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10.11.09

Desgraça meu lóbrego destino



[Este é um caminho minado
e nele alguém tem que andar,
Para que se perpetue o mutilado]

Mau agouro, desgraça, negrura, negregura, naufrágio...
questão de opção
Neste meu módico dicionário ou palavras do dicionário à espreita
Isto não é fole de ferreiro!

Oh! Deus que me deixas ladrar à lua
Nestes dias martelados a ferro frio,
Nesta terra que mal me nasceste
E me empandeiraste na lonjura que de envolta
Um lôbrego destino, sabe
Isto não é fole de ferreiro

À discrição me deixas verter pranto
Nadando neste mar seco
Sem levar estas águas ao seu vento
E além enchendo de naufrágio
Este bandulho desalentado
E dia a dia,
Ruminando um póstero acorrentado,
Sabe, isto não é fole de ferreiro!

Oh! mãe que na caveira de burro me nasceste
E sem lume nos olhos
Me tornaste este verbo de encher
A marcar passo sem eira nem beira,
Que molejo me criaste mãe?
Neste relento à vela andando
Isto não é fole de ferreiro

Olha mãe, saiba que a vida continua,
será que num fole sonho renascer desta crónica
E não volto mais à vaca fria?
Isto não é fole de ferreiro mãe!


Noé Filimão Massango
Moçambique

6.10.09



Visto a selva,
No primeiro caminho da paisagem
não sei da matação sobre o vale
Nem do segredo das árvores galopantes
No vento sobre o dia
De verde urgente, no tal de presente,
Busco o luar em plena madrugada e acompanho,
Atravesso os rios de orvalho no inverno
à Busca dum segundo caminho no poente
E um segredo na descida acometida
Sobre o vento, galopante na monção.
O segundo me assesta o assento
Sobre o caminho do terceiro
Quando atravesso a foz do rio,
Verde,
Na selvajaria do asfalto Virgem
E me agacho,
No quarto,
Em maré de extensão
Na onda estreita da vegetação.


Noé Filimão Massango
Moçambique

6.9.09

Vem, das estradas longínquas da minha terra





Vem, das estradas longínquas da minha terra
Vem, das estradas do mar, do céu e do infinito
Vem, célere cruzando
As inúmeras vigas dos tempos e dos espaços
Na diversidade de terras e dos tempos que nos barra
Vem, falemos só uma lingua
Vem, das ruas claras das cidades
Na respiração pura das acácias e micaias da minha
Terra
Vem, da vegetação densa dos cactos
Das matas que eternizam a nossa máxima plenitude
Vem, das valas que sulcaram impunes nossa terra,
Drenaram nossa esperança, mas vem
Traga os ventos que morrem impregnados na ânsia
Traga também os tempos cravados na lápide
Traga consigo os destroços inesquecíveis do verbo
E do verso que já se desfaz em clamor
Vem,
Ganhem forma os ventos!
Na calada da noite ou com sol ardente
Vem,
Surja poeta como lua subtil
E ilumine nossas mentes à volta desta fogueira
Traga na memória dos tempos
A dócil palavra dos povos
O canto perene das almas
Vem,
Traga os destroços do meu país por aí recalcados
Na imensa vegetação de versos
Traga da espuma homogênea do índico
A poesia e o clamor de África, traga meu irmão!
Traga do meu Índico sedento
A maresia que nos incha as almas de vertigem
Traga, meu irmão, traga
Quem exaltará a dor e Cl[amor] do nosso povo
Minguado?
Quem exaltará o peito habitado de Tchopo
Ritmo que dançavamos á roda a madrugada na
Nossa terra?
Quem exaltará no peito,
Ngalanga que retumbava ao entardecer na nossa
Zona?
Aquela ngalanga que tocavas e evocava Duma Ka Zulu se lembra?
Quem exaltará nos sonhos
Nossa casa possessa do espirito Ndaw?
E a nossa timbila de zavala
Que tocava e dançavamos ao ritmo chope, então?
Canta nesta fogueira seu povo
Conte sua história nesta fogueira antes que se
Apague
É a podridão do nosso povo, não é?
Fale,
Fale então da podridão dos negros
Á falacia com que se inventa um sorriso
Quando se inicia uma história, uma lenda, um conto...
Então, Conte!
Cada história um povo
Cada verso um rosto
Cada voz um timbre
Nesta brasa de letras que se esfuma a poesia
Traga essa chama que a alma atea
Nesta fogueira da alma que ao texto ilumina
Traga o verso e nada mais
Na calada da noite,
Ou com o sol ardente, vem
Traga a voz que dilacera os conceitos
Traga a força apocaliptica do verso comprimida em
Suas mãos
Traga de tudo que nos é consentido saber
A poesia será o doce orvalho
Que nos delicia delicadamente as almas
A cada verso que se liberta do seu peito pulmonado
Para esta fogueira,
Traga aquela melodia subtil
Com que os corvos pacientaram as noites cegando
Aquelas melodias, com que as cigaras cantaram
E iluminaram as noites de Nkaringanas
Nkulukumba,
Desça tatana dos céus relampejando
Solte na sua luz um pedaço de tempo que já
Perdemos
Fale da inocência dos versos de ontem e de hoje
Oprimidos
Do folclore do nosso povo escaldado
Tatana tatana,
Há homens que incendiaram nossa palhota de preces
Homens que no arminho recalcaram pedra
Há homens que no charuto tostaram uma palavra
Então, traga a semente
Que germinará a casa e árvore poética dos puerís
Tatana tatana,
Desça macumba das nossas mínguas e soluços
E nos aponte com destreza mesmo ofídica
Que aquele oficio é poesia
Que aquele minguado é poeta
Com os versos guardados no seu bolso só para ele!
Traga tatana esse poeta
Traga da cabeceira os sonhos desse poeta
As lágrimas dum poeta pingados na pedra
Traga dos escombros também um verso
Da palavra uma míngua, do verso um amor
Da poesia as almas
Dê-me esse trago agora tatana
Antes que o vento maldito nos apague
Nossa fogueira de lenha
Quero dizer um poema também
Quero contar uma história também
Traga também seu xiphefo tatana
Que ilumina estrelas aqui cintilando
Tantas cobertas de neve que não as vejo
Traga tatana depressa
Tio mbalele quer dizer seu poema
Tio Mbalele quer contar sua história
Tio Mbalele quer cantar
Traga tatana traga ... He, já começou!
-Nkaringana wankaringana!
-Nkaringana wankaringana!

