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23.5.10

Caminho Longe



Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.

Parados os olhos se esfumam
no fumo da chaminé.
Devia sorrir de outro modo
o Cristo que vai de pé.

E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além
Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Devia ser de regresso
devia ser e não é.

Gabriel Mariano
Cabo Verde

26.4.10

Única Dávida



Os engajadores levaram
a nossa única dádiva
e já ninguém devolve
o que nos foi roubado.

Longa è a ladeira que a fome alonga.

Enquanto eu vivo
as perguntas duram
E eu vivo da fome
interrogativamente.

Longa è a ladeira que a fome alonga.

Como podem ladrões
rondar meus olhos
se amor só
meus olhos tem?

Longa è a ladeira que a fome alonga
terralonginquamente.

Gabriel Mariano
Cabo Verde

15.6.08


Única Dávida



Os engajadores levaram
a nossa única dádiva
e já ninguém devolve
o que nos foi roubado.

Longa è a ladeira que a fome alonga.

Enquanto eu vivo
as perguntas duram
E eu vivo da fome
interrogativamente.

Longa è a ladeira que a fome alonga.

Como podem ladrões
rondar meus olhos
se amor só
meus olhos tem?

Longa é a ladeira que a fome alonga
terralonginquamente.

Gabriel Mariano (poeta caboverdiano)




19.4.08


Maria da Luz


Maria da Luz, ou só Daluz
Filha primogénita
da lua cheia,
território privilegiado do Amor...
Quando ao sol se fez o obscuro avião
perfeito era teu sonho. Certa, a tua morte.

Melhor fora que não fosses
a anunciação que eu quisera,
pois, agora, só nos sobra
a tresmalhada primavera.

Tão se súbito caída
em decúbito dorsal.
Ninguém não vai sem ficar.
Sem morrer ninguém ressurge.
O regresso não prescinde
da partida inaugural.
Tu és.

Silenciosa morada da saudade.

Perfeita a tua morte.
Perfeito o obscuro avião.
A tua sorte é que não.


Gabriel Mariano (poeta caboverdiano)

26.3.08


Caminho longe


Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.

Parados os olhos se esfumam
no fumo da chaminé.
Devia sorrir de outro modo
o Cristo que vai de pé.

E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além
Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Devia ser de regresso
devia ser e não é.
Única dádiva

Os engajadores levaram
a nossa única dádiva
e já ninguém devolve
o que nos foi roubado.

Longa è a ladeira que a fome alonga.

Enquanto eu vivo
as perguntas duram
E eu vivo da fome
interrogativamente.

Longa è a ladeira que a fome alonga.

Como podem ladrões
rondar meus olhos
se amor só
meus olhos tem?

Longa è a ladeira que a fome alonga
terra longinquamente.


Gabriel Mariano (poeta caboverdiano)

3.9.07

Subitamente a saudade

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Eu não esperava.
Prever,
nada fazia prever: não era carnaval

No entanto,
ela vinha vindo
telegrama inconsutil
bruma diáfana
brisa marinheira

Como adivinhar?

Pressentimento, a breve
taquicárdia?
Possível... Mas prever, nada fazia prever

E aconchegou-se
por dentro da minha tristeza
transparentes, as mãos navegaram
meus cabelos
e seus olhos habitaram meus olhos

Não era pra ser madrugada.
Mas foi.

Gabriel Mariano (poeta caboverdiano)