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13.12.10

Não



Não formar nenhuma ideia
do que somos ou seremos
mas entre as vozes que fogem
precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
abismos que são infernos.
Dormir em paz. Dormir paz,
enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
que penetram no espaço
de eventos primaveris.
E dar as mãos aos espectros
beijá-los lendas, perfis.
Amar a sombra, a penumbra
correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
abraçar quem nos ignora
dormir com quem não nos vê
mas precisar do calor
de quem nunca nos encontra.


Natércia Freire

24.11.10

Esse nome



Esse nome, Poesia! Esse nome, esse nome...
Esse rito, esse mito, o chacal das angústias

Essa arma de fogo que repele e que explode,
Que o peito te alimenta e te come e te come!

O deserto a florir. O oceano a sangrar.
Tanta ave a subir das ruínas ardentes.
As pedras removidas. Os Templos abalados.
Os segredos dos deuses no fumo desvelados.

As promessas abertas. Os sacrários abertos.
Decifrados nos mortos insolúveis sinais.

Os retratos da água, quebrados. Mais os selos,
De todos os mistérios. Nos ventos abissais
A puríssima voz dos homens imortais.
E esse nome, Poesia? . .. Esse amante, onde o escondes?

Esse mágico arauto. O sangue do teu corpo.
O labirinto. O guia, da cega caminhada,
O terror, o terror, dos homossexuais,
Que gera e lhes destrói os dias geniais.

E esse nome, Poesia?!... Nas montanhas, nos cais,

As multidões de artistas, velhos adolescentes,
Fitam o arco de oiro. As fluidas espirais,
Do chicote que rasga coerências incoerentes.

Doidas andam nos céus as máquinas e os olhos
Pensamentos sem crânios.
Azuis fosforescências de azuis mediterrâneos.
Um atroz sofrimento aos homens prometido.

Diz seu nome, Poesia! Outeiros e balidos
De cordeiros dormidos lhe auguram a chegada.

Diz-lhe que venha, sem o fel do fim:
- Vem, Irmão, como a água.
Não provoques a chaga,
Nem estrela, nem cometa.

Vem consumado, enfim,
Como um dia virás
Para o último Poeta.

Natércia Freire

12.11.10

Geometria

Urban Geometry II Art Print

Daria,
Por teus planos de cor e de agonia,
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me canta nas veias noite e dia.
Em troca,
Nada mais do que o deserto.
Mas deserto de luz ao longe e ao perto,
Entre sulcos de neve e céu aberto,
Entre o meu desacerto e o meu acerto...
En troca,as formas ágeis,diluídas,
Entre a memória e a história de outras vidas,
Entre a saudade e a dor adormecidas,
A correr sobre faces esbatidas...
Em troca,pouco mais do que o regresso
Às salas onde em espectro me conheço,
Aos campos e às igrejas do começo,
Às naves voadoras do silêncio.
Em troca
Do absurdo onde me quis,
Incompleta,confusa e infeliz,
E viajante amável de um país
De fantasmas e deuses navegantes.
Em troca
Do infinito que se afunda
E se perde num escuro sem penumbra,
E que ninguém,nem tu,poderás dar-me,
Toca!, campainhas de alarme,
Cristais,de luz e cor
Riscando os ares!
Esse é o Mundo!
- O perdido,impossível,morto Mundo,
Pelo qual te daria
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me golpeia as veias noite e dia.

Natércia Freire

10.10.10

A casa

View Over the Moorish Quarter, the Alfama, Lisbon, Portugal Photographic Print

A Casa. Há-de o meu ser
Afeiçoar-se à Casa.
Como a pedra ao escultor,
A palavra ao poeta.
Nos silêncios,no escuro,
Nos sonos e nos sonhos,
Sugada pela casa,
Estarei presente em tudo.

Os recados de luz,
Os contos de Chopin,
Recolhem-me no espaço,
Adejam-me sem data.

Um murmúrio de amor
Saltita na penumbra
Das vozes juvenis.
Junto do toucador
Há uma tarde feliz.

Espreito as sombras na hora
Em que a Casa é deserta
Alguém deixou no Tempo
A grande porta aberta...

O mármore,a madeira,
As flores,a terra,a água,
O pássaro cantor e as lanternas
Da escada,
Houve um dia em que sim,
Nasceram e ficaram
Como quem abre a luz
Numa sala arrumada.

A Casa vê o Tejo.
Debruça-se à varanda,
Quer-me levar consigo...

Não sou fácil nem mansa.

Natércia Freire


12.8.10

Nada mais



Não há mais que inventar.
Não há mais que dizer.
A sintaxe está gasta.
As imagens estão gastas.
Mesmo a Morte está gasta
E todos os poetas
O deviam saber.

