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11.8.11

Jornal esgotado




Na ausência do jornal
lia os teus dedos.
Todos!
Um a um,
unha a unha,
soletrava-os
afincadamente.

Dedos como palavras,
mãos como frases.
Junto de ti
como de um livro
onde eu escrevesse
de passagem.


Alexandra Malheiro

21.3.11

De que serve



De que me serve a placidez da Primavera?
O grito desconjuntado dos pássaros,
a inquietude rumorejante desta paisagem de folhas?
De que me serve o cheiro acre
dos dias terminados e a
memória trémula das mãos,
do desejo pálido da pele?
De que me serve o
sino-marca-horas,
marca-passo-do-desejo,
o augúrio impertinente das horas
que não tornam mais?

Os sulcos indiferentes
da amarga poesia do teu corpo.
O pousio das horas do silêncio.
A dança equilibrista
das folhas do Outono.

Na sombra onde me encontro
apenas a poalha das estrelas,
uma mácula de luz, ou
talvez só a sua grata memória.


Alexandra Malheiro

3.2.11

Urgente



Urgente?
Urgente
é o pão na boca do pobre,
urgente
é o céu
que a todos nos cobre,
urgente é a mão que afaga
e me acode,
urgente
é o não que
na língua me morde.


Alexandra Malheiro

10.1.11

Arrepiada a dor do caminho



Arrepiada a dor do caminho
que mais temos?
Quem somos e o que fazemos?
Que sabemos nós para além do silêncio
que nos separa e nos une?
Que outras coisas somos quando nus
senão dois corpos sós e crus?
E quem nos baralha e confunde?


Alexandra Malheiro

4.9.10

Sei tão pouco


Sei tão pouco
dos poemas que te escrevo,
a palavra eriçada,
coberta de cinza na língua
que não sabemos pronunciar.

Sei tão pouco dos teus dedos,
onde se prolonga a pele
sedenta de mais pele,
reduzindo a escombros o sol.

Sei tão pouco dos teus olhos,
lugar de silêncios onde
se guarda a penumbra e
se acertam os passos,
vagarosos conta-gotas do infinito.

Sei tão pouco de mim
que me inundam estas
lágrimas por dentro,
sôfregas, centrífugas,
serpenteando caminhos
rumo ao incêndio.


Alexandra Malheiro

9.1.10

O teu beijo



Um dia acordo e
o teu beijo
é a neve no olhar
duma gaivota
num voo desigual
de insana rota.


Alexandra Malheiro