Mostrar mensagens com a etiqueta Virgílio de Lemos (Moçambique). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Virgílio de Lemos (Moçambique). Mostrar todas as mensagens

29.11.08

Sem Título


O pêndulo entre a doçura e o sangue
balança entre a criação
e a morte.
E os monstros marinhos despertam
e povoam ter corpo interior
de dragões...
Na noite confundidas com as estrelas
cintilam palavras
que aguardam teus vorazes dentes
e teus beijos perversos.

Virgílio de Lemos
Moçambique

19.6.08

A língua é o exílio do que sonhas


O imaginário
tem o rosto feminino,
do mar
a ilha é a sua voz
que explode.
Tu és o irreal
que paira sobre os outros
as coisas.
A força da ausência
O que sonhamos e
nos foge entre
dedos: a areia.
Tu és a réplica
do oculto
a ilha a beleza
cruel o pleno
nas dores do vazio.


Virgílio de Lemos
Moçambique

8.6.08

A minha rua


o desmaiado sol
deixa que renasça
o fim da tarde
buganvílias reluzem nas
profecias e mitos
sol
de ausencias
submarinas estrelas
de violencias e desejo

as silhuetas de barcos
desenham tragicas
viagens,
dragões e anjos
a cores percorrem
o poente,
retratos antigos
renascem
vozes e poeiras
lanhos
no viço da raiva.

Da morte, a visao
Se veste de vida
Confundem-se de vida,
Confundem-se mares
E ilhas, amor e
Ódio

O fogo
Sobre as ondas
Resiste
O saber da lingua
Invade
O corpo inteiro
Cerro os olhos,
Mordo os labios
E o mar estremece.

Virgílio de Lemos
Moçambique

4.5.08

Native song n.° 1



Aqui,
o tamanho dum amendoim
é a medida do Universo.

Todo o meu sonho disperso
entre os homens e a terra,
o humano do meu olhar
e a dor que o teu encerra.
Todo o meu sonho disperso
entre meu anseio de posse
e a tosse que te corrói;
o que distingue morte e vida
a alegria e a luz em meu corpo
e a noite em tua alma perdida.

Mas aqui, Richard,
os sonhos aqui mirraram.

Não é verdade, Richard.
Não é verdade, Irmãos.
Os sonhos aqui cresceram,
porque o suor das mãos
quer dizer trabalho.
Aqui, José mulato
nos ritmos de sambas e brasis,
Castro Alves dos lados do mato,
ah, Zixaxa e Mafalala
ah, Xipamanine e Munhuana,
vai sonhando novos universos
liricamente desfolhando girassóis
ou mastigando castanhas de caju.
Aqui os sonhos cresceram
porque os poemas verticais
foram lidos, não se perderam.
Noémia escreveu poemas vigorosos
que religiosamente se leram.
Bertina em cores vivas e quentes
pintou a história da angústia
de um povo cuja história
se vai forjando em sofrimento.
Aqui os sonhos de quem passa
não se tornam bolas de sabão.
Para quem já sabe ler, desgraça,
os sonhos são uma lição
que só lhes causa embaraço.

Os negros que fumam ópio
e bebem canhos ou bagaços,
esses, Irmãos, não sonham;
embriagam-se apenas, e o ódio
que neles nasce sabe a álcool
e não tem sequer fundamento;
mas os que fazem blocos de cimento,
os que vivem nas construções,
os que cantam no cais,
os que perfuram as minas do Rand,
os que vendem peixe no bazar,
os que batem chapas nas oficinas,
os que são diligentes serventes,
esses e só esses devem contar
para os grandes sonhos de luar,
em que as danças acordam anseios.

Anseios de sonhar com outro luar,
com Mary Anderson e Nova Orleans,
Com Chicago, Nova York e Nova Orleans.

Aqui, Richard ou Gualter
a medida do Universo
não é o tamanho do amendoim,
nem a medida certa ou incerta,
Irmãos, dos versos que escrevi.
A medida do Universo, aqui
é a largueza dos sonhos de cada um.
Não importa a profundidade da cor.
Interessa apenas que o sonho
seja uma porta para uma humanidade
mais bela e menos ruim
mais viva tolerante e profunda
com princípio meio e fim.


