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11.8.09

Tauromaquia


o duro touro o puro miserere
engendrado talvez a papel químico
levado até ao curro mais irónico:
um bode expiatório e ambidextro

o boicotado* o sem habeas corpus
um bicho apenas puramente o bicho
definido nos olhos* sem demora
definitivamente: apenas isto

luto de ferro curtido
fundido em curto-circuito
enxuto surdo centrípeto
e muito mais do que muito

enquanto a mão artificio
lhe pirotecnisa as feridas
na funda esgrima dos círios
de domésticas tentativas
de investimento da morte em outro ventre
porque o touro entre nós é como gente:
tenta matar sem compromisso
por puro vício

assim* na mesma praça a mesma casa
e menos do que sol: espanholada
o touro o um homem reincide;
apenas isto: uma maré em riste


Vasco Graça Moura

2.7.09

princípio do prazer

Peace Joy Love Art Print

à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.

Vasco Graça Moura

4.4.08

Canção autobiográfica


aos quarenta e dois anos, com um cão e o silêncio
da sua pata cúmplice, a solidão é uma
destreza atormentada; e o coração o incerto secretário
de agonia e desejo, variantes da alma.
aos quarenta e dois anos, com um cão e o silêncio.

canção, canção que nunca acabarias
de te escrever, vaivém das
tantas coisas.

Vasco Graça Moura

16.1.08

Crónica


Eram barcos e barcos que largavam
fez-se dessa matéria a nossa vida

marujos e soldados que embarcavam
e gente que chorava à despedida

Ficámos sempre ou quase ou por um triz

correndo atrás das sombras inseguras

sempre a sonhar com índias e brasis

e a descobrir as próprias desventuras

Memória avermelhada dos corais

com sangue e sofrimento amalgamados

se rasga escuridões e temporais

traz-nos também nas algas enredados


E ganhou-se e perdeu-se a navegar

por má fortuna e vento repentino
e o tempo foi passando devagar

tão devagar nas rodas do destino

Que ou nós nos encontramos ou então

ficamos uma vez mais à deriva
neste canto que é nosso próprio chão
sem que o canto sequer nos sobreviva

Vasco Graça Moura

9.1.08

Lamento por Diotima

Hebergeur d'images


o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?

amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã

que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,

num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?

Vasco Graça Moura