Mostrar mensagens com a etiqueta Tomás Vieira da Cruz (Angola). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tomás Vieira da Cruz (Angola). Mostrar todas as mensagens

18.12.10

Muamba


a minha lira mulata
tem acordes tão amantes
que eu julgo serem de prata
as suas cordas vibrantes.

porque fiz d’ela mulher
tem lábios cor de “pitanga”,
da “pitanga” de comer,
com adornos de missanga.

E os seus braços tão nervosos
são dois ramos de palmeira,
que me abraçam, duvidosos,
e me prendem de maneira,

que eu não sei qual é melhor,
se os seus beijos de “muamba”,
se o “jindungo” deste amor…
- amor mulato… pitanga!


Tomaz Vieira da Cruz
Angola

1.5.08


Surucucu


Fui mordido sem remédio,
quem me mordeu foste tu...
E agora morro de tédio,
veneno surucucu.
.
Foi numa triste cubata,
mais longe do que a distância,
mais longe do que a saudade,
que é tempo morto que mata.
.
Nunca mais posso esquecer
a tua boca sem fala,
quando um leão, que era rei,
assustava e complicava
os murmúrios da sanzala.
.
Uma palmeira
à luz da Lua, parecia que rezava
naquele mundo profano!...
.
Fui mordido... - Foste tu! -
Nunca mais posso esquecer-te,
- veneno surucucu.


Tomás Vieira da Cruz (poeta angolano)


20.3.08


N'gola - Flor de Bronze


Filha de branco que morreu na guerra
e de uma preta linda do Libolo,
o teu olhar até de noite encerra
todo o luar das lendas do Catolo!


Ó flor estranha! já não tem consolo
a tua magoa, a tua dor na terra!

Ó flor estranha do febril Capolo
neta dum soba que perdeu a guerra!


Estátua ardente em bronzeadas chamas
que tentação e perdição derramas
por sobre a história negra, quase finda!


Neta dum soba que acabou chorando,
filha de branco que morreu lutando
e duma preta tristemente linda!


Tomás Vieira da Cruz (poeta angolano)

16.3.08


Rebita


Mulata da minha alma
batuque dos meus sentidos,
meus nervos encandecidos
vibram por ti, sem ter calma.

Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.

E, triste, assim, vou dançar,
vou dançar e vou beber
o vinho do teu olhar,
que me faz entontecer.

Ouvindo, longe, tocar
o quissange do gentio,
que vive, além no palmar,
onde corre o verde rio!

E depois adormecer
na tua esteira de prata,
onde quero, enfim, morrer,
oh minha linda mulata.

..........................................

Mulata da minha alma,
batuque dos meus sentidos...

Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.


Tomás Vieira da Cruz (poeta angolano)

14.3.08

Mulata


Os teus defeitos são graças
que mais me prendem, querida...
Mistério de duas raças
que se encontraram na vida.

E, no mato, em nostalgia,
num exílio carinhoso,
fizeram essa alegria
do teu olhar misterioso.

E deram forma de sonho,
em seu viver magoado,
a esse estilo risonho
do teu corpo bronzeado...

Que é bem a grácil maneira
em que a volúpia se anima,
- bailado duma fogueira
queimando quem se aproxima!

.............................................

A tua boca dolente,
cicatriz de algum desgosto
é um vermelho poente
no lindo sol do teu rosto.

E os beijos que pronuncias
são palavras dolorosas...
Teus beijos são tiranias,
são como espinhos de rosas...

Que me embriagam, amantes,
no éter do seu perfume...
Teus beijos são navegantes
sobre as ondas do ciúme.

.............................................

Os teus defeitos são graças
desse mistério profundo...
Saudade de duas raças
que se abraçaram no mundo!


Tomás Vieira da Cruz (poeta angolano)


11.3.08


Romance de Luanda


Coqueiros esguios - leques ao vento
abanando a Ilha.

Um dongo flutua
na baia.

E ela, a negra maravilha
condecorada com reflexos de prata
com que o céu a está beijando,
com que o céu a está vestindo,
- adormeceu sonhando
placidamente sorrindo.

Nas águas verdes da baia calma,
caem pétalas vermelhas
de uma linda flor de ónix!

