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26.1.10

Desapalavrada



Inventei para ti uma palavra
com mil cheiros mil sabores
uma palavra onde coubesses inteiro
uma palavra pequena onde te escondesses
uma palavra extensiva
ao tamanho dos sonhos que em ti se incendeiam

inventei uma palavra
onde podes des-morar
uma palavra soalheira ou chuvosa
(se te apetecer)
isso uma palavra apetecível
uma palabra (em) que te deita(s)

inventei uma palavra interjeição
ah uh hi palavra (a)fonética
palavra misteriosa espiritual
uma palavra poema

inventei-te numa palavra
indizível e inefável


João Manuel de Oliveira Ribeiro

6.6.09

Silenciário



Um certo rumor de silêncio
cresceu nas ancas das palavras
após a entrega das bocas

escasseiam agora as explicações
na fronte excessiva do poema


João Manuel de Oliveira Ribeiro

6.4.09

Do inverno



perguntei pelas águas de fevereiro
como quem se fere nos pulsos

respondeste sendo um país líquido
com uma braçada de searas ao sul

reconheço-me húmido e pronto a trovejar


João Manuel de Oliveira Ribeiro

6.3.09

Do morrer



Sem raiz
à prócura de água
mor(r)o
estranhamente
ao pé
das acácias


João Manuel de Oliveira Ribeiro

6.2.09

Da tua casa



Se me pedires
deixarei que a casa me (na)more:
aceitarei a brancura
plantando-se-me na alma
as flores no parapeito janela
como transpiração fugaz da memória

e o chão adentrando-se

se me pedires
a casa é tua


João Manuel de Oliveira Ribeiro