Virgílio de Lemos
Moçambique

7.4.08

Branca a luz da madrugada



Branca a luz da madrugada, universal, luz
que se dilue na fantasia, em filigrana,
da memória, moura e manuelina, luz nua
que beija a sepultura branca e muda

como o mármore nu onde se lê seu nome...
Branca e secreta a luz, génese do inventado
espaço, escravas da sedução e rainhas,
agonias nas órbitas tácteis do seu corpo

Notas musicais, perversos amores e sabres
no meu calacute, índico, lúdico, olhar ficcionado
luz branca do meu inconsciente, textual enigma

Eu entro na sepultura como o desejado
príncipe, vulnerável aquele fugaz instante
em que seu corpo morto desperta em sobressalto


Virgílio de Lemos
Moçambique

4.4.08

Corpo de Bruma



Em pé no terraço da fortaleza, ele prescuta
o horizonte, como se esperasse alguém, forma
que se desenhasse, murmúrio que se escutasse.
Ele tem a percepção de um estado outro, um sonho

capaz de fundir o real e a ficção, sorriso
imperceptível, olhar sobre o rosto de beleza
e a beleza do gesto secular, corpo de bruma,
vida que palpitasse nos seus braços. Abandono.

Certa do silêncio da memória, a nau avança.
Um vulto incandescente acena, familiares vozes
que se perdem no ardor das vagas contra o tempo.

As estrelas brilham. Muda, a fulgurância das chamas
incendeia o coração, como se possível fosse
reviver um amor, anjo que a morte nos devolve.


Virgílio de Lemos
Moçambique

26.3.08

Sagrado coração dos meus anseios



1
Não faças de mim o que não sou nem
quero ser
não serei peixe nem ave nem
asa ou vento
nem gritos de quizumbas ao desdém
da lua
naus da fantasia, nem cega luz
da solidão nem
mais, nem...

2.
Serei antes o que sou, mulher
de mil segredos
mil mistérios no mar sem
fundo vulcão secreto
e frágil
de mim para mim.

3.
Não serei nem mar-terra nem
submersos desvelos nem
caos e cosmos
com tripas de fora versos
de dedilhar
pretextos de silabar.

4.
Tudo em mim é mais o mar que vivo
a experimentar
corpo oculto, outro em mim
a desejar
sonhos de agarrar
com as mãos
sagrado coração deste
meu mar
de fazer
desfazer
coisas
vulcão para mim
corpo de ausências
em mim
de amar
morrer
inteira
sem torcer.


Virgílio de Lemos
Moçambique

16.3.08

A Ilha e o Segredo



Visão
colada à bruma
no infinito ponho
do rosto do eterno
a transparência

Persa negro e branco
cabaias e cofiós
de seda e linho,
em pontilhado, aurora
minha utopia que sangra.

Nos mármores róseos
da fortaleza
tua consciência, livre
recria o nada.


Virgílio de Lemos
Moçambique

15.3.08

Paisagem



Negro gigante, teu músculo forte
está a perder a modelação antiga e bela;
no cais medonho as tuas mãos de aço
já se habituaram a não ter descanso;
teu peito largo tornou-se porto de salvação
de todas as poeiras de minérios estrangeiros;
teus sentidos perderam mesmo a vibração!
ao escutar o silvo agudo dos comboios chegando;
do outro lado da baía calma, cantando,
a tua gente trabalha nas salinas
e é mais feliz,
que os homens das minas
ou a gente da cidade.
Negro gigante, teu músculo forte
vai-se corroendo lentamente, inexoravelmente,
com a música cadenciada das grandes pás de ferro,
lançando minério nos porões dos cargueiros;
teu corpo forte vai mirrando,
perdendo a modelação antiga e bela;
abandona o cais,
e vai trabalhar nas terras da gente
que é tua e vive esperando por ti;
diz a teus irmãos
da febre que a todos domina e consome,
da insatisfeita fome
dos navios de todas as bandeiras,
e das gentes que andam descalças e nuas;
não lhes fales nas minas do Rand
e nos homens que regressam das minas;
fala-lhes deste cais
do que se passa nas fábricas e nas ruas,
e não voltes mais;
porque deste lado da baía calma
morreu a esperança de uma fusão fraterna
morreu mesmo o brilho das estrelas.
Aqui, os homens não se entendem.
Estão cerradas todas as janelas.


