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14.2.11

abre o teu manto de burel



abre o teu manto de burel
amado
e arrasta-me sobre as madressilvas
que do corpo já não sinto o meu
deixa
cair o pano que teceste
e recorta-o
segundo o teu molde
saber-lhe-ás dar destino
ler-lhe o poema original,
a utilidade que lhe justifica a vida
vesti-lo-ás
no dia da tua própria morte
e as marcas
que a tua irmã mais ingénua julga de framboesa
revelar-se-ão do teu próprio sangue
como o teu filho
que morreu sobre as garras do jardim
aquele que soubeste construir
para te subtrair ao medo


Ana Paula Inácio

6.12.10

Partir com os barcos


Partir com os barcos
e ferir os dedos
ao puxar das redes.
Mas o sangue, que se confundirá nas malhas, não será
ainda tão significativo como aquele que verterá o peixe
ao cair nelas.

Ana Paula Inácio
As Vinhas de Meu Pai

25.10.10

amanhã vou comprar umas calças vermelhas



amanhã vou comprar umas calças vermelhas
porque não tenho rigorosamente nada a perder:
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei à chave,
sublinhei as frases importantes,
aparei os cedros
fechei em código toda a escrita.

Amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agrícola
afiarei as facas
ensaiarei um número
abrirei um livro na mesma página
descobrirei alguma pista.

Ana Paula Inácio

25.1.10

queria que me acompanhasses



queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos

Ana Paula Inácio

5.12.09

Poema Feminino



vim para a cidade servir
servir o amor
e não uma feijoada fria
mas menina e moça
temerária
afastei-me das palavras sábias da avó
que não me desaconselhavam nem a floresta, nem os lobos
mas a cidade e os homens
e na cesta acumulou a dissimulação
que eu utilizaria como uma capa
mas enchi a cesta de morangos silvestres
queria servir com as palavras claras
do tempo dos reis e das princesas
mas o homem a quem amei
com as palavras, os cozinhados, o sexo
achou-os pesados, indigestos
como aquelas que encheram a barriga do lobo
da história que me tem servido de atalho
ai avozinha sempre deveria ter usado a capa
o homem sente a serva como rainha
e as palavras balas certeiras contra a caixa toráxica.
Novidades, novidades, é que não há caçador.


Ana Paula Inácio

30.9.09

Enfia as tuas mãos


enfia as tuas mãos
não te incomodes
arranca essa coisa que te dói
aprende as artes da mandrágora
nenhum líquido te sobrará
depois de já não haver mais anéis
— nem do meu cabelo, nem do teu —
depois de já não haver mais nada
deixa a marca
dos animais que dormem todo o verão,
a viseira do cavaleiro andante,
a roca e o fuso,
deixa a marca dos animais
o selo, o número, o uivo, a pega
deixa o rio
a seda, a prata, um fruto seco
a embarcação


Ana Paula Inácio