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17.8.11

Confiança



olha amor estas anharas
nelas renasce
o verde forte
do capim…

olha e escuta a vida
a borbulhar
sob a imensa sensação
de sermos nós

olha amor
e solta enfim
o brado da certeza
que não é crime
o grito à vida
e ao amor que se adivinha.

olha amor estas anharas
renasce verde
o capim da terra grávida
de bocas saciadas.

olha amor escuta
esta imensa sensação
de sermos Nós.


Costa Andrade
Angola

17.5.11

Sanzala morta


erguem-se monstros na noite
como elefantes
de formas que não suas
mas enormes como sombras
de elefantes solitários.

erguem-se esquinas
na noite
vidas que quebrassem
tivessem cristalizado
em gemidos
e caprichos
de casas abandonadas.

erguem-se esquinas
na noite
vozes de rios secos
sobre as pedras
que os beberam
com suas bocas de musgo.

e a cada passo inseguro
somam-se esquinas
e areias
e pedras
formas conseguidas pelo tempo
entre gargalhadas de fuga
e do negrume.

só quando sob os muxitos
choram hienas
e assobiam serpentes
e aparecem
feridas
de lua cheia
se descobre nesse drama
como retratos da morte
sanzalas abandonadas.


Costa Andrade
Angola

17.4.11

Motivo



juntei na mão
os meus poemas
e lancei-os ao deserto
para que as areias
se transformem em protesto.
sejam catanas armas ou punhais
sejam protesto.
sobre a terra prometida
o mundo:
e uma arma tão forte que construa
os alicerces desta sede insaciável de criar
independência.

II

poesia
será depois a revolução
em seu entendimento permanente.

além da substância
nem o azul
poderá mover
outras lembranças.

lançados no caminho
iremos segredando à continuidade
desde os contos de ninar
aquilo que nos é amor e causa.


Costa Andrade
Angola

27.1.11

Se o fogo das queimadas



se o fogo das queimadas
fosse a vida
a vida não valia o sacrifício
há muito que o sonho se perdera…

as queimadas devoram as anharas
e o fogo apaga-se com a morte.

no capim, que não espera por novembro
e pulsa verde
gritante à beira do caminho
é que está a vida.


Costa Andrade
Angola

17.12.10

Homem-terra

Ao Vieira Lopes

a vida ali parou
como se o tempo
caprichasse
tornar-se algum rochedo.

o homem fez-se igual ao tempo
e do corpo
correm bagas de suor.

os montes
não mais voltaram a cobrir-se
de verde
ou de mensagens doutra cor.

… somente a mudez arrefecida
dos vastos horizontes
e gemidos nos espaços.

ao lado
a passos largos
iluminam-se avenidas indiferentes
aumenta a gritaria do ferro
e do cimento
crescem gentes ritmadas
ao som dos atabaques
sobre agónicas
e conseguidas impotências.

até que o homem
de si faça uma certeza.


Costa Andrade
Angola

8.8.10

Luanda é a cidade




Luanda é a cidade
que não sabe se é cidade
se é país.
Tanto país se encontra nela
tanta cidade compõe este país
tão país e tão cidade
Luanda mulher criança velha
homem que por ela morre e vive
do Mucussu ás alturas do Belize


Costa Andrade (Angola)

4.3.10

Contratados



A hora do sol posto
as rolas traçam
desenhos de feitiços sinuosos

caminhos sob a calma das mulembas

e abraços de segredos e silêncios.

...longe...muito longe
um risco brando
acorda os ecos dos quissanjes
vermelho como o fogo das queimadas
com imagens de mucuisses e luar.

Canções que os velhos cantam
murmurando.

e nos homens cansados de lembrar
a distância vai calando mágoas.

renasce em cada braço
a força de um secreto entendimento.

Costa Andrade
Angola

1.12.09

Instante



... e há sonhos para nunca mais realizados
tal é o instante
preciso
que antecede a bala.

A imagem longe do caminho
flutua sobre as ondas
duma qualquer recordação banal
O peso da arma aos ombros
a monotonia dos passos
o cansaço
as folhas secas
tudo mergulhou profundamente
no sono de algo bem amado;
os nervos que há momentos estavam tensos
lançando os olhos como setas
bússola dos ruídos
repousavam uns segundos
do tempo de poesia
no instante
preciso
que antecede a bala.

