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11.4.11

Com um só fósforo ilumino o infinito


Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.


Amadeu Baptista

11.3.11

Canção


(para Fiama Hasse Pais Brandão)

O buxo forma um arco com algumas
dezenas de léguas que é preciso percorrer.
Depois há um pomar de magnólias brancas,
de onde se pode vislumbrar o esplendor de um regato.
Deste regato, contando cinquenta passos, alcança-se o jardim.
Cada um dos canteiros do jardim está disposto numa singular
correnteza de sete pequenos losangos, que são coroados
por um círculo de terra. Em cada círculo de terra
há flores brancas e amarelas, sendo jacintos as mais vigorosas
e gerânios as que dissipam a sombra. Segue-se, depois,
por uma estrada de saibro, e descobre-se um lago,
enquadrado por quatro torres vermelhas. O lago
é de um azul penetrante e as árvores que o circundam
são sagradas. Depois, segue-se pelo caminho da esquerda,
que se bifurca na ponte de pedra. Daqui, segue-se em frente,
até ao campo de girassóis, que dez colmeias pontuam
e um velho castanheiro vigia, desde o tempo dos tempos.
Depois, há uma clareira que se deve atravessar até que se encontra
um portão. Não havendo ninguém ao portão, acende-se um archote
para iluminar o caminho. Esta luz deve ser obstinada.
Depois, à direita, há um túnel, e, logo após, uma gruta
e uma longa escadaria, que se deve subir como uma montanha.
Encontra-se, por fim, a antecâmera. No centro da antecâmera
ergue-se um trono e, à frente do trono, há uma cama,
em que uma mulher está adormecida. Sobre o rosto
desta mulher adormecida está um livro aberto,
que é preciso ler até que o amor seja um laço de sangue.
E tudo isto feito, Fiama há-de estar viva.


Amadeu Baptista

17.12.10

Um dia ouvimos tocar




Um dia ouvimos tocar
um violoncelista
que de tanto vibrar
começou a voar sobre as casas.

Um cavalinho de pau,
nosso conhecido,
por ter ficado abandonado
no jardim
também possuía a misteriosa claridade

das noites em que há luar.


Amadeu Baptista

11.8.10

Praia da Granja


Pelo que quer que seja a exaltação habito aqui,
nesta casa de sete janelas,
com uma pequena porta e uma varanda verde.

A praia incendeia-me os olhos,
e chamo, chamo à mulher espiral do mundo.

Toco com um dedo o muro branco e acrescento
ao entendimento ervas amargas, animais solares
e obscuros, um antigo instrumento de trabalho,
o búzio, o barco, o arado,
um ramo de salgueiro, esta pedra incisiva,
uma maçã vermelha.

Guardo no coração uma voz que vai de lugar em lugar
a interrogar as sombras
e no poema murmura o poder das cintilações
sobre a cânfora,
a hortelã,
os figos,
o encantamento,
a cabeça da víbora.

A extensão desta casa é a dimensão desta praia
divina sobre as águas,
tal como é divina a mulher que me acompanha
e a quem chamo espiral do mundo
por ter criado um sortilégio assim,
uma casa grega,
branca,
nítida,
com sete janelas,
uma pequena porta e uma varanda verde
sobre o mar.

Amadeu Baptista