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12.12.10

Eu nasci nas agrestes serranias



Eu nasci nas agrestes serranias
Da nevoenta legendária Beira.
Lá onde o lobo a uivar consome os dias
E cresce e brilha a rubra flor da urgueira:

Onde o vento, ao passar, diz mil segredos...
E São João, no vivo e quente estio,
Soluça ao ver as moiras nos penedos,
Ou com as moças canta ao desafio.

Onde os rios, descendo sussurrantes,
Nas ladeiras em ásperos fragões,
Parecem velhos frades mendicantes
A rezarem pausadas orações.

Leite de Vasconcelos
Moçambique

12.12.09

Receita para uma infracção



Toma nas mãos uma manga
desses que verdes o Knopfli sente
na infância do palato
Tens cinquenta anos
dois rins em greve até à morte
e um que pertenceu a alguém que desconheces
e por morto não soube a quem doou
a faculdade de mijar ainda
...

Tomas uma verde manga como um rio
uma simples manga de Novembro
de ti para ti transplantada
nos dezembros da vida


Leite de Vasconcelos
Moçambique

9.7.08

Cristão



....
Piedade para o cristão Piedade para ele
que tem um só deus entre tantos demónios
e piedade também para esse deus exausto
que entrou num homem porque queria morrer...


Leite de Vasconcelos
Moçambique

5.7.08

A Pele


(em tempo de reestruturações económicas,
reconversões tecnológicas e outras actualizações)

Papel de embrulho
feito
software

Até entrever o fim em

Receita para uma infracção

Toma nas mãos uma manga
desses que verdes o Knopfli sente
na infância do palato
Tens cinquenta anos
dois rins em greve até à morte
e um que pertenceu a alguém que desconheces
e por morto não soube a quem doou
a faculdade de mijar ainda
...

Tomas uma verde manga como um rio
uma simples manga de Novembro
de ti para ti transplantada
nos dezembros da vida


Leite de Vasconcelos
Moçambique

19.6.08

Juiz



Caracol de toga e de registo
o mais prudente
intérprete de Cristo
Atira só a derradeira pedra


Leite de Vasconcelos
Moçambique

Lição de Biologia


No reino animal
não há cores necessárias
mas animais do reino
utilizam cores convenientes.
É velho o mimetismo
sabido de animais sem raciocínio
que atacam uns e outros se defendem
nunca (curiosamente) por a cor ser aquela
ou outra diferente
mas porque se defende ou apetece
a carne submersa em qualquer cor.
Resulta disto o simples corolário
de ser conveniente a certos apetites
usar o mimetismo e abocanhar
em nome duma pele
a pelo e o resto de quem passa perto.
Jogos de luz de pronto se diriam
estes que na luz entretecem
cumplicidades de cores
não fossem os hábitos sombrios
destes predadores.
Tantos mais que se conhece
serem daltónicas as suas fomes
pois notícia não há de que algum
rejeite por almoço
um animal da sua mesma cor.
Diferencia-os o diâmetro das fauces
o grau do apetite é rigorosamente infindo.
E isto os mata
que não há digestões
para fazer o quilo de tais fomes.
Inevitavelmente, os sáurios empaturram
e, de comerem sempre,
ficam duma cor definitiva em todos os mortais.

Leite de Vasconcelos
Moçambique

26.5.08

Búfalo



Um manso boi em estado solidário
Temam-lhe a revolta
de estar ferido
ou ser abandonado
Então torna-se um homem


Leite de Vasconcelos
Moçambique

11.5.08

Facocero



Bem tentaram
dar-lhe parentes nas Ardenas
e caçá-lo como javali
Não foi assimilado
Sempre preferiu
não ser caçado

Leite de Vasconcelos
Moçambique

14.3.08

Ladainha


Pela noite pela rua
passamos gatos e cães
somos as lendas raivosas
do sangue das nossas mães

Pela noite pela rua
somos cavernas e vento
temos a boca cansada
do asfalto e do cimento

Pela noite pela rua
somos navalhas abertas
já fomos estátuas mas
tivemos canções e festas

Pela noite pela rua
vendemos a mocidade
somos canções esquecidas
parasitas da saudade

Pela noite pela rua
de braço em braço tocado
tecemos o nosso tempo
levamos a morte ao lado

Pela noite pela rua
já nem somos o pecado
perdoou-nos o silêncio
deste seio amarrotado."

Leite de Vasconcelos
Moçambique