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6.4.11

Perdigão perdeu a pena



periódica
e temporariamente
esgota-se-me a pena lírica
por via do ruído
ensurdecedor
que entra despudoradamente
pelas janelas do meu quarto
dir-se-ia o estilhaço de uma bomba no Iraque
ou um grito perdido no tsunami

vai-se a pena lírica
vem o teclado pós-moderno
dum Toshiba qualquer
e já não há Perdigão
que sobreviva


Ângela Marques

5.1.11

Ainda é tempo


Ainda é tempo
De salvar as buganvílias?

Quando os crucifixos
Caíram, sem mostras
De indignação,
As cidades ergueram
As portas contra
Poetas e vagabundos
Os leitos dos rios
Se recusaram
A encaminhar as águas

Onde procuram
Um grito de dor
De revolta,
De desobediência

A não ser no recanto
Mais evidente
Das cidades bombardeadas?


Ângela Marques

26.3.10

Aquela é a casa



(à memória de Jacinto de Magalhães)

Aquela é a casa
Que me tem cativa
E porque nela vivo
Já não quer que viva

A casa que escrevi
Quando apenas sonhei
Que era rasa (redonda, disseste)
Envolta de água
E de barcos chãos
Baloiçando no horizonte vermelho
Mas não de sangue.

Branca por fora
Tão branca como a cal
Do Eugénio
Tão pura como as cantigas de amigo
Uma casa escrita com palavras
A cheirar a relva molhada
Que se apoderou de mim.

Ficámos em silêncio
A ouvir os ruídos da terra
De olhos fechados
Apalpando o vento
Desenhando corpos nus
Nas nossas mãos de esculpir
Afectos inefáveis.

Uma casa com perfume de versos
E de lenha
Com perfume de vinhos
E de tintas de óleo
Plena de risadas e de lágrimas
Que percorro
Indefinidamente.

Esta é a casa
Que me tem cativa
E porque nela vivo
É força que viva.


Ângela Marques

26.7.09

Sem nome


(para a Sara e a Inês)


há um amor
todo assim
feito de pedacinhos
abrigados no útero,
um amor
sem nome
que ri e que chora
que magoa e que lambe

há um amor
que é de
mãe terra água
sem princípio
nem fim


Ângela Marques

26.2.09

Aparecida




Aparecida
Parecida
Com a vida que a pariu
Fugiu no rasto da luz
Que luziu
Onde o sol se apaga
Nesta vaga
Que deflagra
No rosto de um poeta
Alfa e beta
De cometa
Perdido no universo
De um verso
Branco e preto
Assim rezo por vós
Com os laços e os nós
Que afundam meu barco


Ângela Marques