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18.1.11

Luzem teus olhos



luzem teus olhos
atingidos já
pela ascendente
e vertical frieza
que te humedece a pele.

teu corpo
pouco a pouco
mergulha no vapor
que te dilata os poros
e enrijece a carne a desdobrar-se
em gotas de suor
amargo e frio.

arredonda-se mais
a curva do teu peito,
e a condição de fêmea
que te vive por dentro
desdobra-se em mucosa do avesso
p’ra te envolver
de glandular oferta.

mantens-te vertical
mas mal suportas já
a macieza nua
de finíssima pele
que te transforma agora
a carne em flor.

progressivamente o teu vestido
denuncia
o alterar de ondas de seda
à superfície:
dois botões de rosa
fechados
no teu peito,
uma orquídea madura,
recente e aberta,
no teu ventre.

pertences, consciente, à fina raça
que traz a carne alerta e não despreza
a voz subtil de indícios de arrepio.
a tua carne é uma maçã que herdaste
corajosa
porque não temes abrigar um fogo
destinado
a temperar de estrelas.

ateias de olhar firme a labareda que te adormece as coxas,
dilatas decidida a catedral do peito,
afastas-te de mim ganhando altura,
orbitas-te num gesto de mulher madura.

Ruy Duarte de Carvalho
Angola

21.11.10

Novembrina Solene


Seu Zuzé, as tuas vacas como estão?

Longe daqui
subimos os morros

Fomos procurar
a água que resta
do ano que passa.

Senhora Luna
a farinha?

Está secar

Tarda a chuva seca o milho

A lavra não vai medrar.

Chimutengue, meu vizinho
então por cá?

Pois que vim te visitar
te avisar
que o meu gado vai passar
aqui por perto

Tarda a chuva e é preciso
procurar
o que lhe dar de comer
o que lhe dar de beber

O capim está ficar negro
está na hora de mudar.

Imigrante Silva, a tua mulher?

Está mal.
Que é do leite pra lhe dar
a carne pra lhe engordar?

E os filhos?

Estão magrinhos
doentados
vão ficar igual com o pai

Que é da escola pra lhes dar
sapatos pra lhes calçar
oficio pra lhe ensinar?

Dunduma amigo
companheiro Chipa
Zeca, Ernesto, Calembera.
olhai pelo gado.
Protegei os pastos.
Olhai pela vida das fêmeas
e pela saúde dos machos.

Ruy Duarte de Carvalho
Angola

28.6.10

Ordem de esquecimento

Lion at Sunset Art Print

Cruel é o camarão tanto se dar ao esforço da comida com
tanta perna a pedalar no limo, a filtrar o céu das águas

Reter em cada sorvo
não mais do que além do que a milésima porção do seu
tão leve corpo,
ainda assim pesado, difícil de suster, e trabalhoso.

Melhor é o leão só carecer do vento que anuncia a caça,
erguer o olhar, aferir o curso da manada, lenta ao seu
encontro e à margem do alcance, explodir a massa
muscular
rasgar a chana a floração avulsa de uma ferida quente.

Para além disso, breve audácia, o leão namora e dorme.

Habita o cio.


Ruy Duarte de Carvalho (Angola)


5.6.10

A gravação do rosto

Memories of Serengeti Art Print

Na superfície branca do deserto
na atmosfera ocre das distâncias
no verde breve da chuva de Novembro
deixei gravado meu rosto
minha mão
minha vontade e meu esperma;
prendi aos montes os gestos da entrega
cumpri as trajectórias do encontro
gravei nas águas a fúria da conquista
da devolução do amor.

Os calcários e os granitos desta terra
foram por mim pesados.
Dei-lhes afagos
leves olhares
insónias longas
impacientes esperas.

O zinco dos telhados cobriu-me solidões
e esperanças que tu sabes.

Esperei por ti
Bordei-te flores nos canteiros do céu
abri-te valas, semeei-te milhos
pari colheitas de searas vãs
abri os dedos, semeei calhaus.

Espremi a terra e fiz-lhe água nascente
povoei prados de criaturas doces
ergui torres, girassóis gigantes
dei vida e morte, vi nascer, morrer.

Aqui reinei, julguei, plantei videiras
caminhos, grutas de vestígios
colhi olhares de animais bravios
deixei aos dedos aladas liberdades.

