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19.2.11

Entenda quem puder



Como o Caeiro, sabes, digo adeus
aos versos que se vão e aos que chegam,
marcados desde dentro como teus
como sons imperfeitos que se entregam

a quem passe e repasse, e já não sabe
se a conjunção de como que assim ligo
é dele ou de quem é. Como se acabe,
o dia em que te escrevo é que te sigo,

e mais importa, e mais me livra inteiro
do que não tu, a ti, minha mulher,
meu caso e minha casa, meu bom cheiro

a ti ou a mim mesmo, ao que vier
deste completo inverno em que me abeiro
da verdade que entenda quem puder.


Pedro Tamen

29.10.10

A Luz que Vem das Pedras



A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

Pedro Tamen

18.5.10

Poema 9


Enquanto ponto a ponto coso
uma coisa a outra coisa
tornando um o que era dois ou mais
morreram tantas ........ tantas pessoas

E eu também morri
deixando as minhas mãos
e as partes que cosi

Pedro Tamen,
O livro do sapateiro

4.2.10

E nisso haver. E nisso persistir.


E nisso haver. E nisso persistir.
Pensar perder-me em nada diluído
pela bola de neve que me desses
instantânea mas branca. Conseguir
amores de bruma e de estampido
num espaço que não sei e onde teces
a tua tempestade.

Correr a mão
pelo corpo que tens em tempos quedos,
deixá-la ir pelos agostos fartos
pelas horas de ceifas e de verão.
Deixar que a tua pele me guie os dedos
para chegar aos olhos e fechar-tos.

Pedro Tamen

6.3.09

Não sei, amor, sequer, se te consinto



Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas

outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.


Pedro Tamen

2.1.09

Palavras que disseste e já não dizes,


Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.


Pedro Tamen

16.12.08

Poema de Natal

Vamos entoar Graças a Deus.


Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio
nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen

12.12.08


Três fragmentos à memória de Cristovam Pavia


1

O fundo esse por onde tu saíste
qual é ele? Só uma coisa sei:
que é, e por aí
foste encontrar as glicínias virgens.
E mais do que nunca no maior silêncio
nos repetes teu branco telegrama.
Nos caminhos da quinta, as doninhas
também elas se calam, e as palmeiras:
o mundo inteiro é tua testemunha.


2

Quando já era tarde e eu não mais falava
(eu; que tu amavas dentro)
as ruas eram ocas, transparentes,
começava a nascer o outro dia.
Porque era ainda cedo.

3

E hoje o teu rosto é uma faca
que nos divide em um.

Pedro Tamen

17.11.08


Agora os montes descem vagarosamente em veredas sem limites,
para o rio, para o mar, para a cidade. E, calmos entre os tojos,
levantam-se os perfumes, os incensos, as multidões de estrelas que se acendem.
Agora desce o sangue por baixo das oferendas, agora vem
mais largo e mais possante abraço, alaga tudo.
Agora aqui, Senhor, eis o sangue do Homem, o sangue do Filho,
eis que se derrama e entra pelas ruas,
vem do monte,
desce para as caves.

E nunca mais esqueceremos o líquido, nunca mais!
Eis que se passou aos nossos braços e nos dilata os corpos,
eis que se constrói corre pelo dentro, em rio inacabável
que nunca mais bebemos, se vai esconder em nós e liga
coisas que não sabemos, sangue que nunca cabe.

Pedro Tamen

19.10.08


O escriba acocorado




Ele que escreve que não saibamos já,
olhos fitos no nada que por ciência tem?
Sob os ardores do sol burila só silêncio
que sustenta no colo
e onde cabe tudo.

Pedro Tamen

22.9.08


Um vento surdo liga...
Um vento surdo liga
o A e o B. É leve o alfabeto.
Do figo traz o estorninho
a polpa. Leviano universo,
mais do que leve, airado
pedestal de nula estátua.
Contudo, em um momento existem
o vento, o voo, os pontos
de partida e de chegada.
Em um momento, digo. Um só.
Depois a nova coisa ignora
outra coisa anterior. Não há.

Pedro Tamen


16.8.08

Verdes Anos



Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

Pedro Tamen

7.5.08


Nesta cadeira me sento,
é nela que me apresento,
mas menos do que me ausento,
tento, lamento, avelhento,
aqui me invento e rebento;
passo cordura de unguento
e alimento o alento
da vida de sono e pão.

Desta cadeira prossigo
para um outro nó pascigo,
já sem perigo nem abrigo,
amigo como inimigo,
com meu já perdido umbigo
de só nascer por castigo:
ali de vez eu te irrigo,
cintilante coração.


Pedro Tamen


12.3.08


Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas

outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.

Pedro Tamen

7.3.08


A minha morte, não ta dou.
De resto, tiveste tudo
– a flor, a sesta, o lusco-fusco,
a inquietação do dia 8,
as órbitas das mães, das mãos,
das curiosas palavras de não dizer nadinha.
Tudo tiveste: estás contente?

Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz assim por perderes tudo o que sei?

Só não te dou tudo o que não serei.
Não, a minha morte não ta dou.


Pedro Tamen


7.2.08

Amar-te é vir de longe,


Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atrás de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sobre a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos lá,
a olho nú, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber água numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam mãos e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
já fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atrás do tojo,
e abaixo dos calções as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta já feita para abrir,
e encontrar o lar ou música lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
- meu nome exacto e pão
no chão das alegrias.


Pedro Tamen