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24.3.11

Sobressalto



amor,
as luas mortas
caíram no segredo deste amor;
fujamos pela praia
embarquemos no vento!

as luas mortas
são mundos apodrecidos…

o nosso amor balbucia
cantigas da era nova
e nas mãos
temos o húmus adubado e quente
para o jardim redolente
para a seara de pão
para a seara de amor…

nada nos serve fugir
pior que fantasmas
são os miasmas
dos mundos apodrecidos…

amor,
nos vales ermos, esquecidos
de toda a flor,
de todo o riso,
do amor ao amor
das madrugadas e dos pássaros.

(fechadas todas as portas
ao susto e à escuridão,
com um beijo verde de esperança
cantando no coração)

amor,
enterremos as luas mortas…


Lília da Fonseca
Angola

14.2.11

Uma canção na noite



anda subtilmente no ar
uma canção qualquer…
vem do escuro, do vago, da noite..
porque lá fora é noite
e a história da noite,
da vida, do mundo,
freme na voz dessa canção.

e eu quero ser voz e ser acção!
na minha frente o papel branco
espera, espera, espera…
por tudo quanto eu tenho p’ra dizer-lhe,
e que o pode tornar numa canção de gesta
do mundo que há-de vir,
num ai de amor,
numa blandícia, num suspiro,
numa bandeira ao vento
a rasgar o vento
com o traço de uma ideia…

mas lá do escuro da noite
vem uma canção…
em que parte da alma é que dói,
quando se é novo e triste e se está só,
e há uma voz que resvala
por remotos caminhos, p’ra nos dizer
aquilo que a nossa boca sem fala
calou?

e a inspiração morreu…
papel, caneta e tinta
fogem-me na sombra.
a canção é a vida,
a canção é o mundo,
a canção é o amor.

Anda subtilmente no ar
Uma canção qualquer…
A canção sou eu!


Lília da Fonseca
Angola

24.1.11

O búzio




Búzio
Porque tens dentro a voz do mar?
Sentes saudades dele?
Quando te encosto ao ouvido
ouço-o sempre a cantar
como uma ondinha distante
batendo na praia ao luar.


Lília da Fonseca
Angola

24.12.10

Mensagem do Natal



a vida não pertence a este ou àquele,
não pertence a ninguém, ela é de todos;
os engenhos de morte pertencem a este ou àquele,
e matando e destruindo e aniquilando,
são a vontade deste ou daquele
de matar, de destruir, de aniquilar
a vida da qual não são os donos.

olha o mapa e os caminhos,
os caminhos que vêm de toda a parte:
que frémito trespassa os corações,
que barreira de mãos erguidas em protesto,
que vozes roucas de gritar
não, não, não...
não queremos guerra a dividir os homens!


Lília da Fonseca
Angola

5.7.10

Luta com fantasmas



como tu, ó poeta, eu me pergunto
nesta hora de tortura,
porquê “sans amour et sans haine
mon coeur a tant de peine?”

afasta-te, ó sombra de verlaine…

lá fora brilha o sol e eu quero cantá-lo a toda a altura…
num recanto da vida chora uma criança
e eu quero embalá-la nos meus braços…
nos cais a humanidade apodrece viva
e eu quero amá-la de todo o meu coração…

“mon coeur a tant de peine”…
afasta-te, ó sombra de verlaine!


Lilia da Fonseca
Angola

24.10.09

Poema distante



Ó praia de luz morena
De recorte sensual,
Eu vou soprar a minha avena
De inspiração tropical.

Em toda a areia eu descubro,
Nas águas e nos Palmares,
vestígios do sol ao rubro
Disseminados nos ares.

E a minha mágoa, esta pena
Que chora,
Tornou-se então mais morena
Que outrora!
Onda atlântica da praia,
A minha flauta modula
A tua voz desmaia
Como o capim quando ondula...

E eu não sei se a claridade
Que muito ao longe se esgarça,
é nuvem na imensidade
Ou asa de qualquer garça...

E a minha pena, esta mágoa
Flutua
Como flutua na água
A lua.


Lília da Fonseca
Angola

24.7.09

Bandeira branca



Java, Bornéu, Coreia, indochina,
não há mares que nos separem…
na ponta das vossas lanças há um grito!

e esse grito
floresce nos nossos olhos,
baila no nosso peito
e como bandeira branca
palpita nas nossas mãos…

java, Bornéu, Coreia, Indochina,
a que distância estais vós?
tão perto
que uma linguagem nos basta:
a de uma bandeira branca…


Lília da Fonseca
Angola