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4.3.10

O Velho Palácio

Panorama of Espalion, with the Old Bridge over the Lot River and the Castle Photographic Print

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,
Fundado numa rocha, à beira-mar...
Donde se avistam lívidas colinas,
E se ouve o vento nos pinhais pregar.
Houve outrora um palácio, hoje em ruínas.

Nesse triste palácio inabitável,
As janelas sem vidros, contra os ventos,
Batem, de noite, em coro miserável,
Lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável...

Só resta uma varanda solitária,
Onde medra uma flor que bate o norte,
Sacudida de chuva funerária,
Lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária...

Como nessa varanda apodrecida
Em minha alma uma flor também vegeta...
Toda a noite dos ventos sacudida,
Íntima, humilde, lírica, secreta,
Como nessa varanda apodrecida...

Gomes Leal (1848 - 1921)

1.2.10

O visionário ou som e cor, III

Lotus Pond Art Print
O vermelho deve ser como
o som duma trombeta…
Um cego


Alucina-me a Cor! - A Rosa é como a Lira,
A Lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, às vezes, brota a flor que não inspira
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor de alguma flor que expira…

Há plantas ideais de um cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim…

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada.
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
- Tem notas marciais, soa como um clarim.


Gomes Leal (1848 - 1921)

23.1.08

A bela flor azul


Quem saberá «signora» onde terá nascido esse belo lírio branco?

Velha comédia italiana

Eu não sou o fatal e triste Baudelaire,
Mas analiso o Sol e decomponho as rosas,
As rijas e imperiais dálias gloriosas,
– E o lírio que parece o seio da mulher.

Tudo o que existe ou foi, morre para nascer.
Na campa dão-se bem as plantas graciosas.
E um dia, na floresta harmónica das Cousas,
Quem sabe o que serei, quando deixar de ser!

A Morte sai da Vida – a Vida que é um sonho!
A flor da podridão, o belo do medonho,
E a todos cobrirá o místico cipreste!...

E, ó minha Esfinge, a flor pálida e azul no meio,
Que ontem tinhas no baile e que trouxeste ao seio,
– Levantei-a dum chão onde passara a Peste.

Gomes Leal