Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Nejar (Brasil). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Nejar (Brasil). Mostrar todas as mensagens

19.9.11

Clara Onda



Este amor em meadas e triciclos
que nunca se divide, confluindo
e torna noite, este sapato findo
e o firmamento, silencioso ciclo.

Este amor em meadas, infinito.
Em meadas de orvalho, desavindo,
em meadas e quedas, rugas, trincos
e rusgas, trinos, pios e sóis contritos.

Este amor me retece e configura.
Tem pressa de crescer, fogo calado.
Apenas queima, quando não se apura.

Parece interminável, quando tomba.
E só se apura, quando despertado.
Dissolvido me solve em clara onda.


Carlos Nejar
Brasil

19.8.11

Das aparências



(e um pouco mais além)

Lunalva

Se quiserem saber quem sou
- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente

Se quiserem saber do meu destino
- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada

Se quiserem saber donde venho
- Não sei donde venho
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas

Não
Não me amem tão depressa
"Não me compreendam tão depressa"
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão quotidiano

O pão que trago comigo
- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão de beber
Do Fogo e do Sangue


Carlos Nejar
Brasil

29.7.11

Cantata em rodas plumas



O amor armou a clava
da tarde e seu alarme.
Quer, albatroz, levar-me
onde alcançam suas asas.

Vem, ditoso, acordar-me.
Quer nos levar nas rodas
das plumas e avalanches.
Nós chegaremos antes

com jubilosas almas,
que se absorvem, alvas
e salvas, nos redutos.
De céu a céu, conceitos

são cinzas e ferrugem.
E os que se amam, pungem
de amar, e mais amando
em gozo, em gozo, em bombo

ou nos vestígios, nuvens;
nos elos desta lava.
Em mais amor solvemos
o que se faz pequeno.

E humano: abismo, abismo.


Carlos Nejar
Brasil

14.7.11

Escrever



Escrever a dor
sem revolver o fogo,
a envelhecida cinza.

O que pode o amor
com os dons aprisionados?

Escrever
a ferocidade das coisas.


Carlos Nejar
Brasil

9.6.11

Madrugada



O homem se desgasta,
sopro misturado
ao sopro rijo do arado.
Vai cavando.

Madrugada sai da terra,
como um corpo se entreabre
para o orvalho e para o trigo.

O homem vai cavando,
vai cavando a madrugada.


Carlos Nejar
Brasil

22.5.11

Redondel



O Coração está acrescenta
AO Coração está acrescenta
Outro tem um soluço e senta Árvore
- Nuvem Tão Tudo entre
Coração hum e outro -
Redondos óssea desenhos, vaos óssea,
uma concha nd Noite
do Coração, o pampa
e Os Corações sentados
Coração e voando um.

Mudando, Tudo e Possível
Recomeçar.


Carlos Nejar
Brasil

21.2.11

Qualificação



Não venham com razões
e palavras estreitas.

O que sou sustenta
o que não sou.
Por mais grave a doença,
a dor já me curou.

E levo no bordão,
o campo, a cerca,
as passadas que vão,
o rosto que se acerca
na rudeza do chão.

O que sou
é dar socos
contra facas quotidianas.
E é pouco.


Carlos Nejar
Brasil

30.1.11

Os meus sentidos


Um dia vi Deus numa palavra 

e luminosa despontava, argila. 

E Deus vagueava tudo, aquietava

 as numinosas letras, quase em fila.

E depois se banhava nesta ilha 

de bosques e bilênios. Clareava 

as formigas noctâmbulas da fala. 

E nele os meus sentidos se nutriam.

Os meus sentidos eram coelhos ébrios

 na verdura de Deus entretecidos. 

A palavra empurrava o que era cego,

a palavra luzia nos sentidos. 

E Deus nas vistas do menino, roda 

e roda nos olhos da palavra.

Carlos Nejar
Brasil

10.8.10

Abandonei-me ao vento



Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.

Carlos Nejar
Brasil