Entre o quebrável.
O recordar das pistas
de outras águas,
de outras noites.

À estepe cabe a esfera do ruído
que antecede o tempo,
um deslizar vital,
um perigo que se instala nas montanhas
e desce alturas cavalgando o vento,
a extrema segurança da vontade,
a estrema insegurança da atenção,
a sólida aridez essencial,
a fácil madrugada navegável.

19

Porque o deserto é macho
e avaro do gesto
e se projeta em julho
triunfante
tangendo os seus rebanhos transumantes

Que vota ao céu
de novo couro seco
e à lua,
que detém as águas
e ao vento,
domador da anhara
e à noite setembrina,
propícia de loucura e de uma irreversível

votação ao sul.


Ruy Duarte de Carvalho
Angola