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26.11.10

Girassol


Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!

Corsino Fortes
Cabo Verde

26.10.10

Pecado Original


Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...

Corsino Fortes
Cabo Verde

26.9.10

Primer brinquede de Tói



A criança ficou bêbada de chuvasol
E apostou
Que as mãos
E as ilhas
Voariam gémeas
Assim aves de espaço & tempo

E diz a criança
“sob o olho da terra arável"
Sou a semente
Por onde sonha
A cabeça do arqupélago

Corsino Fortes
Cabo Verde

Proposição



Ano a ano
crânio a crânio
Rostos contornam
o olho da ilha
Com poços de pedra
abertos
no olho da cabra

E membros de terra
Explodem
Na boca das ruas
Estátua de pão s6
Estátuas de pão sol

Ano a ano
crânio a crânio
Tambores rompem
a promessa da terra
Com pedras
Devolvendo às bocas
As suas veias
De muitos remos

Corsino Fortes
Cabo Verde

4.4.08

De boca Concêntrica


Depois da hora zero
E da mensagem povo no tambor da ilha
Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
As rochas gritaram árvores no peito das crianças
O sangue perto das raízes
E a seiva não longe do coração

E

Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
Árvore e Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta
África
mais uma espiga mais um livro mais uma roda
Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra

A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha e coronha
partida partidas
E dobra a espinha
como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante
o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz e esfera no seu tempo e modo
De pouca semente E muita luta.


Corsino Fortes (poeta caboverdiano)

26.3.08

Não há fonte que não beba da fronte deste homem.



I

Nas rugas deste homem
Circulam
de todos os pés que emigram
Quebram-se
! as ondas de todas pátrias
Anulam-se
perfil! as chinas de todas muralhas

Na mão bíblica
No humor bíblico deste homem
de joelhos
Desertos & catedrais
Onde
deus & demónio
jogam
noite e dia
a sua última cartada
E do pó da ilha à mó de pedra
Não há relâmpago
Que não morda a nudez deste homem
nudez de liberta!
Que a dor germina
E o espaço exulta
E pela ogiva
ogiva do olho
Não há poente
Que não seja
Uma oração de sapiência

Sobre a face deste homem
o povo ergueu a praça pública
E os tambores transportam
o rosto deste homem
Até à boca das ribeiras
E ao redor
os vulcões respeitam
o silêncio deste homem


II

Não há chuva
Que não lamba o osso de tal homem
À porta da ilha
o sal de toda a saliva
O sol ondula oceanos no sangue deste homem

Oh cereal altivo! vertical & probo
Ainda ontem
antes do meio-dia
O vento punha velas na viola deste homem
Hoje!
A viola
De tal dor é sumarenta
E projecta
sobre as almas
a seiva
De uma árvore imensa
Oh oceanos! que ladram à boca das tabernas
Se o sangue deste homem
é tambor no coração da ilha
O coração deste homem
é corda no violão do mundo
E os joelhos
rodas que vão! hélices que sobem
com ilhas no interior


III

Sombras sobre a colina Rosto sobre o povoado
Quando
pastor & gado jogam à cabra-cega
E chifres de sol
projectam
cidadelas no ocidente
O poente galopa a maré-alta
E ergue
"À taça da noite
Sobre as têmporas deste homem"
Oh noite verde! oh noite violada
Que a noite não apague
A memória das cicatrizes
E cicatrizes de ontem
Sejam
Sementes de hoje
Para sementeira E floresta de amanhã

Como Noé
As espécies conhecem
A sílaba E a substância deste homem
Não há milho
Que não ame o umbigo deste homem
Não há raiz
Que não rasgue a carne deste homem

E na fome pública deste homem
Cresce
a ave no voo E a gema na casca
Cresce
o cabo d'enxada E a cintura da terra
Cresce
a porta do sol E o alfabeto da pedra verde
Não há fonte
Que não beba da fronte de tal homem
Que
A erecção deste homem é redonda
E tem o peso da terra grávida


Corsino Fortes
Cabo Verde

21.2.08

O povo o poente o pão de permeio




Então Djone! nosso Djone
fidje de Bia ou Maria
Despe a camisa
E vendida
Passeamos tal tronco
Entre palmeiras de secura
Assim
Falucho
de orgasmo
que caminha
Ao som de palmas
Instrumentos de corda
violão & viola
Há sempre o banjo o cavaquinho
Que nos interrompem
Entre duas freguesias
E dizem
unha & bronze
Da nudez
E das árvores
Que crescem no céu da boca
E dos rios
que nascem na veia cava
E do sangue
do povo sobre o mapa
Desde o nascer
E desde a nascença
Os pés o poente o meridiano de permeio


Corsino Fortes (poeta caboverdiano)

6.2.08

De pé nu sobre o pão da manhã



Desde a manhã os pés
Estão nus ao redor da ilha,
Nus de árvore nus de tambor
Joelhos de sol E volutas de poeira
Nos tornozelos
Em movimento

Desde o início
O tambor dos dedos
Sob o pão das pedras
O cão das artérias
preso
na voragem
Dos calcanhares Que agitam
Na terra polvorenta
o ponteiro dos membros
sobre a testa do mundo

Os membros o mundo o meridiano de permeio

O sarilho dos corvos na falésia
Anuncia-nos

À boca do povoado
Ao vento gordo sabor a fiambre hálito
de pão novo

À beira-mar erguemos as nossas costelas
À promessa pública do mar E
À beira-mar navegamos
Com mãos menos mãos
Com pés menos pés
De proteínas

O povo o poente o pão de permeio

Então Djone! nosso Djone
fidje de Bia ou Maria
Despe a camisa
E vendida
Passeamos tal tronco
Entre palmeiras de secura
Assim
Falucho
de orgasmo
que caminha
Ao som de palmas
Instrumentos de corda
violão & viola

Há sempre o banjo o cavaquinho
Que nos interrompem
Entre duas freguesias
E dizem
unha & bronze
Da nudez
E das árvores
Que crescem no céu da boca
E dos rios
que nascem na veia cava
E do sangue
do povo sobre o mapa

Desde o nascer E desde a nascença
Os pés o poente o meridiano de permeio


Corsino Fortes
Cabo Verde

27.1.08


No ombro da minha mãe a pedra de multidão



Entre dois rostos! Duas ilhas
Não há pensamento
que não seja
Esta multidão de pedra e vento
Esta península em movimento

Infância! Se teu pai trazia às costas
O sol as salinas o deserto de Sahel
A minha mãe era então
Uma pirâmide longínqua
No saxofone de pedra
Da minha avó

Ó pedra de amor ó pedra de amigo

Todos os dias ! As mãos de Deus
Colocam uma rocha
No ombro de cada ilha
Todos os dias! Os braços do arquipélago
Colocam um rochedo
No ombro de cada homem

E grávidas ! Pejadas de pedra
E belas ! Como penínsulas
As mulheres lavram
As mulheres abalam
a pobreza na colina
a miséria no monte
a desgraça na montanha


Corsino Fortes (poeta cabo-verdiano)


28.5.07

Ilha


Sol e semente: raiz e relâmpago
Tambor de som
Que floresce
A cabeça calva de Deus.


Corsino Fortes (poeta caboverdiano)