Empilhei madrugadas de atenção
disparei molas, carabinas frias
de traição ao vento.
Combati silêncios, instalei trincheiras
de perdão. Recebi recados de mongólias vastas
acendi fogueiras
para sufocar o medo.

Aqui sonhei europas, verdes ásias
cidades de cristais, antárdidas caiadas
daqui refiz a lua de astronautas;
contei estrelas colhi algumas
para dormir com elas.

Aqui ejaculei delírios verdes
que a madrugada insinua e vence.
Aqui colhi primícias de virgens escandinavas
e coroei outeiros e o meu sexo
com as suas tranças de ouro.

Saltei de monte em monte
e naveguei o ventre do deserto
assinalei o umbigo do mundo e plantei setas
apontando o sexo fundo da terra.
Beijei a carne universal e húmida de uma fêmea em cio,
menstruada.

Aqui me dei, aqui me fiz
desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.

Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou.

Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

3.6.10

Confirmações




Um corvo de remota idade e fatigado brilho
vem morrer à beira-mar.

Aguarda atento
que a luz propícia desça no horizonte
para entregar-lhe a força derradeira
numa surtida de acerada angústia.

Descaem-lhe do dorso opaco e magro
as digitais membranas:
acumulam detritos de excremento branco.

Sobe-lhe à tona o olhar antes profundo
a vomitar o fluido da ansiedade.

Projecta-se disperso à contra-luz.
Reduz-lhe o contorno ardendo ao sol poente.
Entra no sonho às cegas ganha altura
e tomba leve e negro no areal fictício.

Breves segundos mais
para que o vento alcance a história curta.

Depois renasce em escamas de carvão.


Ruy Duarte de Carvalho
Angola

21.5.10

Chagas de Salitre



Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roidos pelo vegetar
da urina e do suor
a carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.

Ruy Duarte de Carvalho
Angola

27.4.10

Um vento - erosão do tempo

Sangha Market Art Print

A palavra dorme
no flanco das serras
faz nuvens de tempo
e cava ribeiros
com os caudais do som.

A palavra medra
no fundo das covas
exala vapores
desfaz-se em poeira
de cáustica cor
adere às camadas
mais finas da pele
desfaz as mãos dadas
do amor indeciso
e embala crianças
negras que arrefecem.

A palavra invade
o pudor das grutas
as veias dos bosques
o céu das lagoas.
A palavra esculpe
nas furnas de grés
a fresca ventura
de meninos nus.

A palavra está
na cama dos fósseis:
dorme há milhões de anos
nas asas do raio
que petrificou
a aurora dos dias.

A palavra roda
no selim da infância:
marítima luz
ladrilho de sal
um disco que disca
com o centro na cinta
e amputa a paisagem
ao nível da idade.

Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

28.3.10

É duro de encarar o sol que brilha

É duro de encarar o sol que brilha
e nada pode, a cólera do touro
contra a manada dos areais do rio.
Quem recebeu a cauda
a cauda arrastará.
Não basta juntar a lenha
para recolher os molhos:
é preciso que a maldade os não desfaça.

Sujeito-me a vestir as velhas peles
e olho à volta
atento ao que se passa.
Eu sei que há luz e sombra
Nuvens e chuva...
Mas chegará a minha voz aos vossos pés
como aos da onça o grito da capota?

Guarda a cigarra o seu canto
perante a voz dos tambores.

Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

14.3.10

Nu sentado


Trazida à cozinha pela fome da insónia

essa mulher que chora cavalga os saltos altos
alheia nua à dimensão que tem
quando atravessa a sala e impõe o aprumo
da carne e a força do porte que ostenta.

Quando lhe vi assim de madrugada
nua e sentada
bebendo o leite e a chorar à toa
disse para mim, já dado:

- à noite, sempre, é quando mais magoa


Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

26.2.10

Diogo Cão às Portas do Zaire



Deste lado da história
o rio morre aqui.
Do mar sabemos nós e aos capitães
a fama da conquista.

Faço-me ao Sul
porque pertenço ao Norte
e a costa só me serve p'ra cumprir
tarefas de abandono.

Meu fim é circular, ir mais além.
Por isso eu sei de estrelas
direcções
e nada sei de fruto
que se projecta e espera.

