Mostrar mensagens com a etiqueta António Manuel Couto Viana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Manuel Couto Viana. Mostrar todas as mensagens

6.9.10

Arre, Burro


Quando a veloz motorizada
lhe demora a pegar
e começa a tossir e a espirrar
o João não faz mais nada,
dá-lhe um grito, um berro, um urro:
«Arre, burro!»
E pela rua fora,
bate-lhe a toda a hora,
com o boné,
como se fosse um chicote.
Por isso a gente que o vê,
inquieta,
supõe que a motocicleta
vai a trote.
E com espanto e desdém
diz que o João não regula bem.


António Manuel Couto Viana

20.6.10

Depois



Quando morrer não envelheço mais.
Vou ficar tal qual sou
Na partida do cais,
Na asa aberta ao derradeiro voo.

Vou, já podre o fruto
Do pomar que eu era.
Não quero luto:
Volto na Primavera.

Irei, então, recomeçar
Uma existência secreta,
Com os olhos no mar
E a saudade no poeta.

E na tragédia do solitário
Que de si próprio se escondia
Tirar-lhe o esqueleto do armário
E libertar-lhe a poesia.


António Manuel Couto Viana

26.1.10

Lucidez


Em cada instante, a poesia
Morre em mim.
E a mão certeira que a escrevia
Escreve assim:

Qualquer poesia alheia
Não pode ser comparada
Com esta minha, tão cheia
De nada.

Quem a lê logo conhece
Que é
Aquela que não merece
Nem nota de rodapé.

E, se a estudou, sabe agora
Que perdeu a inspiração.
E cora
De lhe haver dado atenção.

Quem sou de mim foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
– Ainda não!)

António Manuel Couto Viana

4.5.09

No farol da Guia



Pedi ao Farol da Guia,
Pra que a nau não naufragasse
Na noite que fôr o dia,
Que fosse luz e a guiasse.

E pedi mais:
Que baloiçasse no ar
Os sinais
Do tufão que vai chegar,
Pra que ao abrigo do cais
A nau achasse lugar.

E o primeiro farol
De aviso à navegação
No mundo onde nasce o Sol,
Não me disse sim nem não.

Mas a âncora ancorada,
Como fanal de bonança,
Entre os muros da esplanada,
Disse, sem me dizer nada:
- Tem esperança!


António Manuel Couto Viana

24.12.08

Primeira Lição de Natal

Hostingpics

Este Natal,
Vou levar o meu neto pela mão
A ver o pinheirinho do quintal,
Nu, sem qualquer decoração.

Nem fio de oiro ou prata ou cobre.
Tem a humildade de ter
Nascido pobre,
Como o Menino que vai nascer.

E por isso é mais belo e vivo e humano
Do que esse outro que estará na sala,
Morto, porém, soberbamente ufano
Do seu trajo de gala.

Este Natal,
Vou levar o meu neto pela mão,
A aprender a moral
Da primeira lição.


Antóno Manuel Couto Viana


19.1.08

A galinha espertinha


Era uma vez uma galinha
Que entrou pela cozinha,
Onde havia uma panela,
Mas sem nada dentro dela.
Ouviu, então,
A voz fraquinha do patrão
Dizendo à cozinheira:
- "Não se arranja
Por aí uma canja?
Estou cheio de fome."
Pôs a galinha um ovo e disse: - Come."
E fugiu sem demora,
Antes que lhe chegasse a derradeira hora.


António Manuel Couto Viana