E quando a bala
feriu o silêncio carregado
prostrando o homem sobre a terra
não foram assassinos que o mataram.
O guerrilheiro também vive
um tempo de poesia
como a vida de uma bala
na emboscada dos murmúrios
apenas respirados.

O guerrilheiro é terra móvel
decisão de liberdade
na pátria raivosamente escrava.


Costa Andrade (Angola)

27.11.09

Regresso



Andam no ar
Poemas negros
De cor amarga
Misturados à voz rouca
Dos camiões.
Desertas
Frias
Despidas
As cubatas esperam:
Mulheres e homens,
Nas cubatas,
Vozes
Riem
Escutam
Choram
Histórias iguais a muitas.

Nalgumas
O pranto
Inda é maior.

Costa Andrade (poeta angolano)

3.4.09

Poema quarto de um canto de acusação



Há sobre a terra 50 000 mortos que ninguém chorou
sobre a terra
insepultos
50 000 mortos
que ninguém chorou.

Mil Guernicas e a palavra dos pincéis de Orozco e de

Siqueiros
do tamanho do mar este silêncio
espalhado sobre a terra

como se chuvas chovessem sangue
como se os cabelos rudes fossem capim de muitos
metros
como se as bocas condenassem
no preciso instante das suas 50 000 mortes
todos os vivos da terra.

Há sobre a terra 50 000 mortos
que ninguém chorou

ninguém...

As Mães de Angola
caíram com seus filhos.


Costa Andrade (poeta angolano)

6.3.09


A flor da chuva



… E a flor da chuva no capim
Tem mais perfume

Abertas bem abertas estão as mãos
Para abraçar esta manhã sem nuvens

Ontem (não importa já o pôr-do-sol nas buganvílias)
Ontem (murchas estão agora as flores
Das coisas que eram coisas nada mais)
Ontem havia medo até no caminhar das rolas sobre a areia.


A poesia de hoje é a voz do povo
Todo o mundo o mundo até de algum silêncio persistente
Quer romper e rompe a mancha que da noite inda nos fala.
Ó admirável sangue a pulsar em cada estrela
O sol é negro e ilumina
A imensidão deste perfume
Que nos traz a flor da chuva

O sol é negro e brilha dos vulcões
De cada peito independente.
Madrugada de fevereiro
Sou angolano!

Costa Andrade (poeta angolano)

5.7.08

Contratados


A hora do sol posto
as rolas traçam
desenhos de feitiços sinuosos

caminhos sob a calma das mulembas
e abraços de segredos e silêncios.

...longe...muito longe
um risco brando
acorda os ecos dos quissanjes
vermelho como o fogo das queimadas
com imagens de mucuisses e luar.

Canções que os velhos cantam
murmurando.

e nos homens cansados de lembrar
a distância vai calando mágoas.

renasce em cada braço
a força de um secreto entendimento.


Costa Andrade (poeta angolano)


28.4.08

Já não é...


Já não é a noite que promete algum desejo
e o amanhecer não reflecte mais quimeras

no olhar.

Aquilo que era sol em cada verso
são os caídos,

é a queda

de cada pedra companheira

movida ainda sabe-se lá por que impulsão
após a morte!

As palavras que prometem
vêm depois que silvam balas
e a decisão dos homens.

Restamos nós rochedos brutos da montanha

face voltada ao amanhã que sempre nos guiou.

Cairemos não importa.

Nós somos o carvão da luz futura.

Costa Andrade (poeta angolano)


21.4.08


Autobiografia


Não existe mais
a casa onde nasci
nem meu Pai
nem a mulembeira
da primeira sombra.

Não existe o pátio
o forno a lenha
nem os vasos e a casota do leão.

Nada existe
nem sequer ruínas
entulho de adobes e telhas
calcinadas.

Alguém varreu o fogo
a minha infância
e na fogueira arderam todos os ancestres.

