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30.11.10

A Tout Seigneur



No teu pescoço esbelto de morena
Usas, às vezes, um decote em vê.

Essa letra, porém, é tão pequena
Que mal se lê,
Que mostra apenas, dentre o que escondeu,
Uma nesga inestética e minúscula.

Ora um colo como o teu…
Merece letra maiúscula.

Augusto Gil

28.12.09

O Menino brincando



Ó meu Jesus adorado,
Fecha os teus olhos divinos
Num soninho descansado;
Que a não sermos tu e eu
Toda a gente do povoado,
Desde os velhos aos menino,
Há muito tempo que adormeceu.

E o Menino Jesus não se dormia...

Dorme, dorme, dorme agora
(Cantava a Virgem Maria)
Que mal assomou a aurora,
Sentei-me junto ao tear
E por todo o dia fora,
Até que já se não via,
Não deixei de trabalhar!

E o Menino Jesus não se dormia...

Tornava Nossa Senhora,
Numa voz mais consumida:
Dorme, dorme, dorme agora
E que eu descanse também,
Porque mesmo adormecida
Vela sempre, a toda a hora,
No meu peito, o amor de mãe.

E o Menino Jesus não se dormia...

Numa voz mais fatigada,
Tornava a Virgem Maria:
Dorme pombinha nevada,
Dorme, dorme, dorme bem...
Vê que está quase apagada
A frouxa luz da bugia,
Do pouco azeite que tem.

E o Menino Jesus não se dormia...

Rogava Nossa Senhora:
Modera a tua alegria...
Não deites a roupa fora
Do teu leito pequenino...
Não rias mais. Dorme agora
E brincarás todo o dia...
Dorme, dorme, meu menino.

E o Menino Jesus não se dormia...
Mais triste, mais abatida,
Pediu a Virgem Maria:
Tem pena da minha vida,
Que se a quero é para ti...
Vida aflita e dolorida!
Só por ti a viveria
Tão longe de onde nasci!...

E o Menino Jesus não se dormia...

E a voz da Virgem volveu:
Repara no meu olhar,
Vê como ele entristeceu...
Dorme, dorme, dorme bem,
Ó alvo lírio do céu!
Olha que estou a chorar
- Tem pena da tua mãe!

Nosso Senhor, então, adormeceu...


Augusto Gil

23.12.09

O Natal



Este Natal de Jesus
Há dois séculos que o fez,
Com barro mole, um oleiro.
Verdade não a traduz;
Mas, por ser tão português
- É para nós verdadeiro...

Do grande átrio, todo em ruínas,
Dum palácio pombalino,
Em cuja frente se vê
O nobre escudo das quinas,
Estão, a um canto, o Menino
E a Senhora e São José.

São José tem na cabeça
Um largo chapéu braguês
Derrubado para os olhos;
E a Virgem Maria, essa,
Tem chinelinhas nos pés
E veste saia de folhos...

O Menino está deitado,
Entre as radiações dum halo,
Num loiro feixe de palha;
E uma vaquinha, ao seu lado,
Acerca-se a bafejá-lo
E mornamente o agasalha.

Para o filhinho tão lindo,
Numa expressão em que luz
O seu enlevo de mãe,
A Senhora está sorrindo...
Na boquinha de Jesus
Paira um sorriso também...

Com as mãos no coração,
Com o olhar cristalino
Em que há lágrimas e sóis,
São José, cheio de unção,
Fita a Mãe, mira o Menino
- E sorri-se para os dois...

Um anjo de asas nevadas,
De formas finas e puras,
Este dístico descerra
Das suas mãos delicadas:
Glória a Deus nas alturas
E paz aos homens na terra!

Vêm, pela estrada fora,
Três monarcas em três bravos,
Infatigáveis corcéis.
É que está chegada a hora
Dos mais humildes escravos
Se equipararem aos reis...
Num duo desconcertante,
Dois cegos vão a tanger,
Nos violões, com gesto lento.
É que chegou o instante
Da pobreza merecer
O prémio do sofrimento...

Um coxo de pés cambados
Atira as muletas fora
E a correr, mal pisa o chão.
É que está chegada a hora
Dos tristes, dos desgraçados
- Sentirem consolação...

Toca adufe uma pastora
Para mais outras bailarem
Entre ovelhas e lebréus.
É que está chegada a hora
Daquelas que muito amarem
Serem dilectas de Deus...

