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22.11.10

Eclipse


que vozes inóspitas do coração rompem
à procura da estrela da madrugada?
que conivência é esta? e que aves irrompem
desta muralha de zinco sem passagem?

que mão presa é esta? que excessivo horizonte
de musgo ou barro manso ou talvez nada?
que aspereza é esta? que indigência de som
por pistas nem reais (só simuladas)?

ó escondida fúria de águas mansas
de sol sem viço e pedra e rama escura
de velhas curvas árvores tão dobradas:

aqui num rio de sombra aqui secura
um animal mortífero se insinua
do sono à madrugada tão esperada!


João Rui de Sousa

5.8.10

Vida e morte das palavras

Ladybird Art Print

São vivas quando
o coração do vento amadurece
e a voz vem de repente
e não se esquece
de estremecer as trevas
ou de roer as malhas
da rotina
ou de dar lenha e fogo
(matéria inesperada
e sibilina)
a um barco que arrefece.

São mortas quando
a morte nelas cresce
– com os seus cabelos ralos,
suas ramagens crespas, desgastadas,
seus ossos cabisbaixos
rolados sobre o nada.
São mortas se não queimam
a limalha sobrante – esse pó
de cães exaustos, de dias
fatigantes –
e em podridão se instalam.

João Rui de Sousa

3.7.10

O infindável dos pretextos poéticos

Tres Vignes IV Art Print

Até à evidência,
até ao clarear de aves nocturnas
em rotundos prados, até ao fogo
das queimadas
(até à queima de si mesmo
no centro das cavernas, entre cães
de Lascaux, bisontes de Altamira),
até ao gotejar da água e à lasciva
seda de dormir entre folhagens,
até ao lago fundo e até à cinza
duma penumbra errante (pragal
de nostalgia e de quebranto)
– há sempre atalhos rubros
para a escrita,
há sempre airosas rãs
para a nossa fala.


João Rui de Sousa

2.6.10

Conselho aos crentes

Magnolia Stretched Canvas Print

Não queirais entrar na dor que se constrói
de verso a verso, de sílaba a sílaba,
num fogo que se expande e adere à boca,
às páginas, às estrofes e às palavras,
queimando todo o corpo e a alma desavinda
ou aspergindo a voz da maldição
(a nossa e a do mundo)
na trémula incerteza de si mesma.

Adoradores de fé qualquer (terrena
ou transcendente) que tudo abarque
e salve e concilie:
não quebreis o encanto com tais nuvens
ou torturas de ardor e entendimento;
não procureis a lápide das dúvidas
colhidas em estações de desalento;
não vos afasteis do vosso rumo
de confiante e pendular porfia.

Não vos deixeis – ó crentes, cujo rosto
tem a candura de um áureo chamamento –
cair na tentação da poesia!

João Rui de Sousa

1.5.10

Que formalismo

Sun in the City Art Print


De lamber as palavras como se
rasas de silêncio elas fingissem
e não se trucidassem contra o vento
e não voassem fundo
e não ferissem?

De afagar as palavras como se
um aguçado arame não
nos arranhasse
e não despisse em nós
a veste que se cola,
a casca da aparência?

De alisar as palavras como se
não fosse duro e fundo
o solo de onde partiram
e o lancinante grito
que lá mora?

É sempre um homem que
por elas fala,
é sempre um coração
que aí adeja!


João Rui de Sousa

21.3.10

Pastoreio



É em íngremes serranias – e talvez ao luar –
que acompanho o gado (o vulto
das palavras) de que às vezes sou dono
e sou pastor.

Bem junto a ele, e vislumbrando ao longe
ruínas e caminhos, hortejos e silvedos
(e mesmo um corpo em chamas de guitarra),
reencontro o fio das frases e os poemas
– seus currais.

João Rui de Sousa

17.3.10

À tua espera

Sea Breeze I Art Print

Estou diariamente à tua espera
como quem espera um astro pela noite

Defino-te em segredos
Revejo-te em memória

Invejo-te
Construo a tua boca sem palavras
Construo este silêncio em que me prendo.

João Rui de Sousa

12.3.10

A Vocação dos Poetas

Dandelions Art Print

Como quem pega na vida
por vezes além da hora,
como quem treina o palato
com limões de estranha história,
mas que decorre do acto
de nada deixar de fora,
tal é a voz que é semente
e que é fruto e é fermento
de quem em fogo labora,
de quem em chamas se sente:

Sem pagar juros de mora
cumpre sempre o seu contrato:
o de não esquecer os sonhos
nem omitir qualquer facto.


João Rui de Sousa

1.3.10

Límpidas Palavras

Orchidee aux Galets Art Print

Eram límpidas palavras:

eram insectos perfeitos
que não passavam por larvas;

eram águas em corrente
fruídas logo à nascença
no entremeio das fragas;

eram jovens diligentes
que sabiam como os lábios
ardiam antes da fala."

João Rui de Sousa,
In Quarteto para as próximas chuvas

9.2.10

Este azul que me convida

Fleur Bleue II Art Print

Sou este azul que me convida.

E transcrevo a paz, o sol dos dias.

E também, parto. E também ardo.

Depois disso desse suposto eu abreviado,
tão transparente e nítido, mas
tão transitivo
apenas gestos rasos que são cardos,
apenas pedras fundas que sao sombras,
pequenos meteoritos que são conchas
de deuses antiquissimos e cansados.

João Rui de Sousa


1.2.10

A flor que se espera

Lily I Art Print


Que maravilha de cor que azul e branco
nos teus ombros de pele alvoroçada!
Que recortada flor nos sedimentos
de um sol nascente e lassidão marcada!

Que distorção correcta e que alimento
de renovada fome enquanto o nada
aparece fortuito enquanto o vento
é cortina de pedra e não nos fala!

Que paz ou sombra... Não - que cumeada
a percorrer com o gesto em desalinho
em confusão de voz desatinada!

O sol está perto e longe do destino
vai-nos encher ou não de flores de vinho
que se esperam em espera tão esperada


João Rui de Sousa