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13.10.10

Companheiros


Vinde companheiros!
Que os vossos braços se abram
Aos nossos braços de amigos.

– Toma uma cadeira. Senta-te. Conta:
Desditas, anseios, desventuras
e desse fulgor ardente que se adivinha
no teu olhar, cavado das viagens,
como uma estrela numa noite morta...

Nós somos todos irmãos.

Ah, quando te invadir a solidão
e olhares à volta e sentires apenas
a presença perturbável dos teus ombros,
não estás só!
Vem até nós.
Estarás comigo.
Não será morta, a morta esperança
do teu olhar sem luz.

Mas, que fôlego ingénuo na aventura
te lançou em tão inóspitos lugares
deixando assim o teu lar, amigo?
Não contes, eu sei qual foi. Foi
essa vontade de produzir, de criar, de vencer...

Oh! nossa terra, oh nossa mãe!
Como se casam em nós os prodígios
da tua natureza forte!
O húmus inculto das florestas
brota em nós, freme em nós, canta em nós
no grito de todos os gritos,
na ânsia da tua descoberta!...
O amor dos nossos corações
transborda da nossa alma
como a força impulsiva dos teus rios...

Vês, companheiro, eu sou teu irmão,
toma a minha mão, dá-me a tua mão.


Alexandre Dáskalos (Angola)

3.7.10

Porto



Havia nos olhos postos o sentido
de não vencerem distâncias.
Calados, mudos, de lábios colados no silêncio
os braços cruzados como quem deseja
mas de braços cruzados.
Os navios chegavam ao porto e partiam.
Os carregadores falavam da gente do mar.
A gente do mar dos que ficam em terra.

As mercadorias seguiam.
Os ventos, dispersos na alma do tempo,
traziam as novas das terras longínquas.
Segredavam-se em noites e dias
a todos os homens
em todos os mares
e em todos os portos
num destino comum.

Os navios chegavam ao porto
e partiam...

Alexandre Dáskalos
Angola

7.6.10

Poesias



Quando eu morrer
não me dêem rosas
mas ventos.

Quero as ânsias do mar
quero beber a espuma branca
duma onda a quebrar e vogar.

Ah, a rosa dos ventos
a correrem na ponta dos meus dedos
a correrem, a correrem sem parar.
Onda sobre onda infinita como o mar
como o mar inquieto
num jeito
de nunca mais parar.

Por isso eu quero o mar.
Morrer, ficar quieto,
não.
Oh, sentir sempre no peito
o tumulto do mundo
da vida e de mim.

E eu e o mundo.
E a vida. Oh mar,
o meu coração
fica para ti.
Para ter a ilusão
de nunca mais parar.

Alexandre Dáskalos
Angola

19.5.10

Maria



O meu amor está triste
e enche-me de cuidados.

Onde está a almofada dos bilros?
Já provaste os dendêns com açúcar?

Não reduzas a valsa a um cheese-burguer
num pub desconhecido!

Ele disse-me - não canses os olhos nos bilros.
O meu amor está triste e enche-me de cuidados.

Alexandre Dáskalos
Angola

18.4.10

Carta



Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo p'ra sofrer
Boca para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica feito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.

Alexandre Dáskalos
Angola

21.3.10

A Sombra das Galera



Ah! Angola, Angola, os teus filhos escravos
nas galeras correram as rotas do Mundo.
Sangrentos os pés, por pedregosos trilhos
vinham do sertão, lá do sertão, lá bem do fundo
vergados ao peso das cargas enormes...
Chegavam às praias de areias argênteas
que se dão ao Sol ao abraço do mar...
... Que longa noite se perde na distância!

As cargas enormes
os corpos disformes.
Na praia, a febre, a sede, a morte, a ânsia
de ali descansar
Ah! As galeras! As galeras!
Espreitam o teu sono tão pesado
prostrado do torpor em que mal te arqueias.
Depois, apenas pestanejam as estrelas,
o suplício de arrastar dessas correias.

Escravo! Escravo!

O mar irado, a morte, a fome,
A vida... a terra... o lar... tudo distante.
De tão distante, tudo tão presente, presente
como na floresta à noite, ao longe, o brilho
duma fogueira acesa, ardendo no teu corpo
que de tão sentido, já não sente.

A América é bem teu filho
arrancado à força do teu ventre.

Depois outros destinos dos homens, outros rumos...
Angola vais na sede da conquista.
Hoje no entrechoque das civilizações antigas
essa figura primitiva se levanta
simples e altiva.
O seu cãntico vem de longe e canta
ausências tristes de gerações passadas e cativas.
E onde vão seus rumos? Onde vão seus passos?

Ah! Vem, vem numa força hercúlea
gritar para os espaços
como os dardos do Sol ao Sol da vida
no vigor que em ti próprio reverberas:

- Não sou cativo!
A minha alma é livre, é livre
enfim!
Liberto, liberto, vivo...