Virgílio de Lemos
Moçambique

11.3.08

A sombra da viagem


Como distinguir se o que ressuscitas
em mim, é a carne ou o sonho, língua ou luz,
se tudo em ti é determinação, e sangue,
se em mim o que perdura ainda é o teu grito?

No perdido paraíso de breves desmaios, sombras
em que o essencial e o supérfluo se diluem,
desgarrado serei o desvendar das imagens, fogo
como tu por mim serás, do mar, as vibrações

Alma com a força das vagas, delírio dos impulsos,
sóis de cólera e da contenção dos absurdos,
que se abrigam na paixão, como a luz nas grutas,

gritos que só o silêncio capta, como o sonho
sabe refazer a paisagem que o teu olhar exige
ou o contrário talvez mais trágica que o real


Virgílio de Lemos
Moçambique

8.3.08

A fortaleza e o mar


O tempo quadrado invade
o canonizado lugar e o Amor
deixa-se viver, Eros, talvez mar
desta reflexiva via, meditação.

O tempo e o lugar resistem
como o fruto e a flor. E teu olhar
sobre as coisas vigilante se nutre
de estrelas, de areia, sobressaltos.

Os mesmos fantasmas se cruzam
pela praia, nos paradoxos repetidos
entre a cobiça e o cego desejo.


Virgílio de Lemos
Moçambique

Cantemos com os poetas de Haiti




Cruzo os braços, Baby, e deixo-me ficar
Apreensivo e triste, meditando:
Tu, Baby, e os poetas nossos irmãos
Que escrevem cânticos no Haiti,
Sabem da vida incerta e vazia
Dos negros das ilhas e Américas
Dos que sofrem em África e Oceânia.

Lembras-te daquele poema universal
Que falava de desumanidade?
Lembras-te dos segredos nas entrelinhas
Dos poemas verticais da Noémia de Sousa
Sempre em papel amarelo?

Ah, se tudo fosse como nos sonhos belos
Cheio de romance e fantasia doce
Não haveria, Baby, o desespero
Nos cânticos dos poetas de Haiti
Nem segredos havia, fundos de angústia
Nos poemas verticais de desespero!

Ah, nem tudo, Baby, nem mesmo eu
Faríamos da poesia um cântico triste
E só falaríamos de paz, amor,
E numa sede constante do azul do céu!
Mas se é dor o mundo que nos cerca,
Cantemos com os poetas de Haiti
Uma canção amarga que se não perca,
Cantemos em uníssono, porque lá ou aqui,
Os segredos são iguais, fundos de angústia,
E os poemas verticais, também de desespero.


Virgílio de Lemos
Moçambique

5.3.08

Mãe negra

ao Baltazar Lopes, poeta de Cabo Verde


Não sei porque trazes
essa interrogação inquieta
no teu olhar...

Porque persiste secreta
mãe, a interrogação inquieta
que leio no teu olhar?
Quando ia ou vinha da escola
mãe, ainda conservo na lembrança
havia essa interrogação inquieta
no teu olhar...
Quando nossa irmã ainda criança
regressava exausta do trabalho,
ou quando já de madrugada
nosso pai voltava do jornal
cansado pela composição manual
mãe, porque essa interrogação
inquieta, no teu olhar...
porque essa tortura dominante
em silêncio doloroso?

Ah, mãe, um poeta amigo
escreveu-me de Paris para dizer:
... eu nada receio
que o receio é de quem desconfia.
Aqui a palavra mágica é Bom Dia
e a Paz, irmão de Moçambique,
a bandeira porque lutamos...

Ah, mãe, se nós vivemos em paz
(será que vivemos felizes?)
e nos queremos bem,
se teus filhos crescem
e se fazem gente,
se este bem-estar que nos cerca
não é aparente,
porque descubro ainda hoje
essa interrogação inquieta
mãe, no teu olhar?
Porquê essa amargura
constrangida que me aterra?
Porquê, mãe, desde que te vi,
quer o mundo esteja em guerra,
quer o mundo viva em paz,
(será que vivemos em paz?)
sempre presente e secreta
essa interrogação inquieta,
mãe, no teu olhar...