Noé Filimão Massango
Moçambique

2.8.09

Meninos do outono?



Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

Gritam puerís
Ainda em primaveras de pombas
ninguém cála seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Pelas manhas,
Se espalham as grotas do silêncio
Que drenam ao mar,
Suas emoções ocultas diluidas

Ode ao verão
Aquem se despeja e se limpa o suor
Daqueles homens cheios de torpor!
Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

No inverno
Sacodem suas gangas caregadas de orvalho
Embalam suas cangas homens de sóbrio
ninguém escuta seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Mas gritam homens do stéreo
não serão estes os meninos do outono?

Noé Filimão Massango
Moçambique

6.7.09

Para esta Fogueira de Letras



Vem, das estradas longínquas da minha terra
Vem, das estradas do mar, do céu e do infinito
Vem, célere cruzando
As inúmeras vigas dos tempos e dos espaços
Na diversidade de terras e dos tempos que nos barra
Vem, falemos só uma lingua

Vem, das ruas claras das cidades
Na respiração pura das acácias e micaias da minha
terra
Vem, da vegetação densa dos cactos
Das matas que eternizam a nossa máxima plenitude
Vem, das valas que sulcaram impunes nossa terra,
Drenaram nossa esperança, mas vem

Traga os ventos que morrem impregnados na ânsia
Traga também os tempos cravados na lápide
Traga consigo os destroços inesquecíveis do verbo
E do verso que já se desfaz em clamor
Vem,
Ganhem forma os ventos!

Na calada da noite ou com sol ardente
Vem,
Surja poeta como lua subtil
E ilumine nossas mentes à volta desta fogueira
Traga na memória dos tempos
A dócil palavra dos povos
O canto perene das almas

Vem,
Traga os destroços do meu país por aí recalcados
Na imensa vegetação de versos
Traga da espuma homogênea do índico
A poesia e o clamor de África, traga meu irmão!
Traga do meu Índico sedento
A maresia que nos incha as almas de vertigem
Traga, meu irmão, traga
Quem exaltará a dor e cl(amor) do nosso povo
minguado?
Quem exaltará o peito habitado de Tchopo
Ritmo que dançavamos á roda a madrugada na
nossa terra?
Quem exaltará no peito,
Ngalanga que retumbava ao entardecer na nossa
zona?
Aquela ngalanga que tocavas e evocava Duma Ka Zulu se lembra?
Quem exaltará nos sonhos
Nossa casa possessa do espirito Ndaw?
E a nossa timbila de zavala
Que tocava e dançavamos ao ritmo chope, então?
Canta nesta fogueira seu povo
Conte sua história nesta fogueira antes que se
apague
É a podridão do nosso povo, não é?
fale,
Fale então da podridão dos negros
Á falacia com que se inventa um sorriso
Quando se inicia uma história, uma lenda, um conto...
Então, Conte!
Cada história um povo
Cada verso um rosto
Cada voz um timbre

