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29.3.11

queria escrever-te uma carta


queria escrever-te uma carta
amor
mas tenho hoje um bico de pássaro
na ponta de cada dedo


Isabel Solano

23.2.11

Como este beijo


Como este beijo,
é vasto e profundo
o oceano.

E alheio ao mundo.


Isabel Solano

14.1.11

Feira


Trago os cabelos apanhados
daquela maneira que gostas
e, ao peito, trago postas
as correntes de ouro
que me deste:
não me prendem os olhos
e é premente que eu veja.

Hoje é sexta-feira.

Trago os pensamentos soltos
em cima dos saltos altos
dos sapatos amarelos
- aqueles, sabes? -
que usei na última festa
em que dançámos os dois,
bem sei, cada um com o seu par.

Só não uso a tua tristeza,
pois essa já se adivinha
que me pesa.
E eu não sou de chorar.


Isabel Solano

13.6.10

Cascata


Dos teus dedos, quando tocam teclas de água,
Escorre um rio que lava as minhas lágrimas
E me devolve os sonhos que quis ter um dia
Presentes, vivos, num rodopio tonto de euforia

Dos teus dedos, quando acordam calmarias,
Desprendem-se em cascata todas as fantasias
E rolam revoltas as minhas ideias – tão soltas –
Por entre os seixos dóceis e os juncos complacentes

Nos teus dedos me perco e encontro o curso fluido
Transparente, da minha alma que pensava ausente


Isabel Solano

13.3.10

Nós embargados


Voltas à margem de pensamentos antigos
Idos os dias da luz diáfana

Afogas afagos em canções desesperadas
Já paradas as mãos no piano

Invadem-te os sons
É a aragem
Cantas
Encantam-te
As notas selvagens
Desse pranto

Voltas à margem de pensamentos antigos
Idos os dias da voz embriagada

Embargados nós


Isabel Solano

13.1.10

Sereno refúgio


Sei que a brancura dos dias é aparente
E que a noite se há-de deitar devagar
Entre nós, o oceano, o meu país cansado
E o teu, que ainda escuta ardente
Os rumores que lhe chegam do mar.

Sei que o vento que hoje sopra violento
Amanhã será brisa ou quase nada
E que as nossas vozes, que hoje cantam
Melodias ridentes, inventando sinfonias,
Hão-de ser lágrimas, como o orvalho é geada.

Sei que não crês no que te digo triste,
E me devolves um sorriso que diz que existe
Mais do que este constante movimento
Descendente na minha razão tão escura.

Sorris. Ou ris-te de mim, ainda não sei.

Mas sei que a toda esta imparável mudança
Resiste firme a tua esperança, sólida
A tua mão na minha. E que a tua voz,
Essa, nunca vacila quando a noite vem
E me anuncia a ternura sempre renovada
De um outro dia que se aproxima.


Isabel Solano

13.12.09

Silêncios



Encontramos a praia deserta. Com os olhares fugidios,
ensaiamos alguma conversa de mistérios abertos
na seriedade do momento musicado pelas ondas do mar
e pelos gritos das gaivotas tristes, mas brancas.
O silêncio está sempre ocupado, mesmo quando não há palavras;
portanto, as reticências podem prolongar-se em suspiro longo,
os pontos finais deitar-se ao abandono do ar fresco.
A manhã parece cheia de vazios repletos de sensações
e as palavras vão ganhando agilidade, ritmo, alguma emoção,
enquanto os silêncios de mar calam brisas ainda húmidas.
As gaivotas alinham-se agora, sentadas na areia molhada,
enquanto batem os corações que as olham, descompassados.
Sentimos o ar tão quente, que queremos ter asas também,
voar contra o vento de penas leves em desalinho.
Enterramos longe as pesadas penas de ontem.
Ainda há pouco o tempo parou em todos os relógios.
E nós deixámos.


Isabel Solano

23.8.09

13.6.09

Se um dia secarem as palavras


Se um dia secarem as palavras
do rio que só nós soubemos navegar
se acordarmos sós e despidos
das quimeras que já não podemos segurar
restará ainda a velha ponte
hirta e fria, abandonada,
sobre um leito desfeito, vazio,
e alguns versos soltos pelas margens
como as folhas de outono

de nós nada mais se ouvirá


Isabel Solano