Cumpro tarefas, sim, porque viajo.
Assim nasci
sabendo o que me aguarda após a descoberta.
Fronteiras
só conheço as do meu lar
e sei amá-lo, só,
noutras distâncias.

De Deus, empreendi que mora aqui no mar,
porque sou eu
quem lhe constrói a face.
Ao Rei e a Vós
apenas dou noticias do rumo horizontal.
Pois que sabeis da vertical sagueza?

Ruy Duarte de Carvalho
Angola

25.1.10

Eu Tenho os Dias Claros




para o António

Eu tenho os dias claros
de sucessivas luas de Setembro
e a noite que me impõe sinalizar
as direcções cruzadas das mensagens verticais.

Eu estou parado no meio do terreiro
pastado dos meus passos e da minha gente,
ando a ganhar noções de translação
e a medir, pra meu governo, a cor do sol.

Eu entardeço, sobretudo, pouco atento ao vento
que não devo perturbar na sua rota alheia.
Permito, quando muito, que me sinta o cheiro
e deixo-o desfazer, furtivamente, molhos já secos de memória
fêmea.

Eu finjo que não sei de elásticas tensões da claridade
e a cada passo meu faço estalar
membranas frias que a tarde debruou em rente azul.

Entendes, companheiro,
eu estou aqui sentado e nu
a procurar não ir além da bárbara carícia
de um olhar sem tacto

e que nem uma lágrima machuque
a capa muito fina da lembrança
que tenho para dar-te.

Ruy Duarte de Carvalho
Angola

17.5.09


O sul




O sol o sul o sal
As mãos de alguém ao sol
O sal do sul ao sol
O sol em mãos de sul
E mãos de sal ao sol

O sal do sul em mãos de sol
E mãos de sul ao sol
Um sol de sal ao sul
O sol ao sul
O sal ao sol
O sal o sol
E mãos de sul sem sol nem sal

Para quando enfim amor
No sul ao sol
Uma mão cheia de sal?

Ruy Duarte de Carvalho (poeta angolano)

A terra que te ofereço



1

Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão de minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.

2

Trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e refletida
na rápida torrente
que se mede em cor.

3

Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar de plasma
quente.

Ruy Duarte de Carvalho (poeta angolano)
Fala da rainha de regresso ao Kimbo



O capitão chegou
viu e venceu.
É a sua força
de matar-me os homens.
Minha porém, maior,
é a ciência
de entender os astros.
à mão que fere e mata
oponho uma colheita de segredos.
A terra é minha
e dela me entronizo.
às gerações delego
a reconquista.
O tempo que me serve
é de outra cor
e o sol decidirá
a cor do mando.
Irmãos ouvi-me bem
eu sou rainha.
Quem vos governa os corpos
saberá
das outras heranças
para que me guardo.

De que futuro pode haver temor
para quem tanto acumula de passado?


Ruy Duarte de Carvalho (poeta angolano)

14.5.09





Naquele ano a chuva foi excessiva e cresceram tortulhos
no olhos dos cães. Os vitelos, ao espreitar a luz pelos
sexos das mães, afogavam-se em lama, no meio dos
sambos. As paredes das casas diluíam-se em nata e os
oleiros desistiram de encomendar a sua obra a Deus.
Enormes cuidados foram inventados para proteger o fogo
nos altares e as crianças adoptaram a nudez.
As termiteiras deixaram de existir e as formigas aladas
perderam as asas. Os pés dos mais velhos fenderam-se em
chagas e as mamas das virgens, mal eram tocadas,
colavam-se aos dedos como cinza húmida. Os lábios dos
sexos das mulheres paridas inchavam carnudos de uma
carne branca e os ventres pendiam como fruta mole.
Naquele ano a chuva foi excessiva
e os horizontes deixaram de existir.

Choveu por muito tempo até os cães perderam todo o pêlo
e as cabeleiras se destacarem como algas podres. O rei do
Jau ficou colado ao trono e ao boi sagrado cresceram-lhe
os olhos, que depois cegaram. As sementes grelaram nos
celeiros e essa semente assim era servida aos homens e
daí lhes ocorreu um tal vigor que os seus pénis cresceram
desmedidos e os homens vacilaram, tendo-os nas mãos e
mudos de fascínio.

