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11.8.11

A rua


Na rua larga passeiam mulheres que arrastam pelo chão
o último vison e a última visão

Casas fantasmas de tectos ideais emergem da noite em nevoeiro
vermelhas azuis verdes amarelas saídas de um tinteiro

Duas crianças brincam no passeio
duas crianças sós e sem asseio mas com passeio exclusivo
reservado para elas

Ratos e gatos jogam ao polícia e ladrão
e um cão de guarda fuma o cachimbo da paz qu segura na mão

Há sinfonias demasiado completas a dançar no ar
(nuar: verbo irregular; eu nuo, tu nuas, ele nua= nudismo geral)
e por toda a parte cavalgam os cavalos de Chagall
transpondo o arco-íris de todo o pensamento
que é realmente mento
porque só pensa é fácil
o difícil é o verdadeiro pensa-mento

No restaurante há omelettes em chamas
servidas por bombeiros voluntários
e as banheiras estão cheias de afogados mentais

A lápide de inscrição no cemitério diz apenas
a vida não deu pra mais.


Yvette K. Centeno

14.6.11

O café


Sentadas nas mesas do café
as pessoas olhavam sem ver bem
e nos olhos de cada uma iam passando a sério
os ódios pequeninos quotidianos
como um enterro de terceira classe lento
e grave
seguido por dois cães de luto
e um chapéu funerário sem cabeça


Yvette K. Centeno

1.5.11

As mães


Chegou.
Vinha da noite escura.
Sentou-se à mesa connosco
pediu o pão
e o vinho.

Não disse mais,
só um pouco de luz,
um Anjo que nos guarde.

Assim como chegou
assim partiu.


Yvette K. Centeno

20.3.11

Primavera


O homem funerário tirou respeitosamente o boné preto
quando o morto entrou no cemitério
e do boné sairam dois coelhos brancos
um ramo de tulipas
três cravos amarelos
e um cavalo árabe das noites.
É Primavera disse o cavalo árabe das noites
e comeu as tulipas e os cravos
e assustou os dois coelhos brancos
É Primavera
e as pessoas começaram a morrer
porque gostam de flores e de sol
e de música lenta


Y. K. Centeno

16.3.11

Não conhecia a noite povoada


Não conhecia a noite povoada

Não conhecia a noite
cheia por dentro de espaços
e de tempos

Não conhecia a noite
andando primeiro pela estrada
e andando depois por um caminho

Não conhecia a noite
dos corpos sem amor
em êxtase de pé
devagarinho


Yvette K. Centeno

11.1.11

Evocações



Só matéria e memória
o caminhar do homem na treva da sua alma
Há um portão? Uma esfinge? Uma ilusão de resposta?
Radioso, também o mito cega

Terá sido difícil abandonar a floresta. Lá permanece
a raiz
a floresta, mar profundo, verde azul montanhoso...
Chegou-se ao fim do percurso

Toscos são os coturnos, mas de boa madeira: a tábua
que o levará, ao homem transfigurado

Não há guardião nesta porta
o fio do labirinto, no interior
do olhar
ressuscitando a pedra que é só isso
a dura flor da terra.


Yvette K. Centeno

28.11.10

Como se estivesse num café



Espero
sentada
tranquilamente
em mim

Espero
como se estivesse num café
cheio de gente


Yvette Centeno

28.6.10

Mulher



quando o ventre é o mar
quando o ventre é a água
salgada
numa boca
quando o ventre é a fonte
quando o ventre é a forca

Yvette K. Centeno

28.4.10

A árvore


Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram…
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.

Yvette Centeno

13.10.09

Doença


Aos pés da minha cama
o pássaro do pensamento.
Está pousado. Não voa.
Toda a noite
todo o dia
porque não voa ele?
Qual o sinal que espera?
Mando abrir a janela
mostro as árvores fora
sopra o vento
as folhas cantam
uma canção repetida.

Mas o pássaro não voa.
Está de guarda
ou está sem vida?


Yvette K. Centeno