Um petiz faz palhaçadas
Com elástico vigor,
Alegria irreprimida,
E, pelas calças rachadas
Ao longo do sim-senhor,
Vê-se-lhe a fralda saída...

É que estão próximas já,
É que já estão vizinhas
As tardinhas comoventes
Em que às turbas pregará
O amigo das criancinhas
Dos corações inocentes...

Augusto Gil

18.12.09

O negro pão do exílio




Mas com quê? De que maneira
Se haviam de sustentar
Naquela terra estrangeira?...

A Virgem tinha na mão
(E foi só esse o jantar...)
Um resto de duro pão!

Pão tão rijo, pão tão duro
Como um duro fariseu,
E tão negro, tão escuro

Como carvão, como breu...
Mas choraram ao comê-lo,
Logo o pão amoleceu...

Acordou aquela hora
O Menino; - e só de vê-lo,
Ri São José, já não chora;

Nem a Virgem, com receio
De que o seu pranto divino
Lhe seque o leite do seio

- E tenha fome o Menino...

Augusto Gil

28.7.09

Grão de incenso



Encontraste com ar cansado
Numa igreja fria e triste.
Ajoelhei-me ao teu lado
– E nem ao menos me viste...

Ficaste a rezar ali,
Naquela imensa tristeza.
Rezei também, mas a ti.
– Que aos anjos também se reza...

Ficaste a rezar até
Manhã dentro, manhã alta.
Como é que tens tanta fé
E a caridade te falta?...


Augusto Gil

26.2.08


Joaninha



Descanse de quando em quando…
Passar assim toda a tarde
Sempre bordando, bordando,
Sem que um momento desista,
Até faz pena! Não lhe arde
Nem se lhe perturba a vista?…

Descanse de quando em quando…
Erga os olhos do bordado
E veja quem vai passando.
O trabalho alegra a gente,
Mas assim, tão aturado,
- Não lhe faz bem, certamente;

Erga a carinha tranquila,
Erga esse rosto tão lindo
E veja os moços da vila
A passarem por aqui,
Uns descendo, outros subindo.
- E todos de olhos em si…

Descanse de quando em quando
E veja se escolhe algum;
Já é tempo de ir pensando
Em casar. Não é assim?…
Se não lhe agrada nenhum,
- Diga se gosta de mim.

Desde os começos do Outono
Que eu a trago no sentido,
Não como, não tenho sono,
Tudo me dá ralação.
Quer-me para seu marido?
- Diga que sim ou que não…

Augusto Gil


25.2.08


Balada da Neve


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.


Augusto Gil





31.1.08

Words, words...
Ao Guedes Teixeira


Contam que em pequenino costumava,
Ao ver-me num cristal reproduzido,

Beijar a própria boca, em que julgava

Ver a boca de alguém desconhecido

Cresci. Amei-a. E tão alheio andava,

No sonho por seus olhos promovido,

Que em vez de cartas que ela me enviava,

Eu lia o que trazia no sentido...

Rodou o tempo. Estou doente e velho...

Agora, se me acerco dum espelho...

Oh meus cabelos, noto que alvejais...

E as cartas dela, se as releio agora,

Só vejo por aquelas linhas fora

Palavras e palavras... Nada mais!


Augusto Gil

27.1.08


Suspiros, cuidados
Paixões de querer.
Se tomam dobrados
Meu bem, sem vos ver.

Garcia de Resende


Versos meus, alado bando

De trigueiras andorinhas,

Ide onde ela, de meu mando,

A dizer-lhe como eu ando,

A dar-lhe visitas minhas...


Oh minha aérea embaixada

Adeus, adeus, parti breve

Não dilateis a jornada.

Seja a hora da chegada

Antes do tempo da neve...


Lá tereis, à sua beira,

Luz e sol como em Agosto.

O seu olhar é fogueira

Que até a torna trigueira

E queima-lhe a pel' do rosto...


Quando a sede vos tomar,

Dizei-lhe da minha mágoa,

Contai-lhe do meu penar,

Que ela então põe-se a chorar

E bebereis essa água...


Os beijos que ela vos der

Servir-vos-ão de sustento.

Que inveja me fazeis ter...

Ai quem pudera viver

Viver do mesmo alimento!


Já bailam ao vento norte

As folhas pelos caminhos.

O frio dá-vos a morte...

Erguei–vos num voo forte,

Guie-vos Deus, passarinhos!...


Augusto Gil