Costa Andrade (poeta angolano)

16.3.08


Luanda


Aqui reside tudo
E todos
Germinam as raízes todas

Aqui está cada um dos braços e dos rostos
Dum só corpo que anda sobre o vento
Navega os céus e toda a geografia
Desde a minha aldeia e do meu povo

Desce o campo refugia-se na cidade
Das ruínas às pontes de margens ansiosas

Tarda o abraço
Demora o dia das horas sucessivas
Sem paragem

No tempo de memórias tristes
Aqui estamos e estaremos
Porque somos
Mais do que pó e húmus
Unida essência dum jardim de vida
Morremos várias vezes no percurso
Mas seremos sempre
Capazes de chegar
à vida

Porque somos todos, somos um
Em cada um
Dos pontos cardeais
Deste país.


Costa Andrade (poeta angolano)

15.3.08


Eis de repente ...




..... eis de repente
do Lépi a chuva densa
alturas de Nambunagongo
Silongo de Mandume
Chanas que pisei no leste
Maiombe de lendas infindáveis

O ar livre de poeiras dos escombros
Reabre sonhos escondidos na agonia

A velha da tchimanda
Dá o nome de David
E o da Miete
Aos meninos que encontrou
Na estrada

No Tchinguluma
Ouvem-se as abelhas zumbir
Em torno das cores perto do rio

Também viram no Mufupu
Jeremias a cobrir a casa
Com capim novo da chama

Lukau vinda do norte
Trouxe abacates no pano e ofereceu-os
Olhos brilhantes húmidos felizes

Disseram-me hoje
Há folhas verdes outra vez
Nos ramos da loncha da Emanha
Nas mangueiras do salundo
Vozes falam do milho a germinar
No Huma e na Cativa

Passaram os anos em que a morte
Venceu todas as batalhas

Finalmente agora pouco a pouco
Começa a vida a vencer a guerra.


Costa Andrade (poeta angolano)

21.2.08


Dádiva



Sou mais forte que o silêncio dos muxitos
Mas sou igual ao silêncio dos muxitos
Nas noites de luar e sem trovões.


Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.

...e quando chega o canto das perdizes
E nas anharas revive a terra em cor
Sinto em cada flor
Nos seus matizes
Que és tudo o que a vida me ofereceu.


Costa Andrade (poeta angolano)

21.1.08

A Poesia


A poesia nasce como os rios

E as pessoas

As avenidas

E o mar.

Porque a poesia vive em tudo

E em tudo se confunde

Com o sonho.



Costa Andrade (poeta angolano)


6.1.08


Poemas para um tocador de quissanje


1

Leio nos teus olhos
a minha infância
como quem olha um retrato
envelhecido e mudo...

Os teus olhos parados
claros de luas passadas
não são mais que pedras frias
onde perpassam cacimbos...

... no entanto leio neles
todo esse mundo querido
de mistérios
assombrações

e receios
claras manhãs de Janeiro
calor de todos os jangos
verdes capins sorrindo...

Falam de noites da vida
vidas da vida falando
na linguagem de um quissanje


2

Eras o maior
dos tocadores de quissanje...

Vinham gentes
e paravam...
ao luar de frios ventos
de jangos mudos
e as mulembas
não embalavam
as folhas...

Na longa noite do tempo
inda se escutam e choram
teus acordes de quissanje
mensagens de além perdido.


3

... e vinham
das distâncias
eram das terras da lunda
e os regressados das ilhas
e as crianças que não iam
muito p'ra além dos luandos
e das portas
e eram velhas
cachimbando
junto às fogueiras
sem lenha
e vinham todos...

Alongava-se na noite
canto de escravos passados
vozes de contratados
o teu quissanje dolente...


4

... as velhas já não choravam
filhos perdidos no mar
e as crianças não choravam
a fome dos ventres grávidos
e as mulheres já não choravam
homens levados de noite
em cargas silenciosas...
e as lavras já não choravam
e as estradas
e os mares
suor dos ombros cansados
e os homens
já não choravam
já não choravam
já não choravam
Calavam.


5

Havia conchas de mar
múcuas e pitangueiras
falas de gentes quiocas
vozes de terras ganguelas
gritos de homens cuanhamas
ó amor de jovens luenas
e lendas de mucubais
inconformadas presenças
pairando em cada silêncio
em cada vagem que seca
como promessas de pão feitas fome
na realidade diária.

Havia
havia
havia
humanidades de espera
como promessas de pão


Costa Andrade (poeta angolano)