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2.12.09

Creio na vastidão dos amores humanos


Creio na vastidão dos amores humanos,
esses amores que se fundem com os domínios
inelutáveis da dor: o amor, essa claridade
que não alcançou em nossos dias
a recôndita certeza dos deuses.

Amores
frágeis sob o voo irisado das aves, amores
de uma noite profunda ou de uma tarde amena
entre o regaço de outras mãos. Amores
de pais onde tudo se esquece entre
uma aurora e outra.


Paulo Teixeira

12.11.09

Se uma fonte jorrasse da minha boca


Se uma fonte jorrasse da minha boca
a saciar a memória das sedes terrestres,
uma arvore erguendo a lentidão dos seus braços
no ar, no céu sarado pela luz, um feixe
de mãos gesticulando contra o vento
a placidez de uma vida intocável.

Pudesse a sua sombra ser uma despedida
guiando os passos de quem deserta com o dia,
a cabeça deitada por terra, vendo passar
no alto a cabeleira de uma nuvem sobre a vastidão
dos campos que se perdem em núpcias com a distancia.

Saborear o ar que nos sopra como uma lembrança
sobre o flanco das colinas, ele que, ao levar consigo
um adereço de imagens, colhe no voo uma espiga,
a sua germinação breve na agua fértil da boca.
Palavras para descrever a noite infusa entre as mãos,
a vocação do que brilha no alto e se espelha,
o açafate da lua, na lira muda da folhagem.

Queriam ver-te dobrada para o solo, olhos fechados,
cruzamento de ramos sob o metal branco da luz,
no gesto inútil que faz ao cair uma folha fanada.
Porque o teu destino é cair, sacudindo o corpo
como quem treme de medo, de frio, ou faz uma adeus,
sabendo que trazes em ti a tua morte, a sede
que vai haurindo em baixo, sem descendência
ou cadastro de bens senhorias, as raízes do teu ser.


Paulo Teixeira