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7.1.11

Sete de Janeiro



hoje falei de ti
ao mundo todo circular
da tua vontade de encontro
coroada
nos excessivos lados
na morte... nos lagos...

falei dos teus lenços e colares
das planícies... da tua charneca
a abrir em flor
li-te devagar como quando
nos sentávamos os dois a escutar
os poemas de Anto a sua dor...

hoje sorri como tu querias
que sorrisse sempre
quando princesa afloravas
à minha alma

amei amei cansado
amei em beijos lentos
forte era o teu corpo
que entregava
na sede de te merecer...

falava falava para
o mundo te ouvir
em cada abraço morria
e eras tu que renascias
para voltares a morrer
em mim - e era eu!

as palavras devoravam
os beijos e cantava
cantava louco em febre
e tu desaparecias...

despido o meu hábito de monge
vestido de príncipe alado
sobrevoei ribeiros de perfume
de amor e morri
morria morrendo
desmaiado no poente
da alma alcançada
pela entrega gigante
ao amor vivo


Henrique Levy

21.6.10

Magnólias



nascem vazias de amarelo
as magnólias que se inclinam
oblíquas a uma terra despovoada
da dimensão da flor
murmuram suas pétalas pelo vento
galopante e assustado fugido dos
desertos que eram florestas

lentas azuis as estrelas estalam
agapantos jacarandás
sangue adormecido dos fenómenos
que os olhos à luz fazem desaparecer

ausentes as asas adormecem
trilhos estilhaçados na terra
onde o longe e a distância
permanecem na tortura
do pensamento
sem etecétera

Ó as searas de flores os
gerânios as açucenas
os corações abertos dos rapazes
aos lilases
perfume de entrega permanente
musculado e frágil advento
de um tempo que há-de partir
mergulhado nos estames das mãos
para se transmutar em beijos
oferecidos às bocas

no chão da terra aturada e escura
as magnólias pálidas sombrias
escorrem mel torturado e morno
onde rapazes deixam o abraço
doce permanente como o pecado

o orvalho da manhã reclama as
magnólias que fecundadas devolvem
à terra o sangue
dos rapazes exaustos cansados

é manhã a terra toda de repente
desmaia atormentada nua e quente


Henrique Levy

17.6.10

Desejos de Junho



no lento triunfo da noite
estremece o coração poema
amantes sonham-se deuses
desfeitos enlaçados pelo engano
da mísera solidão devotos

no leito os seus corpos de sede
docemente guardam beijos
neles os cetins e os clarões
das tochas crepitam melodias
de alfazema místicos apagados
encurvados no gesto do abraço
êxtase perdido como o sol sem forças

beijos adivinham instintos
angústias de sono nos lábios
tépidos do novo dia

as almas jardins do corpo
unidas à natureza pelas
raízes das águas encontram
a beleza na claridade
do suor nocturno das danças
sagradas inebriantes mornas
no túmulo ébrio
onde o sangue se agita...
nascem rosas
acordam floridos na virgindade
dos seus olhos onde os anjos
servem doces lágrimas

renova-se o mundo
pedaço de tempo
que lhes sobra...


Henrique Levy

29.10.09

Chuva


ergue-te ó chuva
nos olhos das manhãs
inquietantes de deus

reflexo indecifrável
esculpido no tempo
estala entre
o imenso consolo
das nossas poderosas emoções
e o pavor que trazemos
aos gritos no crepúsculo
de ti debruçada
sobre os campos
sobre a fome

ergue-te
acende no olhar
a carícia das flores
encantada janela de deuses
voltada às estrelas
de onde caem nenúfares
camélias flores de papel...

sentes-te só
miraculosamente viva
corajosa recordas em silêncio
a piedade que resta
aos espíritos da água
misteriosos como pingos
preciosos cintilantes
na angústia humilde
da transformação

deixai falar a alma
transfigurada adormece a chuva
nos olhos inquietantes de deus

vulto cinzento de sombras
a tua valiosa máscara
esconde no nevoeiro pálido
o martírio a graça o corpo
de quem se despe de vida

ergue-te ó chuva
em gemidos
escavas e beijas as fontes
buscas os olhos de deus
indo sozinho anseia
em teus braços molhados adormecer...

redimido em
cristalinas lágrimas
onde navegaram
ensombrados os meus sonhos
de rir de cruzes de batalhas

és a sombra desenhada
pelas águas tuas
num jardim desfeito
de tanta ilusão incompleto
ergue-te ó chuva!


Henrique Levy

16.9.09

Intensidades



cessam em ferida as nossas bocas
as nossas bocas evaporadas luzem
arrastando os despojos do amor
descarnado na névoa do tule
da tarde teu corpo como um
deserto treme pensativo agreste

profanação de sombras seculares
onde desabrido geme inútil
o meu corpo ignorado
cujos olhos sepultam flores silvestres
no vasto caminho da alma dos outros...

o vento sublime pelas nossas
bocas evaporadas vai subindo
graciosa carícia de água
que adormece o consolo

somos felizes somos loucos!
onde ondeia a força que nos separa?
no compasso astral!

canto agora ensandecido a tua boca
regato do meu ser bem firme
sopro húmido da aurora
é deus o novo outrora
que perfuma a lama da eternidade
ilusão da maré destas bocas revoltadas
exaustas que arrebatam o pecado

nunca amaram as bocas geladas
que se afastam evaporadas no
ocaso primaveril da luz do teu peito
redondo onde antes entrara
escuro o último raio de sol

quando mortas repetirem este gesto
as nossas bocas na lonjura
intemporal gigante encostadas
às rochas da fome terna onde
aprendemos a sentir a extensão
diluída do que fomos

os lábios que te peço lembram
o arder do fogo que curioso
adormece na vigília da noite
com a amarga ânsia roubada
aos beijos inextinguíveis
das bocas de néctar evaporadas


Henrique Levy

11.6.09

Cerejas



cerejas são luas ao poente
escondidas por entre sobreiros
vaidosos e antigos da andaluzia

as tardes de junho aproximam
as mãos e os frutos
delicados vermelhos e redondos
os teus lábios beijam cerejas
bebem-lhes o mel
e repudiam-lhes o centro

morre o amor
em cada árvore desgastada
pelo vento quente
os teus dedos enlaçados em mim
recordam beijos perdidos na planície.

partimos no alvoroço das primeiras estrelas
sinais de luz que o mundo
num instante moribundo
uivou

sou de roma português de andaluzia
santo-anjo retratado em frescos de capela
aragem quente estremenha
com algas rumores e maresia

estou deitado meu amor
não vês?
no meu corpo cerejas raras nascem
esperando as tuas mãos
os teus lábios entendidos
em frutos mágicos
no silêncio das encumeadas


Henrique Levy