E o timoneiro, um preto atleta,
jovem pescador
é um brutal Cupido,
- é o Deus do Amor
em bronze reproduzido!

Nas águas verdes da baia calma,
caem pétalas de sangue,
duma flor já desfolhada...

Um dongo flutua
na baia.

Vai rompendo a madrugada!


Tomás Vieira da Cruz (poeta angolano)

10.3.08


Coqueiro



Ali, na Rua do Carmo,
um coqueiro ficou abandonado,
quando destruíram a casa velha

a que deu sombra.


E onde um par enamorado
teve sonhos de amor,
nesse pedaço de Luanda antiga
agora modernizado.


E o coqueiro ligado à terra.
tombado na direcção
da Rua da Pedreira,
como um filho nos maternos braços
ali ficou.
Talvez para saudar alguém
que muito sofreu e amou...


Mas tudo acaba e o tempo
tudo anda a destruir,
— porque tudo é passageiro,
quando se vive a mentir.


Ó pincelada verde na cidade,
ruína e gótica coluna
de mármore verde...


Morre, coqueiro, morre,
Antes que os homens, tão maus,
cometam a crueldade
de te expulsar e matar.


Morre de pura saudade....


E perdoa, mas sofre como um homem,
coqueiro das verdes palmas,
porque tudo, afinal, na vida, é triste,
quando se matam Almas...


Tomás Vieira da Cruz

21.2.08

Eterna sentinela



Abandonado e só,
o Imbomdeiro,
figura milenária do sertão,
tem a dolorosa expressão
de quem foi condenado
por toda a vida
a sofrer na costa de África
o seu destino maldito.

Não conhece os milagres do amor,
e junto a si jamais teve o carinho
ou a ternura saudável
da mais humilde flor.

Imbondeiro desgraçado,
filósofo triste e pensativo,
filósofo da paisagem,
mártir e santo que alguém tivesse encontrado
no inferno de Dante
e conduzisse a este sol abrasador:

- Tu és a estátua gigante
da minha dor!

Tomás Vieira da Cruz (poeta angolano)

Quissange - Saudade Negra



Não sei, por estas noites tropicais,

o que me encanta...

Se é o luar que canta

ou a floresta aos ais.

Não sei, não sei, aqui neste sertão

de musica dolorosa

qual é a voz que chora

e chega ao coração...


Qual o som que aflora

dos lábios da noite misteriosa!


Sei apenas, e isso é que importa,

que a tua voz, dolente e quase morta,

já mal a escuto, por andar ausente,

já mal escuto a tua voz dolente...


Dolente, a tua voz "luena",

lá do distante Moxico,

que disponho e crucifico

nesta amargura morena...


Que é o destino selvagem

duma canção em que tange,

por entre a floresta virgem

o meu saudoso "Quissange".


Quissange, fatalidade

deste meu triste destino...

Quissange, negra saudade

do teu olhar diamantino.


Quissange, lira gentia,

cantando o sol e o luar,

e chorando a nostalgia

do sertão, por sobre o mar.


Indo mares fora, mares bravos,

em noite primaveril

acompanhando os escravos

que morreram no Brasil.


Não sei, não sei,

neste verão infinito,

a razão de tanto grito...


-Se és tu, oh morte, morrei!


Mas deixa a vida que tange,

exaltando as amarguras,

e as mais tristes desventuras

do meu amado Quissange!


Thomaz Vieira da Cruz (poeta angolano)






6.2.08

Fruta


Quitanda de fruta verde,
dá-me um gomo de laranja
para matar a sede.

Ou, então, será melhor
dar-me um veneno qualquer
porque eu ando perturbado
e o meu sonho anda queimado
por uns olhos de mulher!

- Minha senhora, laranja,
limão, fresquinho, caju,
ananás ou abacate!...

E a quitandeira passou,
saudável, viva, graciosa,
com uma flor desfolhada
no seu sorriso escarlate.

E no ar um som de musica ficou
e um perfume de fruta
que não matou minha sede

Oh agridoce quitanda
da fruta verde!...

Tomás Vieira da Cruz (poeta angolano)