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17.3.11

Homenagem a Hoji-ia-Henda



peito ao vento
na anhara em chamas
Hoji valente
De coração henda
Braço e arma
Um só

nem o leão ousado
ruge mais:
no troar dos passos
Hoji comandante
de coração Henda
o ritmo de combate

peito ao vento
na anhara em chamas
Hoji Camarada
em teus olhos Henda
um fulgor canta


Joffre Rocha
Angola

17.2.11

É triste



é triste calar os gritos dos nus
que andam à chuva com as solas furadas
é triste ver entronizar um déspota
para quem guardamos forcas nos olhos

é triste fuzilar alguém de olhos vendados
esmagar com bombas gente como percevejos
é triste sabotar uma vida em botão
e odiar crianças por amarem a verdade.

é triste esquecer as feridas e o sangue
dar de ombros e por terra deixar bandeiras
é triste ignorar a guerra e as balas
ou fingir coragem ao lado dos tanques.

é triste morrer ao dobrar uma esquina
sem ver a flor nascida com a madrugada
é triste viver assim atolados no medo
à espera que outros morram por nós.


Joffre Rocha
Angola

17.1.11

O combate



o combate está nas ruas
desde a primeira manhã.

nossas mãos empunham armas
nossos olhos luzem punhais.

no troar da fuzilaria
o combate está nas ruas
na pergunta dos órfãos
o combate está nas ruas
no luto das viúvas
o combate está nas ruas
em cada face
em cada lar
no escaldante do ar
o combate está nas ruas
desde a primeira manhã.

acessível aos cobardes,
o combate está nas ruas!


Joffre Rocha
Angola

27.12.10

Quando a manhã vier



quando a manhã vier
com um sol maduro
ofertando beijos
aos órfãos da ternura
quando a manhã vier
em apoteose de luz
a semear no vento
risos de alegria

quando a manhã vier
definitivamente
em alvorecer róseo
de paz e tranquilidade

de mãos nas mãos
saberemos chegado o nosso dia.

Joffre Rocha
Angola

17.12.10

Canção para Guevara



sobre a cordilheira dos andes
ainda hoje ribomba a tua voz de trovão.
e desde o alaska até à patagónia
em certas noites de bulício e tropel
teu inconfundível vulto desce aos povoados
a dar alento aos desesperados
e ao povo uma lição de tenacidade.
por toda a parte queriam teus braços
cavar alicerces de pátrias futuras
e se morreste na selva boliviana
teu coração para sempre pulsa
em cada campo de luta
nos arrozais do vietnam ou nos pântanos da guiné
para sempre vivo ao lado de cada valente
capaz de lutar e morrer pela liberdade.
escambray e sierra maestra
cantavam alto em teu sangue
por isso as balas assassinas
só disseminaram aos quatro ventos
a tua ordem de combate

porque eras um monumento de fraternidade
e tua pátria, o mundo inteiro.


Jofre Rocha
Angola

3.12.09

Paisagem do Nordeste



rio estátua
braço sem carne

chuva no mar
em terra seca

sol na paisagem
terra em desgraça

fome nos lábios
fome nos olhos

ossadas brancas
urubus em volta

terra em brasa
ar calcinado

plantas com fome
homens com fome

fome nos olhos
no ar morte

Joffre Rocha (poeta angolano)

29.11.09

Cântico de alforria

ontheroadtosantiago.jpg image by joannboma_2007

Vem, segura a minha mão
iniciemos um roteiro amargo de peregrinação:
pelo trilho batido do fundo da floresta
partamos até ao mar cruel
o mar sem fim, veículo da nossa servidão.

Não, não feches os olhos à tragédia
olha os negreiros ancorados na baía da nossa desgraça
os nossos irmãos acorrentados
como gado, sorvidos pelo negrume dos bojos insaciáveis
semelhando ventres de deuses bárbaros.
Virgínia, Alabama
Mississipi
sangue vermelho
suor de negro branqueando algodão
Cuba, Brasil
Martinica
mais sangue vermelho
suor de negro movendo engenhos de açúcar.

Eis o nosso povo sacrificado
eis a nossa gente
a nossa gente transportando mares e mares
carne da nossa carne
sangue do nosso sangue disperso pelo Mundo.

Vem, segura a minha mão serena
em passo firme caminhemos até à orla do mar algoz
escutemos as vozes perdidas na profundeza dos abismos
os ecos dos gritos abafados
congelados em pedaços de nossa carne ensangüentada
congelados em miríades de búzios abandonados ao sabor das ondas.

Vem, irmão, seca as lágrimas nas pupilas
toma a minha mão amiga
percorramos o mesmo trilho batido do fundo da floresta
na jornada de regresso que nosso povo não caminhou
e à volta da árvore milenar à beira do caminho
saudemos a alforria ansiada pela nossa geração.

Joffre Rocha (poeta angolano)

18.11.09

Poema do regresso



Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
não me tragam flores.

Tragam-me antes todos os orvalhos,
lágrimas de madrugadas que presenciam dramas.
Tragam-me a fome imensa de amor
e o queixume dos sexos túrgidos na noite constelada.
Tragam-me a noite longa de insônia
com mães chorando de braços vazios de filhos.

Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
Não, não me tragam flores...

Tragam-me apenas, isso, sim,
o último desejo dos heróis tombados ao amanhecer
com uma pedra sem asas na mão
e um fio de cólera a esgueirar-se dos olhos.

Joffre Rocha (poeta angolano)

1.5.08

Morrer na madrugada



Se morrer na madrugada
não me acordem
deixem-me dormir o sono calmo
de quem sonhando
levou a vida
Se morrer na madrugada
meus amigos
meus inimigos
não busquem misteriosas causas
não inventem histórias
de santas e kimbandas.
Sepultem-me
no pico do monte mais agreste
na raiz
do mais doido vento
sem batuque nem komba
sem pranto ou espanto
sem canjica nem carpideiras
sem dor nem quebranto.
Deixem-me dormir o meu sono
Se morrer na madrugada
peço, não me acordem
deixem as estrelas contaminar-se
na magia do meu sono

Joffre Rocha (poeta angolano)


21.2.08

Canto para Angola


Hei-de compor um dia
um canto sem lirismo
nem tristeza
digno de ti, ó minha terra.


Hei-de compor um canto
livre e sem regras
que de boca em boca vai partir
nos lábios dos velhos e meninos.


Será o canto do pescador
com todos os sons dos mar
com os gemidos do contratado
nas roças de São Tomé.


Será o canto de todos os dramas
do algodão do Lagos & Irmão
o das tragédias nas minas
da kitoka e da Diamang.

Será o canto do povo
o canto do lavrador
e do estudante
do poeta
do operário
e do guerrilheiro
falando de toda Angola
e seus filhos generosos.

(Assim se fez madrugada)


Joffre Rocha (poeta angolano)