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8.3.09

Angelus dum menino negro




Os dong dong dos sinos
fogem assustados pelo verde.
os dong dong dos sinos
diluem-se pelo verde.
O ANJO DO SENHOR ANUNCIOU A MARIA...
E vejo o Zambeze a rezar
nas ondas frescas das águas.
Mamãe,
você me ensinou a responder
quando eu andava descalço
em cima das pedras
picando so pés,
trepando nas macieiras.
E CONCEBEU DO ESPÍRITO SANTO...
que quer dizer conceber?
Papai, você, tossiu,
engoliu um pedaço de pombe,
conceber é... é...
é isso, conceber é conceber.
Eu esqueci logo,
Spanela estava a tocar marimba,
peguei na gaita
saltei no muro,
onde estava estragado,
e a gente os odis, na esteira,
tocou toda a noite:
«Aiué, aiué,
Maria Treza zigutá
Aiué, aiué...»
Mamãe não gostava,
Maria Treza
era cantiga suja de preto,
falava de mulher
que dormia com todo gente, só sei que a gente gostava
«Aiué, aiué...»
EIS A ESCRAVA DO SENHOR...
Ah, isto eu sabia,
escravo
era como Luís
que foi preso no vapor para S. Tomé,
como campira
que ficava nu em chapa de zinco no sol,
escravo
era como Sabonete
que apanhou tanto palmatoada
que mão deitou sangue.
Aí, avó disse
que Mulungo era bom,
a gente ficava contente
de ser escravo d' Ele.
Então eu falei
com Álvaro e com Spanela,
a gente pensou, pensou,
depois àlvaro disse:
- Não, eu não quero ser escravo
Nem de Mulungo,
fizemos contrato
- Nunca ser escravo!
FAÇA-SE EM MIM SEGUNDO A VOSSA VONTADE...
isto sei, mesmo bem,
quando a gente se gosta
fica cheio de contente
quando faz o que outro quer.
Eu lembro Alice,
quando ela diz faz isto,
mesmo que seja carregar lata,
ou ir na mina
ganhar dinheiro e ficar doente,
mesmo isso,
basta ela dizer eu faço logo.
E fico contente, minha Mãe
parece que sou rola
e voo em cima de tudo, tenho tanta cor
como borboleta que anda no capim,
meu coração canta mais
que Chimaze no Carnaval,
eu gosto fazer vontade Alice.
O VERBO DIVINO SE FEZ HOMEM...
isto não compreendo,
sessór Condado
na aula diz:
«Verbo traduz acção.»
Verbo e amar,
partir, muitos mais.
Assim inda eu vejo,
amar está bem,
mas por exemplo, odiar
é verbo também
mas esse, eu não gosto.
Agora eu penso,
há verbos que são verbos
amar, comer, rir,
outros que não são
porque não podem ser;
são palavras feias
que gente grande devia pôr piripiri
quando se dissessem.
E HABITOU ENTRE NÓS...
habitar é ter casa,
como era casa d'Ele?
Eu penso que era pobre
tinha palhota na temba,
andava descalço como nós,
não tinha bicicleta, não,
mas às vezes eu posso me enganar!
E Ele tinha casa
como Sr. Intendente,
bicicleta como filho de Administrador
que nunca empresta a burra à gente.
Mas isso eu não acredito,
eu gosto de Jesus,
se Ele fosse muito rico
eu não queria gostar;
mas Spanele,
e Álvaro,
e eu,
a gente O convidar a jogar berlinde,
a atirar pedra ao rio,
pedra que salta muita vez;
Ele vem sempre,
anda com a gente
roubar ovo de crocodilo,
apanhar mangas na estrada de Boroma,
comer maçanita no Canhime.
Ele é como a gente
mas é filho de Mulungo,
e a gente brinca,
e há-de continuar a brincar
ali nas estrelas,
onde vive com a família,
nas estrelas a gente há-de brincar.


