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23.11.08

Na praia da Catembe

CATEMBE - areal da praia_resize.jpg


Diz Carlos:
Que existe meu irmão
atrás daquele muro de pedra
que se avista da velha praia da Catembe?
Que existe
escondido dos olhos dos barcos que chegam
tão secreto que se deva ocultar
atrás daquela parede alta cheia de mistério?
Alonga a vista
e fura a parede de pedra que barra o horizonte.
Que vês?
Que sente tua alma?
Que fogo te abrasa?
Oh, mas diz
diz irmão
o que existe atrás daquele muro.
Di-lo em voz alta para os outros ouvirem
que eu já estou farto de o saber…


Albino Magaia
Moçambique

16.10.08

Descolonizámos o Land-Rover



Já não é carro cobrador de impostos
Nós descolonizámo-lo.
Já não é terror quando entra na povoação
Já não é Land-Rover do induna e do sipaio.
É velho e conhece todas as picadas que pisa.
É experiente este carro britânico
Seguro aliado do chicote explorador.
Mas nós descolonizámo-lo.
No matope e no areal
Sua tracção às quatro rodas
Garante chegada às machambas mais distantes
Às cooperativas dos camponeses.
Entra na aldeia e no centro piloto
Ruge militante nas mãos seguras do condutor
Obedece fiel a todas as manobras
Mesmo incompleto por falta de peças.
- Descolonizámos o Land-Rover
Com nossos produtos
Comprámos combustível que consome
Com nossa inteligência
Consertámos avarias que surgem
Com nossa luta
Transformámos em amigo este inimigo.
Nós, descolonizadores
Libertámos o Land-Rover
Porque também ficou independente, afinal
Transformaram-se os objectivos que servia
E hoje é militante mecânico
Um desviado reeducado
Uma prostituta reconvertida em nossa companheira.
Descolonizámo-la e com ela casámos
E não haverá divórcio.
De Tete a Cabo Delgado
Do Niassa a Gaza
Da sede provincial ao círculo
Este jeep saúda quando passa
O caterpillar, seu irmão
Outro descolonizado fazedor de estradas
E cruza-se com o Berliet atarefado
Ex-pisador de minas
Eles aprenderam com a G-3
Menina vanguardista na mudança de rumo
A primeira a saber e a gostar
A diferença antagónica
Entre a carícia libertadora das nossas mãos
e o aperto sufocante e opressor do inimigo que servia.
As mãos dos operários que o fabricam
são iguais às mãos dos operários da nossa terra.
Essas mãos inglesas que o criam
Um dia saberão que ajudaram a fazer a revolução
e vão levantar o punho fechado da solidariedade.
Ruge este militante nas picadas da Zambézia
Galga as difíceis estradas de Sofala
Passa pelos pomares de Manica
Pelo milho de Gaza
Pelas palmeiras de Inhambane
Na cidade do Maputo descansa.
Transporta pelo país os olhos dos estrangeiros amigos
que querem conhecer de perto a nossa Revolução
- Descolonizámos uma arma do inimigo
Descolonizámos o Land-Rover!
Aquelas quatro rodas de um motor potente
Aquela cabine dos mecanismos de comando
Aquelas linhas da carroçaria irmanadas ao medo
Já não afugentam o povo:
Homens, Mulheres e Crianças do campo
fazendo sinal ao condutor, pedem boleia.
Nós descolonizámos o Land-Rover
Por isso o povo já não foge.

Albino Magaia
Moçambique

14.4.08

No sul nada de novo


Ao mestre Craveirinha


Lá mais para o Sul
Mandela
continua a sonhar com uma estrela
Violas electrónicas do Soweto
vomitam notas de sangue
sobre os céus de Johannesburg
enquanto Miriam Makeba
curte o exílio na Guiné
Há joverns que morrem
suicidando-se em Smadje-Mandje
num contraste de preto e branco
com a sumptuosidade multinacional
nos lupanares do Transkey
Mama Winnie
essa grávida de coerência
continua a sonhar com o gesto íntimo de Nelson
depois de séculos de separação
como se fosse brincadeira
a interposição de Vorster e Botha
entre ela e os beijos do seu herói
Em Robben
há um militante não racista que morre
e os sobreviventes entoam Nkosi Sekelela
enquanto a noite da África Austral
ganha mais uma estrela
que não é ainda
a estrela com que Mandela sonha
Ouvi dizer
pelos jornais e pela rádio
que os filhos de Ghandi e outros deserdados
ganharam direito a voto lá no Sul
Só que os guerreiros de Tchaka
estão a morrer baleados ou enforcados
num ensaio geral organizado e eficiente
da nova edição modernado Dingana´s Day


Albino Magaia
Moçambique

14.2.08

Inundação


I

Chuva forte
Impetuosa chuva
Cai no povoado.
Vai fazer sorrir o campo
Vai alegrar santo milho
Vai fazer crescer feijão.
Todos olham
Todos esperam comer
Todos esperam matar fome.

II

Vão encher barriga negra
Vão encher palhota de reservas
Vão encher panelas todos os dias
E vão também calar boca de crianças.
Chuva cai fortemente
Chuva cai impetuosa
Chuva cresce lentamente as águas.

III

Engrossa, engrossa lentamente o rio
Lento já galgou margens
Já subiu o vale
Já rebentou…

Milho afogado e batata-doce morreu!

Quem vai encher palhota de reservas
Encher panelas de barro
E calar de boca crianças?

Albino Magaia

Moçambique


22.1.08

Quando eu morrer





Quando eu morrer
que nem uma lágrima se perca na poeira de Moçambique
Terra quente que receberá meus restos
E os corromperá pela eternidade fora.
Que o sol não deixe de brilhar quando eu morrer
Mas resplandeça com muito mais brilho
Para meu irmão que estará vivendo.
quando eu morrer
Que nem poetas cantem minha morte e vida difícil
Mas chorem dor de quem em meu lugar estará vivendo.

Eu sei...
Eu sei que quando desaparecer
Minha terra será sempre a mesma:
Terra triste que grita em vão
Terra negra de sorriso negro
Terra meiga de verde esperança.

Minha terra é de dor tristeza e amor:
Tem palhotas que escondem a mais vergonhosa miséria
Tem mulheres que sorriem para não chorar
Tem corações que amam para não odiar
Tem olhos que atraiçoam dor do coração.
Desde Munhuana até Xinhambanine
Desde Lingamo até Malhangalene
É miséria o que se respira
É miséria chão que se pisa
É miséria caniço à roda
É miséria o que se tem que pensar.
Mas se é miséria que abunda na minha terra
Que nem ela chore minha morte
Pois precisa de forças para lutar contra a miséria.

Que ninguém chore por compaixão
Que ninguém finja chorar de dor
Que ninguém chore de dor verdadeira
Porque quando morrer
Quero que todos dancem de esperança
Ao ritmo do batuque do povo.

Albino Magaia
Moçambique