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23.9.10

Acto ou qualquer outra Coisa


Acto ou qualquer outra coisa. Eu sei, aquela mulher
tão tranquila
vendo da janela do quarto o porto
vendo dos barcos o fumo rente aos mastros
eu sei

essa mulher bem podia ter o nome quando
por detrás da janela observa
outras coisas que não são barcos e mastros.

Talvez os homenzinhos de azul despertem seus desejos
ou só o azul desbotado, mas não
não nessa janela nesse porto de cidade que não sei
e ela sabe

envolta no vestido, ruivo o cabelo,
envolta nas madeiras da portada.
O chão deve ranger sob os seus pés.

João Miguel Fernandes Jorge

2.12.09

Natal, Natal de oitenta e oito



Um monte alto de musgo
e um atalho de areão
subindo para a noite
de dezembro.

Há sempre um pinheiro
uma grande árvore
com as raízes
e o tronco
na sombra do amor.

O lugar
onde o deus
tinha armado o seu presépio
ficava assentado
num valezinho verde de musgo e branco de
neve
e folhas mortas do inverno.

Os olhos seguiam o rio
das estrelas
e a luz fazia mistério
do claro choro daquele menino
entre vaca e burro
mulher e homem.

Contasse o segredo do coração e
haveria conversa bastante para a
voz melancólica
de um pastor
que passara a infância sem brincar
e não pudera ser alegre
nem triste.

Mas o pastor é o guarda de ovelhas,
a própria vida adentro da
floresta
o anjo, o anjo perdeu a asa no riacho
lamacento
colhendo baga vermelha de azevinho.

E o deus,
vestido de recém-nascido, lançava
lança o olhar
à voz da fria noite
e do dezembro escuro - houvesse
ou não vida de homem nele -, dá a
Roma
a razão do seu corpo
p'lo destino de nossa alma e morte.

Um monte alto de musgo
era uma sombra
era um deus
sombrio de dezembro?


João Miguel Fernandes Jorge

13.12.08



A abstracção não precisa de mãe nem pai
nem tão pouco de tão tolo infante

mas o natal de minha mãe é ainda o meu natal
com restos de Beira Alta

ano após ano via surgir figura nova nesse
presépio de vaca burro banda de música

ribeiro com patos farrapos de algodão muito
musgo percorrido por ovelhas e pastores

multidão de gente judaizante estremenha pela
mão de meu pai descendo de montes contando

moedas azenhas movendo água levada pela estrela
de Belém

um galo bate as asas um frade está de acordo
com a nossa circuncisão galinhas debicam milho

de mistura com um porco a que minha avó juntava
sempre um gato para dar sorte era preto

assim íamos todos naquela figuração animada
até ao dia de Reis aí estão

um de joelhos outro em pé
e o rei preto vinha sentado no

camelo. Era o mais bonito.
depois eram filhoses o acordar de prenda no

sapato tudo tão real como o abrir das lojas no dia
de feira

e eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a banda do carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas o meu Natal é ainda o Natal de
minha mãe com uns restos de canela e Beira Alta.


João Miguel Fernandes Jorge

21.1.08

Encontrou naquele janeiro trabalho




Encontrou naquele janeiro trabalho
nas obras.

O seu melhor era o abrir da lancheira
o termo de alumínio canelado protegendo


o espelhado vidro
o café mantinha-se quente por muitas
horas.
As botas de velhos atacadores já com
buracos
as grossas meias de algodão a camisola
rota num dos braços o fato-macaco
a negra barba mal feita e os tijolos

erguendo a lenta parede dos dias.
O reboco o triturar a pedra
o cimento quase parte das mãos
a poeira doendo os olhos.

Sem ninguém, entre fasquias andaimes e
caliça
sem espaço para legenda bebe café entre
o vigésimo terceiro e quarto andar.


João Miguel Fernandes Jorge

16.1.08

Pelo fim da tarde




Era um dia, pelo fim da tarde,
o sol descia sobre

o sentimento da vida.

João Miguel Fernandes Jorge