A chuva choveu tanto que as serpentes saíram dos
buracos e vieram alongar-se ao pé dos paus, mantendo
com esforço as cabeças erguidas. Nas terrinas do leite
vicejaram musgos e o leite das vacas alterou-se em soro, a
coalhar na urina. Naquele ano a chuva choveu tanto que
até nos areais cresceram talos e as enxurradas
produziram peixe e até o ferro se lavou sozinho e os
diamantes vieram rebolar nas pedras concavadas de moer
farinha. As próprias aves morreram quase todas e apenas
se salvaram as de penas brancas, que a distância atraiu,
depois comeu.
E aquela chuva aproveitou aos fósseis e houve minerais
que se animaram e até pedras comuns a transmudar-se em carne.

Naquele ano a chuva choveu tanto que a memória perdeu
todo o sentido. As gargantas entupiram-se de limos
e as testas que os velhos pousavam nas mãos fundiam-se aos dedos
e os braços às pernas e os gestos de graça fundiam os
corpos e as jovens crianças ficavam coladas ao peito das mães.
Só as bocas teimavam em manter-se abertas e quando
mais tarde a chuva parou, das bocas saíram grossas
aves negras que abalaram logo daquelas paragens. E a
seca voltou e o mundo secou. A carne antiga a dar-se
agora em terra, os fósseis em pedra e as ramas em húmus.
E os passos poliram pouco a pouco as formas.

Naquele ano a chuva choveu tanto
que a memória nunca mais teve sentido.

Ruy Duarte de Carvalho (poeta angolano)

6.7.08


Eu Tenho os Dias Claros

Eu tenho os dias claros
de sucessivas luas de Setembro
e a noite que me impõe sinalizar
as direcções cruzadas das mensagens verticais.

Eu estou parado no meio do terreiro
pastado dos meus passos e da minha gente,
ando a ganhar noções de translação
e a medir, pra meu governo, a cor do sol.

Eu entardeço, sobretudo, pouco atento ao vento
que não devo perturbar na sua rota alheia.
Permito, quando muito, que me sinta o cheiro
e deixo-o desfazer, furtivamente, molhos já secos de memória fêmea.

Eu finjo que não sei de elásticas tensões da claridade
e a cada passo meu faço estalar
membranas frias que a tarde debruou em rente azul.

Entendes, companheiro,
eu estou aqui sentado e nu
a procurar não ir além da bárbara carícia
de um olhar sem tacto

e que nem uma lágrima machuque
a capa muito fina da lembrança
que tenho para dar-te.


Ruy Duarte de Carvalho (poeta angolano)



5.7.08

Fala da Rainha para Bento Banha Cardoso


Antes do mais sou fêmea
e vós sabeis
que uma mulher dispõe
de outros recursos.
Para vosso desfavor
eu sou mulher
e rei
cabo de guerra
e negra.
Respondo pela voz de fêmea:
- aspiro a ver-vos rendido.
Respondo pela voz do povo:
- o povo quer-vos vencido.
Pela voz das tropas respondo:
- apraz-me ver-vos em fuga.
Respondo pela voz da raça:
- a raça quer-vos humilde.
A guerra é sem quartel
capitão-mor
e se eu morrer sem ver-vos
de abalada
hei-de parir quem cumpra
essa alegria.


Ruy Duarte de Carvalho
Angola

23.4.08

Venho de um Sul


Vim do leste
dimensionar a noite
em gestos largos
que inventei no sul
pastoreando mulolas e anharas
claras
como coxas recordadas em Maio.

Venho de um sul
medido claramente
em transparência de água fresca de amanhã.
De um tempo circular
liberto de estações.

De uma nação de corpos transumantes
confundidos
na cor da crosta acúlea
de um negro chão elaborado em brasa.

Ruy Duarte de Carvalho (poeta angolano)

15.4.08

Transmudação das águas


1

Não era
ainda
o tempo das manhãs lavadas
como noturnas cabeleiras negras
escorrentes e interiormente macias,
ou como o som de um galopar em chão de estrelas,
ou mesmo a cor
de um vinho novo contra o sol.

2

Era o mato,
a mata,
a cor lisa da pedras
e das ramas,
o espinho raso,
a sombra inacessível,
o bruto e agreste piso.

