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5.1.11

Todos os cães



todos os cães mudos de luz à passagem do cortejo
o sorriso do homem do trombone de varas
pendurado no rebate dos sinos
cai uma chuva miudinha a amortalhar o som dos metais
a tenda das comédias ensopa debo-
tada de uma alegria de domingo
vêm as crianças pedir as janeiras à nossa porta
cantam na sua inocência de quem não
sabe da lama nos nossos pés
e afagam-nos com cantigas de cristal para
nos limpar da tristeza pressentida
enfim a tarde vai chegando muito cedo e olha-
mos as janelas iluminadas das casas
que são dos outros,
como quem passeia um cão na noite da consoada


Alexandre Sarrazola

1.9.10

peixe-aranha: patti smith: radio ethiopia


tenho as margaridas do teu vestido de verão; azuis e amarelas
o pêlo de raposa pelos ombros e o chapéu de lã não me enganam
a chuva oblíqua a fugir do outro texto; do texto do outro
"não entres nesse quarto"; a porta sempre fechada.

éramos secos de carnes e tínhamos cortado as mãos.
de rimbaud já só aquela faixa de sombra sobre o lado direito do rosto
a ampola de cloreto etílico pousada no chão de losangos pretos e brancos
o éter aspirado num lenço que se volatilizou como uma ave maligna
"é para a picada de peixe-aranha".

a banheira de esmalte estalada no rebordo
a água fria; os teus gatos que acordavam
o teu vestido de margaridas pousado num banco da casa de banho
e o efeito da ampola como um relampejo letal

a polaroid desse dia já começou a desvanecer-se
e não afoguei ainda a imagem do silêncio
virá comigo com os gestos por fazer
para o fundo do poço de mercúrio


Alexandre Sarrazola

5.8.09

Reis



está para chegar o inverno
desbotam as cores de estio no teu sorriso
são martinho atravessa a Rua da Palma
e a avó reza a santa bárbara

eu mordo o lábio quando tocam os sinos
no jardim zoológico abrigam-se os leões
passa a última fanfarra à nossa porta
chegou o tempo de jogar ao prego

virá o discurso do patriarca
e o radiador entre os pés e a televisão
o gato dorme ao nosso colo
vamos pôr os músicos sobre o musgo do presépio

depois chegam os Reis (é um dia sempre triste)
e sob a chuva de domingo a alma passeia
envergando o seu fato branco de janeiro


Alexandre Sarrazola