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9.8.10

Os meus heróis



Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa. Mas
os meus heróis verdadeiros não vêm na história,
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome,
são heróis dos dias úteis da semana
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos,
lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade púdica da vida,
sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas,
são os construtores do meu país à espera
mouros no trabalho e cristãos na esperança
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse a seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha.


António Arnaut

26.9.09

Deixem-me sonhar



Deixem-me sonhar, à procura
dos sinais ocultos do caminho,
É nas asas do sonho que a loucura
faz o ninho.

Deixem-me ser livre como o vento
sem rumo nem compromisso.
O sonho é o lugar do pensamento
insubmisso.


António Arnaut

8.4.09

Falo das mãos das minhas próprias mãos


Falo das mãos das minhas próprias mãos
depostas abandonadas
sobre esta mesa desamparada e fria
em que me sento e sinto
o sangue contra o mármore contra o vento
que vareja o mar a praia a esplanada
minhas mãos quietas na minha inquietude
de serem estrelas caídas gestos parados
por dentro do silêncio que escorre lentamente
sobre os meus olhos sobre as veias sobre
todo o corpo como um manto indecifrável
são assim as tardes sem paisagem
quando as mãos se esquecem do nome das coisas
e calam o pulsar do sol do sal
nem a tua voz me faz companhia
não-há palavras para legendar os retratos ausentes
das molduras do tempo liquefeito
como este copo que agora tomo e bebo
para ver se as minhas mãos
ainda sabem ainda sentem
a emoção do vidro e o sabor da sede
que reflui do fundo desta tarde
de um Setembro fugaz à beira da vertigem.


António Arnaut

25.3.09

Noite Vagabunda de Luar



A minha angústia é asa quebrada
da noite vagabunda de luar
que vem mansamente pela madrugada
bater-me à porta para me acordar


António Arnaut