Nesta brasa de letras que se esfuma a poesia
Traga essa chama que a alma atea
Nesta fogueira da alma que ao texto ilumina
Traga o verso e nada mais
Na calada da noite,
Ou com o sol ardente, vem

Traga a voz que dilacera os conceitos
Traga a força apocaliptica do verso comprimida em
suas mãos
Traga de tudo que nos é consentido saber
A poesia será o doce orvalho
Que nos delicia delicadamente as almas
A cada verso que se liberta do seu peito pulmonado

Para esta fogueira,
Traga aquela melodia subtil
Com que os corvos pacientaram as noites cegando
aquelas melodias, com que as cigaras cantaram
e iluminaram as noites de Nkaringanas

Nkulukumba,
Desça tatana dos céus relampejando
Solte na sua luz um pedaço de tempo que já
perdemos
Fale da inocência dos versos de ontem e de hoje
oprimidos
Do folclore do nosso povo escaldado
Tatana tatana,
Há homens que incendiaram nossa palhota de preces
Homens que no arminho recalcaram pedra
Há homens que no charuto tostaram uma palavra
Então, traga a semente
Que germinará a casa e árvore poética dos puerís

Tatana tatana,
Desça macumba das nossas mínguas e soluços
E nos aponte com destreza mesmo ofídica
Que aquele oficio é poesia
Que aquele minguado é poeta
Com os versos guardados no seu bolso só para ele!
Traga tatana esse poeta
Traga da cabeceira os sonhos desse poeta
As lágrimas dum poeta pingados na pedra
Traga dos escombros também um verso
Da palavra uma míngua, do verso um amor
Da poesia as almas
Dê-me esse trago agora tatana
Antes que o vento maldito nos apague
Nossa fogueira de lenha
Quero dizer um poema também
Quero contar uma história também

Traga também seu xiphefo tatana
Que ilumina estrelas aqui cintilando
Tantas cobertas de neve que não as vejo
Traga tatana depressa
Tio mbalele quer dizer seu poema
Tio Mbalele quer contar sua história
Tio Mbalele quer cantar
Traga tatana traga ... Eh, já começou!
-Nkaringana wankaringana!
-Nkaringana wankaringana!


Noé Filimão Massango
Moçambique

4.3.09

Nuas feiticeiras



Nuas feiticeiras
Do verão estão completamente escaldadas
Nuas feiticeiras,
Constam das trevas do etéreo
Suas faces já não brilham mais
Seus olhos já não sonham mais
Seus corpos bamboleiam e logo se desfazem
Nuas feiticeiras,
Fazem por enquanto da faça a sua graça
Já conhecemos!
São elas mesmas... Nuas feiticeiras!
São mesmo desgraças.
Nossas feiticeiras,
Constam das bíblias recentes inominadas
Fazem parte dos enigmas do presente encomendado
Oram sempre
Enjeitando se curvam de crentes
Em orações de versos torpes
São elas mesmas... Nuas feiticeiras!
Já conhecemos,
São mesmo desgraças!


