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7.3.09

Poema de longe



Acendo um cigarro
e ponho-me a olhar
as casas que se elevam pela encosta…

Longe,
o Sol morre numa lagoa de sangue…

Entristeço-me.

Meus sonhos tornaram-se em nada,
minhas ambições nunca passaram de planos,
meus enlevos de amor nunca passaram de ânsias.

António Nunes (poeta caboverdiano)

20.5.08


Terra


Nha Chica, conte-me
aquela história
de meus irmãos
hoje perdidos
no mundo grande...

Nha Chica, eu sei:
anos de seca,
gentes morrendo,
casas sem telhas,
de porta em porta
olhos crescendo
barriga inchando,
um dia tombam
de olhos vidrados
por qualquer canto...

Lisboa, América,
Dakar ou Rio:
- dentro de nós surge
esta ideia
partir!, partir!

Resignados,
os que ficaram
ficam esperando
que as nuvens toldem
que a chuva caia
que o chão fecunde
cobrindo os montes
cobrindo as várzeas...

Ah! anos fartos!
Milho, feijão,
pilão cochindo,
fumo no ar,
riso nos lábios,
grogue, cigarros,
batuques, bailes
e casamentos...

Olho estes campos,
olho estes mares,
e sinto a Vida
prendida à terra,
feita de sonhos
que um dia esvaem-se
-mas surgem sempre...


António Nunes (poeta caboverdiano)

26.2.07


Sonho que um dia...


Fogo, Cabo Verde

-Mamãe!
sonho que um dia
em vez dos campos sem nada,
do êxodo das gentes nos anos de estiagem
deixando terras, deixando enxadas, deixando tudo,
das casas de pedra solta fumegando do alto,
dos meninos espantalhos atirando fundas,
das lágrimas vertidas por aqueles que partem
e dos sonhos, aflorando, quando um barco passa,
dos gritos e maldições, dos ódios e vinganças,
dos braços musculados que se quedam inertes,
dos que estendem as mãos,
dos que olham sem esperança o dia que há-de vir;

-Mamãe!
sonho que, um dia,
estas leiras de terra que se estendem
quer sejam Mato Engenho, Dàcabalaio ou Santana,
filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
serão nossas.


António Nunes (poeta caboverdiano)

19.2.07


Morna


As mesmas casas... as mesmas ruas...
o mesmo largo...
Só os rostos dos homens é que não são os mesmos
e, ébrios, os braços pendem, os homens tombam...

Som de violino escapando-se da casa térrea.
Cheiro a petróleo e a fumo.
Quêrèna treme os dedos sobre as cordas,
olhos vidrados, berra por mais gróg!

Titina sente-se frágil sob os braços de Armando.

A Morna traz ao corpo a lassidão e o sonho,
como a lua pondo sombras em coisas impossíveis...


António Nunes (poeta caboverdiano)