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11.5.08

Poema sem hora certa



É a quarenta quilómetros no meio do mato

Aqui estou
e aqui páro

O sol cai a prumo verde e ouro misturado

sobre mim
e os outros claro

É de novo o tempo de anos e anos
e de novo carrego nos ombros o silêncio tanto
riscado de trilos sem mácula modulados como
crispado de uma súbita pausa

Caminho pelo riacho seco de lages com quartzo
e o tacão afunda-se no matope raso
e aqui páro

e os meus olhos sobem à última ramada
pela árvore que me é ao lado
e uma seiva comum insuspeitada
rodeia-me de borboletas brancas
que me tocam a face

O hálito da terra morna
segreda por todo o lado
e do ombro do negro de m'cota
soltam-se fios de água

Eu sorrio de súbito ao anúncio
de uma possível lágrima
e as crianças encostadas à pedra talhada
repartem comigo um riso rápido

Os outros criam indispensáveis imagens
intercalando palavras ao sábio cântico dos pássaros
e eu reparo
que a última borboleta branca me há deixado

É a quarenta quilómetros no meio do mato
que hoje estou sepultada


Glória de Sant'Anna
Moçambique

10.2.08

Batuque ao Longe

Do fundo da noite
a mesma toada batendo.
(É noite de medo?)

A mesma toada por sobre os telhados,
trazendo mensagens que tombam desfeitas.

Coladas aos vidros
há vozes de greda).

A mesma toada roçando na porta,
batendo.

Por sobre as ramadas, calcando o capim,
em volta da serra, caindo do espaço,
em ecos de outrora por todos os lados.


Glória de Sant'Anna
Moçambique


31.1.08

O Pescador Velho





Pescador vindo do largo
com o teu calçado de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face

a tua face marcada
pelo sol de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar

-nesta água não tem peixe-

pescador dá-me um só peixe
nem garoupa nem xaréu
só um peixinho de prata

-nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
pró lado de Zanzibar.


Glória de Sant'Anna
Moçambique

27.1.08

Dia Africano




Os corvos marcam
trajectórias largas pelo dia branco,
por sobre a cabeça
dos negros cantando.

Há vento disperso,
rasgando nas folhas das árvores altas,
melodias lentas
de antigas desgraças.

E restos de luz
de um sol sugerido por neves quietas,
caem dos telhados
e batem nas pedras.

Tudo hoje é denso
como uma gravura de atitude rítmica,
pousada nos vidros
cortada da Bíblia.


Glória de Sant'Anna
Moçambique

26.1.08

Eu naveguei pelo interior de um longo rio humano


Eu naveguei pelo interior de um longo rio humano
de tempos diversos onde também há sangue vegetal,
buscando o que acabei por encontrar - a imensa
angústia que se reparte.

Sobre isso escrevo.

Mas cuidado: a música da palavra é um casulo de
seda. Só dobando-o com olhos atentos se chega à
verdade - a solidão ansiosa e disponível.

No entanto, que cada um faça a sua leitura.


Glória de Sant'Anna
Moçambique

15.1.08

Cantiga de Amigo

ao Sebastião Alba

bateu ao portão um dia
bateu ao portão
abri-lho

vinha da estrela do norte
bebendo copos de vinho

dançou batuque na sala
(vestia como um mendigo)

disse versos disse prosas
do mais longe tempo antigo

chorou de mágoas passadas
cantou versos repartidos

dançou batuque na sala
vestido como um mendigo
e chorando sobre sonhos
e ao mesmo tempo sorrindo

disse adeus
adeus
adeus
e caiu adormecido


Glória de Sant'Anna
Moçambique

10.1.08

Maternidade




Olho-te: és negra.
Olhas-me: sou branca.
Mas sorrimos as duas
na tarde que se adeanta.

Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana,
é a mesma carga humana

Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo o mistério da vida,

seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes
E tão perto da morte...

que este sorriso de hoje,
na tarde que se esvai,
é o testemunho exacto
do erro das fronteiras raciais.

Dos nossos ventres altos,
os filhos que brotarem
nos chamarão com a mesma palavra.

E ambas estamos certas
- tu, negra e eu, branca -
que é dentro dos nossos ventres
que germina a esperança.


Glória de Sant'Anna
Moçambique

9.1.08

Livraria


vozes me chamam
passo a soleira
entro pelo meio
das prateleiras
onde as lombadas
fecham secretas
folhas marcadas
pelos recados
esperando olhos
de mentes rápidas
que se detenham
nas letras firmes
pulando leves
pelas palavras

(e de repente sinto-me envolta
no calor doce das florestas
desarvoradas por ventos de aço
de rumos vários de som diverso)


Glória de Sant'Anna
Moçambique

8.1.08

Poema para um negro




O que me prende é o que te prende:
largo horizonte de outros passados,
raízes fundas presas ao chão
e um mar tão largo.

Palavras soltas num vento agreste,
caminhos rudes determinados,
sombras e sonhos sem condição
e um céu tão vasto.

Meus passos breves não deixam rasto.
Teus passos fundos, fundos estão.
Mas entre o mar e o céu e os nossos passos,
a nossa humanidade é o mesmo laço
irmão.


Glória de Sant'Anna
Moçambique

7.1.08

Outro Dia



Nada se move
na quietude que desce.

As hastes
têm atitudes de pedras esculpidas.
E os ângulos
são mais breves: mais mansos
nas paredes erguidas.

Tudo é sereno e quase vago
e parece fundir-se
na minha própria lassidão.

Mas tudo só parece:
o dia hoje caminha
e leva-me de rastos pela mão.


Glória de Sant'Anna
Moçambique

6.1.08

Poema da solidão do vento




É o vento.

O vento vivo e claro
que percorre e não prende
o corpo nu das árvores.

É o vento.

O vento que se inclina
junto às portas fechadas
e tateia as vidraças
com longos dedos de ágata.

É o vento.

O vento que se humilha
- e partirá tão só
como à chegada.


Glória de Sant'Anna
Moçambique