Era a acácia,
rara ampola de umidade verde
concentrando
o derramar espinhoso da temente sede
nivelada
na escura sucessão das copas baixas.
A interminável dimensão do Sul
e pó.

3

Era um mês de nuvens baixas,
volumosas e ocas,
um mês de madrugadas curtas,
já pesadas,
e manhãs de céu palpável,
cinzento e rente.

Era o mês do extremo esforço das ramagens,
das derradeiras hastes
quebradiças ao vento.

O mês das migrações
tardias e arrastadas.
Mês de tributo às águas:
o sacrifício imposto,
a seleção do débil,
do cedente,
do mais pungente olhar brilhante
encastoado na latente anhara
como brasa
derradeira e longa,
entre a cinza
de um ritual de obrigação cumprida.

Era um mês de charcos negros,
elaborados
em profundo rasto de noturna busca,
silêncio e espera.
O mês das derradeiras umidades.

4

Era Novembro,
um mês de cargas raras.
úmido ardor,
goma indecisa,
sobressalto de ar.
De atenção às nuvens e à direção do vento,
consulta às luas e à ligeira referência
de um alado brilho de inseto,
precursor
de um Novembro a derramar-se em suave chuva.

Porque Novembro
o mês difícil, é também
o da mais breve primavera.
Escasso deslize
da mão da tempestade.

5

É tímida porém
a consentida chuva
e apenas nos detém a desmedida sede que governa
o percutir dos corpos coletivos
sobre as pedras,
e as pedras nas vertentes,
e a inquieta direção de um gesto
na mineral lisura.

6

Novembro
não é mais do que uma
lua solta sem raiz no Leste,
sem poder para embeber a terra
e anular-lhe
a face empedernida e velha.

Mal se desloca a sombra
na paisagem
e as hastes permanecem vegetal grafia
a destacar-se
num céu aquém de encostas confundidas.

E nem anula o pó
do trote das manadas
à volta das cacimbas,
e nem os animais ainda aspiram
urgência de viagens.

A chuva de Novembro
traz a marca
da podridão latente
(o que escurece
o grão da perspectiva,
acama a derradeira espiga
preservada
e marca de impotência
o som redondo
que se projeta curto).

7

Cansa olhar
ondulações sem brilho.
A claridade crua
de um sol que se não vê.
A próxima matéria
de um céu sem altitude.

A contenção do gesto
e das funções.
O navegar a mais serena ausência de contorno,
o chão sem som,
a sombra sem azul,
o ar sem eco,
sem fibra,
sem chicote.

8

Depois,
a pouco e pouco
decanta-se o alvoroço
e muda, em nós,
a direção do vento
vespertino.
O cacto agradecido
espiga já
e amadurece a flor
mais reservada
e rara,
rubro espinho cravado
na teimosia opaca
do dorso de Dezembro.

A nitidez das serras
denuncia
o altear das brumas.
E os dias de Janeiro,
renovados de vigor continental,
sucedem-se cada vez mais jovens,
dando-se as mãos na noite seca
e percutindo nela
o brusco estralejar da lenha seca,
o gume-instante da labareda esguia.

9

E perdem-se animais
ao pôr do Sol,
e chegam cães de longe
a farejar a espera,
e os rebanhos unidos
são mais lentos
e alongam as mil patas
num caminhar dorido
e delicado.

As vozes simplificam-se
e as visitas
são mais longas, mais serenas, mais alheias.
A terra espera unida aos animais
e à gente e à obra: as mãos
as orações e a alegria.
Os corpos
surgem nus
e os pés descalços
e as mãos são magras
e dorme-se ao relento.
E o cheiro das manadas
monta a brisa
para polvilhar a noite
de um pó de ouro
em que faísque
o sol da madrugada.
E se arredonda, em gotas duradoiras,
o derradeiro orvalho da estação.

10

O ar rareia
e o gesto
não se mede;
os passos são de leve
e o pó mais fino;
os charcos são de pedra
e os trilhos rangem.
Perdem-se as asas
sem atingir o céu
e a lua tomba, em cada noite,
cheia, no regaço das vigílias.
E as estrelas são de brasa, são de vidro
ou diamante.

