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12.2.09

A gaivota



«Quantas vezes já viajei
à roda do mundo? Cinco?
Seis? Sete?
Sim, foram sete!
Fascinante vida
Fascinante aventura!
Agora estou velha
e doente.

No topo deste guindaste
na Ribeira
contemplo
quem sabe pela última
vez
a Ponte de D. Luís
e o Mosteiro da Serra
do Pilar.

Será este o meu último
sono? O sono da morte?»

Depois
quando acordou
ei-la voando
veloz sobre a Meia Laranja
a Cantareira e a Foz.
Ia em busca
do Grande-Mar-Oceano
para enfim descansar.


Papiniano Carlos



2.1.09

Cântico



Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.

E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.

E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:

Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza

é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.


Papiniano Carlos (1918)