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18.6.10

Do mar o incriado nasce



A ilha existe não porque a achasses
mas porque a nomeias coração do vento
capaz deste segredo vontade grega
de amar o que a alma intui e cria.

E de tal modo ela seria e é desejo
que tudo esqueço para vê-la nua
devir do sentido no seu sentido vago
louco amor agreste que a utopia apela.

Na ausência de limites para o que sonhas
vacilante avanço ágil mas sem asas
sem medida luz do fragmentado verbo.

Rio e choro sendo a máscara e o rosto
Nomeado língua capaz do que não sei
Suspenso o tempo do mar o incriado nasce.

(Ilha de Moçambique, 1952)
Duarte Galvão / Virgílio de Lemos
Moçambique

14.7.08

Beijo-te Inteira África


Meus lábios procuram-te avidamente
e no delírio do meu amor por ti
beijo-te inteira África
e sou cruel terno verdadeiro
Nos troncos esguios de altos eucaliptos
shindjingritanas e soas
fazem ninhos e amor
sem a consciência das coisas
metafísicas.
Nós escutamos ritmos de jazz puro
de John Lewis
ou com volúpia dançamos
novos ritmos de marrabenta.
Mas não estamos anestesiados
pela música e pelo amor.
Meus lábios procuram-te loucamente
e no êxtase de minha derradeira entrega
beijo-te inteira África
e parto angustiado.


Duarte Galvão / Virgilio de Lemos
Moçambique

7.4.08

Estado da Língua




E nesta evocação direi orgia
de silabados nomes
estalo da língua contra
o palatal sou erotismo
na vulcânica geografia
dos montes sinuosas cristas
desfraldadas consoantes
velas panos e vogais
vendavais cometas e
a quietude morna do tempo.

Nomes musicais conchas
búzios ecos que se impelem
se estreitam cetáceamente
pernas braços dedos
vulvas de estremecimentos
moçambicanamente mamas
mamilos magia
em ponta e na ponta
das línguas.

Matemwé Kirimba Kissanga monção
nos inventários de Meroé desejo e voz
crepuscular e mineral da errância
rituais da invenção Mecúfi
Mocujo e Pemba noites viajantes
esteiras e raízes aéreas
frangipanis baneanes
kifulo-me ouamiso-me iboizo-me e
sendo mil sou eu
no império dos sentidos
na mais pura tradição
submarina da malícia
da ironia mil e uma
noites d'Ali do mais feliz
dos mendigos estalo
da língua no palatal e
para quem sabe e pode
testiculares estrelas
sopros e saxos e
silabados nomes.


Duarte Galvão
Moçambique

5.3.08

O imaginário


O imaginário
tem o rosto feminino,
do mar
a ilha é a sua voz
que explode.
Tu és o irreal
que paira sobre os outros
as coisas.
A força da ausência
O que sonhamos e
nos foge entre
dedos: a areia.
Tu és a réplica
do oculto
a ilha a beleza
cruel o pleno
nas dores do vazio.


Duarte Galvão


14.2.08

Tocador de Piana



Negro tocador de canções
são lamentos febris sem eco
na noite das casuarinas dizem ...
Ah! mas dizem tanta coisa sem sentido
Negro tocador ...

A vida permanece num beco
sem saída, e a ideia dos sermões
morre no próprio templo.
Geme, pois, tuas canções tristes,
apertando nos lábios a "piana"

Na noite das casuarinas
Não morrem teus lamentos,
digo-te: outro negro tocador
anônimo, de olhos vendados ou não,
tocará outras canções tristes!


Duarte Galvão