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11.2.11

Travelling III


Limpei os óculos a uma mulher a quem esqueci o nome.
Nunca lho perguntei. Foi um acto de amor. Falámos e de tudo o que dissémos
nada foi importante.
Jamais senti desejo de revê-la.
Despedi-me de seu corpo
rasguei-o sem perder-me.

Tudo isso e o ladrar de um cão
ficará na memória.
Talvez renasça um dia numa saga. Comigo
passa-se com os animais o mesmo que se passa com as pessoas.
gosto deles mas temo aproximar-me. Sinto-me tão exterior às coisas.
Uso-as com o máximo de desonestidade
mas isso não me preocupa,
tenho a vida inteira à minha frente para sentir remorso.


Eduarda Chiote

2.7.10

Morte


Não encontrei – e não há solidão maior! – com quem chorar
A morte de um amigo que se não
Despediu.
Fica tu, sejas tu quem fores,
fora dela.
Não lha mereces.
Sereno, o sofrimento já não dói.
É apenas uma tristeza
bonita.
Precisei-vos tanto, tanto!
A vossa presença
teria tornado mais leve a minha mágoa: mas a vida
que anda para trás e para diante
não parou.
Ninguém, nenhum de vós
veio trazer-me o consolo de uma lágrima.
Ainda bem.
Ter-vos-ia dito: se me virem na sarjeta, pisem-me em cima;
se me querem
bem,
não se condoam.
Por agora, nem sequer preciso de um colchão
para descansar como fazem os vivos – dormirei dentro
de um contentor
e aí chorarei sozinha
o meu amigo.
O meu amigo.
Ele é hoje uma semente
na terra.
Esta
sentirá a fome de suas mãos
quando um camponês
semear nela
uma batata grelada: e, então, quando a minha apertar,
mastigarei palavras limpas: honestas
como o eram
as suas.
O meu lugar à mesa onde ele me servia o vinho
à refeição
e ouvia os desconcertos
está desolado; por isso te peço,
vazio a quem nunca menti, deixa-me albergar
no teu nada – morar
dentro de ti.


Eduarda Chiote

1.7.09

O sexo do texto


Espero-te
esmagada de fúria.
Se vieres, com a descarnada volúpia de um tigre, acenderás de novo
o meu desejo.
Uma brasa! uma brasa!
me queimará o pêlo. Não o desviarei.
Redondo é o calor e o sexo
deste texto. A ele me acolho,
desprotegida.
A nudez é rugido. Minhas… as garras: o verde
brilho enrijecendo no que faz explodir
o olhar do gato
aninhado em teu peito.


Eduarda Chiote