Sérgio Vieira
Moçambique

28.9.08

Alvorada



(um canto de confiança)

Sobre ti,
com o sangue
e a tristeza que nasceu em nós,
desce a luz do dia que se faz.
Como morre na terra a vida,
para que outras vidas germinem ao sol,
como se entrega crepitando ao fogo
o ramo forte da árvore,
assim,
vida e calor,
grito novo de esperança,
chegas tu, no mistério do luto.
E ainda doloridas
te oferecemos as nossas mãos trabalhadoras,
vermelhos e tristes
te entregaremos os nossos olhos vigilantes,
e as nossas vidas de combatentes
mil vezes serão tuas,
no grito novo e enorme
como o flutuar da bandeira que içaste:
A luta continua


e sobre ti,
com a tristeza de manhã de Fevereiro,
com a esperança do Sol que nasce,
com a força imensa da vida
que cresce no ventre da mulher,
sobre ti,
desce a confiança do partido e do povo.
A ti,
reivindicamos a purificação e vingança
que o nosso sentido de justiça exige,
queremos um fogo ainda maior
que ao marulhar das ondas do Índico
respondam os canhões da esperança,
que o limpopo transporte convulsivas
as carcaças de pontes,
que o Zambebe se transforme em Rovuma de Maputo
e a tua mensagem
faça de nós ciclone devastando o inimigo.
E queremos
no amor que te damos,
na fé em que te envolvemos,
que nos transportes ao futuro
e faças da esperança das buganvílias
grite alegria na pátria
e o sangue se torne apenas recordação.
À Pátria que ele nos deixou
deves acrescentar a revolução que a bomba
deixou incompleta
e de nosso grito
Independência ou morte
queremos construída
a realidade do
Venceremos


Sérgio Vieira
Moçambique

27.2.08

Poema para Eurídice Negra


Dos teus seios negros
nasceram os rios do povo negro

Eurídice,

e o sol e o fogo
foram sol e fogo
nos teus olhos de África

Eurídice.

na virgindade do teu sexo,
puro como as minhas florestas,
morreram milhões de escravos,

Eurídice,

Mas tu és amor,
na imensidade do Índico
possuindo Moçambique,
és o sonho,
na tranquilidade do Níger
acariciando o Sudão amado,
minha África-Eurídice
que o tam-tam de guerra
ainda não acordou
Levanta-te e vem,
que soam as marimbas e o tambor
do nosso povo!
Quando eu construí as pirâmides,
só te vi a ti,

Eurídice,

O Cruzeiro do Sul
foi nosso palácio
quando reinei
no meu império do Mali;
depois vieram os navios,
e arrancaram-me o teu coração,
e a minha voz
ficou rouca
nos trompetes que te procuraram;
mas agora

Eurídice,

os nossos corpo
voltaram-se a encontrar,
as mangas
ficaram douradas
e as buganvílias floriram,
as acácias
vestiram o negro
do teu corpo nu.
E o Zambeze
que atravessou toda a África,
o Zambeze
que acariciou todo o corpo

de Eurídice,

o Zambeze
uniu-se ao Congo
e ao Niger
e ao Nilo
e a toda a África-Eurídice.

Vem Eurídice,

vem,
vamos correr pela savana
e dar as nossas almas à chuva
para elas crescerem,
rolaremos
na esperança verde do capim;

Eurídice,

são doces os frutos
das nossas árvores,
e as flores da nossa terra
vivem em perfume no ar,
nos nossos céus
há mais estrelas,
nos nossos olhos
há mais luz,
nos nossos pulsos livres
há mais sonho...

Vem Eurídice, vem!


Sérgio Vieira
Moçambique

1.2.08

Poema


Deixa chorar mamãe,
sou sozinho nesta Europa grande,
de noite,
meu sonho ainda chama Paulo
para ir dançar batuque,
de dia,
minha cabeça gira
para ver Alice.
Deixa chorar mamãe,
você me deitou no avião
e ele me tirou
para longe da terra,
aqui há rio
e aqui há ilha,
mas eu não vejo
Zambeze com jacaré,
nem sinto verde
do capim no Canhime.
deixa chorar mamãe,
você me quer Muzungo,
snr. advogado preto
é branco também
e talvez entre no clube.
Deixa chorar mamãe,
você me esqueceu
meu coração de negro,
é,
ele não conta, não
mas deixa chorar mamãe…

Sérgio Vieira
Moçambique