Virgílio de Lemos
Moçambique

24.2.08

Negro



Dorme a menina
enquanto o escravo vela.
E enquanto ela sonha
ele espreita a vida no limiar da janela.

Como seus irmãos
que cruzam a estrada
e arrastam grilhetas
ele sente esmagada
suas mãos e sua alma.
Como seus irmãos
aprendeu a esconder
a dor da sua dor.
Aprendeu a sofrer
e a sorrir sem rancor.

Seus olhos vão postos
na dona menina
que sonha e sorri
e pensam na cor
que deus deu à pele
da dona menina
e é causa da dor
da dor infinita
dos negros escravos
que são seus irmãos
e arrastam na estrada
pesadas nas mãos
mil saudades loucas
feitas de tragédia.

Dorme a menina
Enquanto o escravo vela.
E enquanto ela sonha
ele espreita a vida
no limiar da janela!...


Virgílio de Lemos
Moçambique

17.2.08

Entre as areias e o mar


Entre as areias e o mar viaja
o teu olhar. O teu corpo respira
com os sinuosos traços das vagas
e as sensações e a doçura e a ira

São a própria luz feita desejo.
O meu ópio será os teus anseios
e as palpitações de teus lábios
os gritos das gaivotas e os teus,

na fusão lúdica do sémen e dos rios.
Na confrontação devorado é o desejo
e enquanto a paixão parte, voa
o espírito em busca de outros sóis.


Virgílio de Lemos
Moçambique

31.1.08

Ouamisi




Será desta luz d'equinócio o manto verde azul
quem te confere teu ar de canto singular?
Será que o mistério vem mais da luz iridiscente
que de tua alma errante em busca da vertigem?

Etiópia Sudão Novo Mundo e Extremo Oriente
escravos e canelas, baixelas de prata bordados.
Será que posso falar de omnipresente osmose
entre o sagrado e o grito mineral da carne?

Efebos e mulheres, conquistadores e naus
entre o simulacro de uns, de outros a firmeza,
neste santuário de almas, a génese irrompe

como se o génio da memória e da paisagem
se beijassem na imediatez do que reclamo
e do oceano imprevisível, nascesses tu, ilha.


Virgílio de Lemos
Moçambique

22.1.08

Canção de Namuno a Chiloa






Ai, Chiloa, o milheiral perdido!
O chá, o arroz e até ao amendoim,
As bananeiras tragadas pelo rio,
Que também nos veio roubar vaca matu.
Ai, Chiloa, o rio tem Chicuembe.
Porque nem mesmo as orações dos crentes,
Aqueles teus irmãos lá da missão,
Conseguiram salvar as plantações.
Ai, Chiloa, o rio veio-nos despir
E nos levou os montes de sisal
Que raposa Monhé, ladrão do sangue
Dos plantadores nossos bons irmãos,
Nos pagaria a peso do algodão!
Ai, Chiloa, antes me levasse o rio
Na lama das suas águas pardacentas
E um veleiro gigante me abarcasse
Com rumo à cidade do sol e amor!
Ai, Chiloa, iria sem uma mainata
Ou trabalhar de noite na estiva
Dos enormes cargueiros estrangeiros
Que ao longe, no mar, vemos cruzar!
Hei-de ver mais de mil carros iguais
Ao do teu padre Cruz, lá da missão.
Hei-de ver meus amigos magaíças
E pedir-lhes tabaco do Transval!
Ai, Chiloa, mas eu não quero ir!
Não posso aqui deixar-te tão sozinha!
Espero que as águas fujam para longe
E o sol de novo brilhe mais ardente!
Vou deixar fugir esta tristeza,
Que mora nos teus olhos e nos meus.
Vou deixar morre esta amargura
Que em nossos corpos entranhada vive.
Pegarás na enxada e cavarás
Com mais denodo ainda nossos campos.
O milheiral dar-nos-á mais milho!
Teremos mais arroz e mais sisal!
Ai, Chiloa, a cheia engoliu tudo
Menos a persistência dos teus braços,
A carícia doce de teus olhos,
E o esforço futuro dos teus filhos.


Virgílio de Lemos
Moçambique