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11.9.10

Acordei esta noite


Acordei esta noite
com o gotejar da chuva
monótono
sonolento.
Dormia comigo a saudade
e comigo acordou
amargando horas sem raízes
no tecer de angústias e desânimos.
Pura fantasia a textura dos sentimentos!
Os galos cantavam ao longe
no romper da madrugada
e a claridade incerta da janela
abria mansamente os meus olhos
intactos
molhados.
Ousei tocar a tua mão branca
sabendo que tocava o lado esquecido da vida.
Tinhas morrido.
Já na véspera o sabia
mas esqueceu-mo o dormir.
Fugi para a cidade
e vagueei pelas ruas adormecidas
até os galos calarem o seu cantar.
Por baixo de um céu de nuvens
levei meus passos para o lado do mar.
As ondas abriam-se nos rochedos negros
e eu não tive medo.
Deixei que as pernas me pesassem
ao longo da praia
em passos leves de areia fina.

Quando levas um seio ao vento
e me dás a beber campos e cidades
glorifico a pouca luz que ainda me resta.
Se os lobos se atravessam
no caminho para a tua cabana
o vento ergue-me nos ares
e o coração aprende a não ter medo de cair.
Descobridor de sonhos
de amanhãs que riem
e de estuários...
continuo a pintar o vento
ainda que nele te vás.


Adão Cruz

1.8.10

Nas curvas do vento me enlaço



Nas curvas do vento me enlaço
no segredo das ondas me entrelaço
na tormentosa esperança de ouvir
o silêncio das algas
e o mistério da falésia.
Todos os dias me abraço
à loucura deste sonho
e deste laço
que me aperta o coração
na luz macia de Setembro.

Dentro de mim não há ninguém
à beira do rio que me percorre.
Sou poeta dos desejos e das fraquezas
sou lume e enxofre das palavras
que vou parindo
em poemas que ninguém lê.
Sou a exacta distância entre Deus
e as vozes perdidas
o sacrário das mentes que se eclipsam
e dos rios que se suicidam no mar.

Junto ao rio dos teus olhos
há sempre um poema
que tem o sabor da amora
o perfume das palavras sem uso
o som de um violino que chora.

Entre as algas molhadas
E o azul de um abraço
Nasce sempre um poema
No mar do teu regaço.

Sou aquele que ontem dormia
sobre um poema azul
e das asas da ilusão
se desprendia.
Sou aquele que ontem se despia
nos braços do azul poema
que vivia.
Sou aquele que ontem habitava
em silêncio
a canção da harmonia
do poema azul
que acontecia.
Sou aquele que ontem sonhou
em vão
com o poema azul de mais um dia.


Adão Cruz