Noé Filimão Massango
Moçambique

16.2.09

Foram 7 anos



Foram milhas de percurso
Limbo a limbo
Verso a verso
Na carestia com que se busca tal ousadia,
Foram 7 anos,
Milhas de percurso,
Verso a verso
Em Cada texto um rosto
Perdulários do nada mesmo
Viemos do nada
Do Ocidente não podemos...
Só de Matanato nossa terra natal
Em 7 anos!
Endividamos a nossa própria desgraça
E morreremos assim mesmo
Caiporas do além e do confim
Nossos barcos de papel,
Ainda temos de volta
Não aportamos em limbos
Porque sabemos onde vamos
Aqui, ali e acolá
Buscamos o retiro
Para mais um suspiro
Uuff!...
Foram 7 anos!
Em 7 anos
Quantas vezes depomos as faces irmão,
Ante miragem com que desfaleciam nossos sonhos?
Quantas vezes cruzava em seus olhos
Aquele sorriso fingido meu irmão?
Quantas vezes cruzava em seus olhos
Uma lágrima que desfalecia num arco íris?
Quantas vezes irmão? Em 7 anos!... Quantas vezes?
Foram 10 anos caramba!
Em 10 anos
Quantas vezes vergamos nossas pupilas meu irmão
Ante o brilho candente das nossas estrelas?
Quantas vezes enterramos nossos passos
Só porque construíam um mundo a lodo?
Quantas vezes irmão?... Quantas vezes?
Na ironia dos nossos versos!
Foram 7 anos!
9 anos?
Afinal quantos anos foram irmão?
7 anos
Encarnando em nós mesmos
A sinfonia das cigarras em cada solidão sofrida
O cantarolar húmido dos galos em cada amanhecer sentido
O grito inoportuno do nosso vizinho espinhado
Na nossa cidade extremamente violenta!
Foram 7 anos!
Em 7 anos,
Quantos espelhos deixaram de reflectir nas nossas faces?
Quanto brilho não vislumbrou na cor dos nossos cabelos?
Quantas bolsas não encaixaram nas bocas das nossas axilas
E quantas algas semeamos no jardim das nossas flores?
Quantos anos foram 7+7?
Na antítese dos nossos versos
Foram 7 anos irmão!
7 anos
Ao silêncio cru da luz que está por vir
Aos passos erráticos num ermo extremamente enfermo
Foram 7 anos
Ao paraíso onde o caipora nos trouxe o consolo
Mas 7 anos
Do sabor acre das palavras anatomopatológicas
Do doce da esperança que ainda está aí por vir
Mas 7 anos,
Do punho que já nos ergue irmão
Foram 7 anos
Mastigados pedra e cal
Ao sabor acre das nossas palavras sem sal
7 anos
E em cada sulco da vida que se abre irmão
Arrumaram-se os anos devagar,
Foram-se os versos irmão!
Foi se a nossa idade na ânsia
E hoje,
Estamos aqui
Do olhar já se juntam as cores
Na sombra da noite sobre as flores
Nenhuma pétala murcha nos mostram irmão
Nenhuma alga murcha nos mostram irmão
Quem não colherá de nós uma rosa?
Quem não colherá de nós uma esperança?
Foram 7 anos irmão!
7 anos!


Noé Filimão Massango
Moçambique

5.2.09

Ritmos do meu povo




Segui brechas sombrias de ritmos
sulcadas na mbila dum povo alegre
segui flautas, frémitos, pausas, silêncios...
timbres de vozes inchadas de vertigem
segui célere,
ritmos do meu povo
timbres de vozes isoladas
e no verso,
um povo cruzado em favos.

Segui brechas sombrias de ritmos
no instinto e na origem
timbres do meu povo
segui vísceras,
no ventre duma lágrima
ténue, e devagar...
Ritmos do meu povo

Segui brechas sombrias de ritmos
e nos escombros da vida dum solo
encontrei uma palavra,
encontrei uma penumbra
dum menino alegre colorido de lágrimas
com um tambor de nada ás costas
baquetas de ferro em punho e carnívoras
naquele menino da pátria feliz!
naquele menino feliz cruzado de sonhos!
naquele menino feliz pousado de canto e que canta!
Ritmos do meu povo,
segui brechas sombrias de ritmos.


Noé Filimão Massango
Moçambique

4.2.09

Escreva mãe




Escreva mãe
Escreva,
Porque hoje estilo,
Verso a verso
O estalo que me acontece ao acalho
Não me cale mãe,
Se é que encalho,
Deixe-me enxuto
Deixe-me sepulto
Neste poema que se instala
Emudecido em talco

Escreva,
Escreva mae,
Escreva,
São pássaros!
pássaros!
pássaros e não andorinhas
Que bicam o arroz feito dos seus filhos mãe
Cantarolando saciados da nossa desgraça
São pássaros!
E eles, já não são mais pássaros mãe
São passaredos parasitas!
Que dos quatro cantos do mundo
Nos inundam e cantam mãe
E do espaço que nunca lá estivemos
Voam, voam e voam
Depositam grão a grão
O purificado cereal dos seus bossudos ventres
Olha para eles mãe!
São pássaros!
pássaros!
No brio adestrado das suas asas
São pássaros mãe!
Quantos grilhões lhes prende sozinhos ao espaço?
Quantos grilhões lhes prende à liberdade dos pássaros?
E a nós mãe! No vazio das nossas negras mãos?

Noé Filimão Massango
Moçambique