Mais... porque esperas?
Ah! Mata, mata no teu sangue
o presságio da sombra das galeras!

Alexandre Dáskalos
Angola

16.3.10

Maria



No temporal da revolução
os baús de enxovais
preciosos
das raparigas casadoiras
naufragaram.
Ainda hoje me consolo
com as leituras de Marx.
E, no entanto,
perdi meu enxoval.

Alexandre Dáskalos
Angola

20.2.10

Manhã


Erguida do fundo das águas plácidas
dum lago surge Mulher.
Limos na pasta dos cabelos
escondem o mistério dos olhos
olhando a curva do seu ventre.
Flutuando
entre sombras e reflexos
duma luz longínqua,
a forma dos braços
ganha o mais e mais fundo das águas.
Os seios erguidos
apontam ao longe
a aurora que vem.
Em volta,
musgos, líquens, algas,
em fosforescências arbóreas
de constelações que lembram
os recessos da vida.
Em plantas aquáticas, marítimas,
chegam-lhe da floresta
lutas de homens, desesperos e cansaços,
feras e povos divididos, misturados
confundidos
para a sua criação.
E tudo esquecido ou ignorado,
só no lago
o corpo erguido,
jovem,
abrindo nas sombras o seu perfil que nasce
o seu perfil de Mãe
dos Homens do futuro.

Alexandre Dáskalos
Angola

20.7.08

Mulher negra




Mulher negra
mulher sofredora
sem lágrimas de pranto
cadela de filhos roubados
afogados e açaimados
mulher do branco
prostituta dos matos e das ruas fáceis
mulher dos seios amplos cujas tetas
de loba amamentam filhos
-rómulo e remo –
dos espólios do seu ventre
mulher besta-de-carga da lavra
e do pão da boca dos filhos
mãe de filhos abandonados
amparados nos seus braços
estranhos e banidos
no instinto de repulsa
das duas cores
entre as duas cores
do arco-íris da terra
entre os seus braços
o único refúgio
o certo amparo
o seguro refúgio
dum coração sereno

mãe
mulher das longas vigílias da febre
do sertão
travesseiro e amparo
num coração desamparado
dando-se sem esperança
mulher de corpo gasto
sem lábios já para sentir
o travo da traição
mulher que deixa o cadáver insepulto

às hienas e à noite
de animal abandonado
mãe dos filhos abandonados
mãe dos filhos que matam por vingança
mar dos filhos que procuram redimir
a carne dos pecados do mundo
mãe do alento da última esperança
mãe cujos filhos saberão
saber dos privilégios
das tuas virtudes
e dar a mão a todos os homens
na face da terra

mãe
nada pelo que passaste
e sofreste
mãe
será em vão

Alexandre Dáskalos
Angola

5.7.08

Despertar




acorda
erguido como o sol sobre as montanhas...


estende os braços
à vida que te chama,
e canta!...

vai!...
e de cabelo ao vento,
constrói a vida pela raíz da dor no fogo das entranhas.

vai!...
e que os olhos
e os lábios
vejam e saibam
do fragor da luta...

filho da terra que te deu o ser,
corre no implulso da enchente
tropical
dum sangue quente,
e em tempestades de amor
troveja e geme
na alegria de lutar
e de viver!

sereno como o rio
que volta ao leito,
dá-te para os outros
- seu irmão -
irmãos que sejam como tu:

dos pés à boca
homens
que não neguem
a sua condição...

há lobos
dispersos no caminho...

e vai,
a fronte juvenil
erguida
engrinaldada ao sol,
a vida
confiante no punho
dessas mãos viris...

irmãos, vinde!...
o sol ergue-se nas montanhas.
a vida não se fecha,
a todas faz florir...
a vida tem de ser aberta -
sejamos nós o fruto e a oferta
da árvore do porvir...

Alexandre Dáskalos
Angola

21.2.08

Poema

Eis-nos aqui no caminho
Traçado por nossa mão.
Cada braço traz o punho

e cada punho um punhal.

Bandoleiros na vida,

vida errante era o destino!
Nas costas nasceram traços

da vida dura sem pão.

Rugas dos covais da vida

cemitérios da ilusão!...
Mortos, mortos, mas com vida

quase à beira do chão.
Quase à beira do chão

rastejantes, vermes, podres!...

Pobre miséria do mundo

só o dinheiro é patrão.

Só o dinheiro é patrão

dos vermes sujos do chão
Cada verme traz um punho

com uma faca na mão.


Alexandre Dáskalos (poeta angolano)

21.1.08

Que é São Tomé


I

Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné

Eu foi São Tomé!

Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...

Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça

Eu vi São Tomé!

Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.

Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.

Que é São Tomé?

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.


II

Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?

A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.

A minha boca não fala
a língua da minha gente.

Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.

Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?

Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.

Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.

Quero ficar acordado.

Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?

Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.

Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.

Eu foi São Tomé!

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.

Aiuéé!

Alexandre Dáskalos (poeta angolano)