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30.9.10

Secaram os rios nos teus braços


secaram os rios nos teus braços

aguardo que me anuncies o verão
o novo caminho do teu corpo
e das fontes

morro de sede

como pássaro que anoitece
carregado de memória
suspeito
dos teus olhos amargos

detenho-me a roer os dedos
e adivinho

as aves mortas
como despojos do tempo

e o vento não lhes toca


Lourenço de Carvalho
Moçambique

3.7.10

Fomos denunciados



fomos denunciados
apanhados no escuro
por sabermos apenas
como se faz o esperma

mas onde a coragem
para mais geometria
que o triângulo das pernas
o mastro do navio?

a ti sei condenar
ó namorada mansa
minha toira-menina

eu preciso de ti
como de sal e livros
minha ave africana
ó mandrágora escura
eu decoro o teu corpo
de puta e sanguessuga

somos feras ou furúnculos?

só cordeiros nos olhos
devoramos os outros
trazemo-los na boca

eu e tu somos bichos
somos anjos de carne
corroídos pelo tempo
corroídos pelo vício
neste país de luto
nesta pátria de frio

Lourenço de Carvalho
Moçambique

2.6.10

Eu comedor de catedrais e mitos



eu comedor de catedrais e mitos
atravesso o deserto
com medos e verdades
sentinelas de carne a vigiar o dia

é a hora exacta
de apareceres no meu quadrante
influência súbita permanência e dia:
tu a fera o muro
o pássaro de plumas

serpente que se alimenta de mim
surges e devoras este corpo de fogo
reminiscência frágil de veneno e crime
ou fénix apenas renascida

em qualquer caso surges
exterminas ainda
a eventual sobriedade que denuncio

fidelidade não

não era permitido ver o sol
porque chovia

Lourenço de Carvalho
Moçambique


28.9.09

Agora escrevo-te meu amor


agora escrevo-te meu amor
e permaneço pássaro fugido
vigiando os teus medos se anoitece
os teus fantasmas franjados de queixume

atravesso as paredes com lâminas nos dedos
para chamar-te minha

nesta paisagem húmida
de lama cimento e vazio
arrasto as minhas horas
cilícios como espadas
de afiados gumes
e percorro as ruas
temendo-te livre
(o corpo farto de não saber
onde encostar-se e pernoitar
até onde ir para matar tanto tempo)

as meias-noites
passo-as a forjar no meu esconderijo

estes nervosos enigmas
com meu rosto no espelho
com meus olhos de vidro

e trago-te amarrada
por um caminho seco
por onde ninguém passa

aí é que te mato
para que sejas minha
e confias-me os pulsos
o corpo quente
de gazela ofegante
presa na armadilha

depois que fazer da distância
ou desta falta de jeito
para estar só
que fazer ainda dos teus braços
caídos na partida?

apago o último cigarro
e encosto-me
ocupado que estou
com a vigília


Lourenço de Carvalho
Moçambique