A moral está já gasta.
Gasta a anormalidade,
E a imoralidade,
E a amoralidade.

Gastos os sentimentos
E todos os tormentos,
Mais os grandes amores
E todos os pavores.
Gastos rios e serras,
Mais os erros das guerras.
Gasta a Ciência e a Arte.

Gastos,lutos,enterros,
Cemitérios,jazigos,
Lágrimas,desesperos,
Sacrilégios e perigos,
Crimes,roubos e monstros,
Lirismos e fardins,
Naufrágios,terramotos
E o dilúvio do Fim,
Planetas e vigílias
De mortes pressentidas,
Mais o amor das famílias,
Gastas todas as vidas!

Que tudo está já gasto
Porque morreste um dia.
Porque à tua paixão
Opuseram traição.
Aos teus braços de mel
Só opuseram fel.
Ao teu canto,ao teu riso
De ave do Paraíso,
Opuseram cegueiras,
- Monte das Oliveiras!


E se à minha paixão
Opuserem traição;
Se ao meu canto,aos meus risos,
Negarem Paraísos,
E cegarem meus olhos
Com pedradas certeiras,
Foi bem mais triste o teu
Monte das Oliveiras.
Todo o futuro é gasto
Porque morreste um dia.


Procurar-te,é bem pouco.
Achar-te,era demais.
Em mim,em qualquer ponto,
Te escondes e te esvais...


Natércia Freire

6.7.10

Dentro dos poemas de Garcia Lorca



As mulheres de negro
Estão a olhar a forca...
Eu sou as mulheres
Dentro dos poemas
De Garcia Lorca.

Sou um tempo ambíguo
De misérias frouxas,
De fuligem,teias
E de feridas roxas.

Sou um tempo amargo
De terríveis vidas.
Cabem-me os terrores
E as asas partidas.

Sou um tempo escravo
De combinações.
Retratos de monstros,
Armam as visões.

Sou um tempo
Que não 'stá no Tempo.
Língua de água e fumo,
Solidão no vento.

Sou um tempo eterno
Que se volve Inferno
- Para além,eterno,
- Para aquém,eterno.
E dentro do tempo
Que ladeia a Vida,
Sou um tempo enfermo
De alma destruída...

Ai que lindos versos
Que aos poetas vêm!
Vão calçar-se de oiro,
Vão vestir-se bem.

Vão brincar cabeças
De outros animais.
E serão algozes
E serão ferozes
Como canibais...


Natércia Freire

29.6.10

Os instrumentos

Times Square, New York Art Print

Desapareceram os símbolos das cidades.
Os instrumentos dos símbolos ainda não desapareceram.

É possível que,de repente,de leste a oeste,de oriente a ocidente,
Nas paredes,no ar,no solo,nos canteiros,
Nos velhos troncos de árvores,
Nos jogos de água viva,

Nas mudas bibliotecas,em livros esquecidos,
Nos palcos dos teatros,nas eléctricas luzes,
Nas orquestras sem pátria dos músicos planetas,

Se revelem sinais,locais de Ásias secretas.

Mas da cegueira à paz,vão ângulos de som.
Os vértices de amor,oscilam ténues fumos.

Os símbolos são homens,esventrados em explosões,
São Osíris dispersos.Deuses em negros versos.
Dos olhos sem retinas - que já todos desvelam,
Dos gestos essenciais - pelos quais todos choram,

Se compõe esta frente em marcha silenciosa,
De esotéricas vidas e histórias demolidas.

De superfícies brancas em sinfonias brancas,
De surdos e de loucos,orquestradas nas ondas.

Bronzes de águas abertas,nas cascatas libertas,
Dos países do Ar para os dias de Sombra.

Por visitar a Lua recebe-se a Loucura.
Por visitar a Luz,recebe-se a cegueira.

É preciso dormir como quem apodrece
E sossegar no pó,sem pena de ser só.


Natércia Freire

9.6.10

A multidão das sombras



A multidão das sombras
As hostes das visões
Computadores cruéis
Mais os homens robots
Instalaram nos lares
Ouvidos espiões.
Em corações de corda
Em frios corações
Deitaram a paixão.
- Trituram as paixões.
Mas o massacre aguarda
As ordens implacáveis.

Natércia Freire


4.6.10

Assim

Bleu a l'Ame Art Print

Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento,
Assim pensar em mim quando vivias.

Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.

Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos,noutros nomes,
Assim desconhecer onde habito.

Assim por muito mais e muito menos
Se acaba,em vida,a vida ao suicida.

Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.