11

Porém se o tempo pára
as serras se avizinham
e o vento é leste e a manhã sonora;
se os homens se despedem das mulheres e abalam
sem destino,
os cães trotam e latem receosos
e os animais bravios
não se ocultam;
se o mar se ouve ao longe
e os comboios
nos vêm recordar
o cansaço desmedido das viagens,

12

talvez esteja prestes
a pureza
da lua fevereira e decisiva
e baste
um vegetal estalido de mucosa
para rebentar,
em águas,
toda a prenhez do céu
num gesto muito simples
de parto extemporâneo e fácil.

Um brando golpe a declarar
cumprido
o tempo
saturado
da combustão da espera
intemporal e aceite,
uma madura sapiência
de olhar líquido
vertido no horizonte
para embeber-lhe a sede.

13

Talvez até
(porque se arrasta
desmedida
a calma e aguarda
a lua negra e nova)
um ato de mistério
venha arder
na puríssima e última alvorada:

um estupro; um crime;
em ai de carne acesa, penetrada,
que vá verter-se
em bocas deslumbradas de crianças;
a morte de um profeta;
a entrega oferecida de uma fêmea menstruada
que esconda em si um útero de espinhos
e um destino de exílio.

14

Em verde estala então a estação crua
que desponta em branda nata
e se povoa
da coletiva sede transumante.

15

Caldeira ressequida
a terra aceita a chuva
que lhe dissolve incrustações remotas.
E em alternada projeção de luz
o céu descobre o sol
e lhe arremessa
o peso imenso de uma nuvem baixa
a vomitar-se em espasmos
de ensossa claridade fluida.

Horizontal e calma
a terra aceita a chuva
que lhe dissolve o cio
e lhe penetra
a natureza funda fecundável.
Transmuda-se a macheza do horizonte
e desabrocham lábios
de avidez passiva.
Ovulações guardadas,
animadas pela surpresa
de um reviver festivo,
breve se animam, jovens, resolutas,
para aninhar em si uma semente achada,
anônima aventura
de ansiada entrega.

16

Fazem-se os rios,
despontam os capins,
passam rebanhos
e cruzam-se recados de água achada.
Seguem-se o rasto de mensageiros
demandantes de outras pátrias para os seus gados.

Atingem-se murmúrios de manadas,
sofreguidão liberta a derramar-se em dambas.
Despertam-nos vagidos de recentes crias
paridas coma água pelos caminhos
e o seu olhar serve de espelho ao verde
de que se faz o leite a derramar-se
farto
na áspera ternura dos seus beiços.

Cortinas
de excitante e odoroso cio
tolhem a ,archa cega de corpos luzidios
para embeber pulmões e enrijecer
a quadratura sólida dos machos
donde escorre a nata
espessa, excedente
e nacarada,
que redime a espera ultrapassada.

17

E faz-se gorda a terra
e lhe estremece a carne-madre farta,
contente e abundante,
saciada,
bem parida e já refeita,
acarinhada.
Sobram quindas de mel pelas vertentes
E o peito escorre, generosos e alto.
Dorme a terra em verde e luz
imensurável mesa de um anual banquete
que festeja
a imanência fêmea e mãe
da natureza.

18

Que corajosa ação,
explosão, renúncia, desmedido voto,
haverá, ainda assim, para deter
a cósmica e divina translação
que oferece o dorso largo
ao renovar da sede?
Das luas em cadeia se liberta
a cáustica aspersão
que extingue o verde
extemporâneo e baço já.

À estepe cabe a capa de uma austera cor,
A míngua de água,
A face dada à brisa seca,
O caminhar de leve
Entre o quebrável.
O recordar das pistas
de outras águas,
de outras noites.

À estepe cabe a esfera do ruído
que antecede o tempo,
um deslizar vital,
um perigo que se instala nas montanhas
e desce alturas cavalgando o vento,
a extrema segurança da vontade,
a estrema insegurança da atenção,
a sólida aridez essencial,
a fácil madrugada navegável.

19

Porque o deserto é macho
e avaro do gesto
e se projeta em julho
triunfante
tangendo os seus rebanhos transumantes

Que vota ao céu
de novo couro seco
e à lua,
que detém as águas
e ao vento,
domador da anhara
e à noite setembrina,
propícia de loucura e de uma irreversível

votação ao sul.


Ruy Duarte de Carvalho
Angola