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4.1.09

Terra Prometida



Somos filhos da terra prometida
a marcha indelével
de um destino cansado
seguimos o clarão luminoso
escrito de sonhos matinais

Somos a jovem flor
plantada em Boé
a Pátria que se espreguiça
(esperamos imortal)
com veias de criança
voz da selva aromática
e mãos de poeta

Somos filhos de nós
esperanças mil vezes frustradas
mas nos corpos esqueléticos
e faces sem futuro
já desabrocha outra vida
rosa na terra e no mar


Julião Soares Sousa (poeta guineense)

2.1.09

Vinte de Fevereiro


Aos meus companheiros João Carlos, João Conduto,
Amadeu Cardoso, Quecuta Mané e outros...


Amanheci num interrogatório
de trinta e cinco perguntas
o medo e o terror invadiram meus passos
nos corredores silenciosos

Veio-me à memória
o cativeiro
o rosto da mamã triste
por entre as flores do Ministério
o chilrear dos pássaros
e o sol abrasador que se anuncia

Veio-me à memória
distante em dias contados
o Vinte de Fevereiro
a manhã em que fomos apenas
flores da nossa luta
e outros slogans.

Julião Soares Sousa (poeta guineense)

1.5.08


In Memoriam
Em homenagem a José Carlos Schwarz...


Na lonjura dos anos
choro uma alma amordaçada
mas de voz de livre
voz de melodias perfeitas clamando justiça
aquele tempo de espera infinda
de labaredas de fumo melancólico
em que a terra se mergulhou

Na lonjura dos anos
choro por quem a morte venceu
mas vive dentro de mim
nestes dias de novos desencantos
agora que a terra emudeceu
para sempre

Na lonjura dos anos
proscrito na ilha distante
sucumbiram também
os olhos e a memória
do poeta-cantor
cheios «Do Verde (verde, verde!) do meu País»
«Verde seja a esperança
do regresso breve»


Julião Soares Sousa (poeta guineense)

24.1.08

Cantos do meu País



Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas américas


Canto cantos tristes
do meu País
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegar


Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças


Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raiz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detêm
a marcha do meu País



Julião Soares Sousa (poeta guineense)


21.1.08

Um novo amanhecer


A chuva que cai
dos olhos sem brilho
não há-de apagar a chama
que arde por dentro

Outro fôlego e novo amanhecer
já se adestra no horizonte
com força e revolta
velhas na idade

Outro fôlego e novo amanhecer
desenha na derrota
novo rumo
com memória de sangue e mágoa
de outros tempos passados


Julião Soares Sousa (poeta guineense)