Natércia Freire

15.5.10

Nada que tive era meu

Un Gout de Solitude (Detail) Art Print

Nada que tive era meu.
Perdi estradas,perdi leito.
Na pedra onde me deito
Nada fala de alvos linhos.
Se,com cegos,me aventuro,
A caminhar rente aos muros,
É que meus olhos impuros
Sonham Cristo nos caminhos.

Nada que tive era meu
E o corpo não quero eu.
Podia servir de embalo,
Mas serve de sepultura.

Cemitério de asas finas,
Tange e plange aladas crinas,
Canto de praias sulinas
De infinitas amarguras...

Natércia Freire

7.5.10

Canção do verdadeiro abandono



Podem todos rir de mim,
Podem correr-me à pedrada,
Podem espreitar-me à janela
E ter a porta fechada.

Com palavras de ilusão
Não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
Não tem vislumbres de além.

Não sou irmã das estrelas,
Nem das pombas,nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
De bicho que sofre as pedras
E se desloca de rastos.

Natércia Freire

10.4.10

Comem de noite


Comem de noite pelos caixotes.
Comem de noite.
Grandes famílias,sob capotes
Que são açoites.

Sob capotes de chuva e pranto,
Pátrias perdidas.
Chave na porta,a cama à espera,
A fuga à terra das suas vidas.

Cumpriram sonhos e não mataram.
Cruzaram sangues e não traíram.
Filhos de humildes embarcações
Árvores soltas de Áfricas vivas.

Quem corta fitas de liberdade
A sua gruda em fundos poços.
Sumam-se contas de ambiguidade:
Milhares de mortes,milhões de ossos.

Antes que o tempo cobre a verdade
Crescem as teias entre as aranhas.

E muitos comem pelos caixotes
Enquanto engordam estranhas espanhas.


Natércia Freire

2.4.10

Presença de Ulisses



- Procuro-te porque os Poetas não gostam de encontrar.
São poetas porque a Poesia lhes foge.
Foge,Ulisses.
Procuro-te,Poesia.


Natércia Freire

31.3.10

Crepúsculo

Sunset Palm Poster

Uma pátria de angústia
No lento anoitecer
Coroa o dia álgido
No verão de ardentes sóis.
Vão morrer os heróis.
A voz crepuscular
Dos campos e das ondas
Agoniza comigo.
E promete e promete
Imensas alquimias
Em braços de outros Dias.
Em bocas de outro Mar
Os deuses vão voltar.
Há quanto tempo eu estou
Marcada a fogo e ferro
Na paz do meu desterro
Na morte sem enterro.
Oiço-te,Mãe,na bruma
Tangendo às nossas filhas
Um instrumento de espuma
Forrado a sumaúma...
E ele,o meu ser de gelo,
O meu senhor de frio,
Amarra-me o cabelo
Aos flancos do navio.

Natércia Freire

19.3.10

Aviso ao poeta

Floral Patio I Art Print

Não procures o eterno,
O eterno sol,
Mas procura reter asa e momento.
Não o que volve em pulsação cansada,
Mas o que é nunca em vastidão e nada.

Não procures reter a mão estendida
Mas a que esconde a incógnita penumbra.
Chama as Irmãs da Morte
Como chamasses por Irmãs na Vida.
Tu sabes do Aviso que te envolve.

Tu sabes - ou não sabes? - dessa Grécia
Onde te deram a beber cicuta?
Tu sabes - ou não sabes? - da permuta
Entre o preço das auras e do pó?
Tu sabes o que viste e o que escolheste?
Tu sabes. E andas tonta,como a pomba
No altar do sacrifício a querer voar.
Tu sabes o que queres saber de mais
E conheces a próxima Estação.

Tu sabes tudo. E finges
Como a Esfinge
Que dormes o mistério do Deserto
E a dormir viverás.

Tu sabes o que viste e o que escolheste.
Tu te sabes. E sabes que morreste
E morrias em paz.


Natércia Freire

12.3.10

Como os lobos

White Wolves Poster

Fujo dos homens
Como os lobos fogem
E não me sinto lobo.

Escondo-me em fojos
Como os lobos fazem
E não me sinto lobo.

Ergo à Lua o meu uivo angustiado
E não me sinto lobo.

Os meus ouvidos outros
Ouvem queixas
De lobos espectrais.
E não me sinto lobo.

Alvejaram-me a tiro
Entre os olhos leais
E não me sinto lobo.

Se estoiro como o lobo
Que também tem um astro
Repercutindo ânsias solitárias
Terríveis e humildes
Em esferas mudas várias
Deixo um rastro de sangue
Um invisível pasto
A vampiros humanos.

E assim na morte vamos
Lobos,irmãos,iguais.

Natércia Freire