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5.2.10

Ó Angola meu berço do Infinito



Ó Angola meu berço do Infinito
meu rio da aurora
minha fonte do crepúsculo
Aprendi a angolar
pelas terras obedientes de Maquela
(onde nasci)
pelas árvores negras de Samba-Caju
pelos jardins perdidos de Ndalatandu
pelos cajueiros ardentes de Catete
pelos caminhos sinuosos de Sambizanga
pelos eucaliptos das Cacilhas
Angolei contigo nas sendas do incêndio
onde os teus filhos comeram balas
e
regurgitaram sangue torturado
onde os teus filhos transformaram a epiderme
em cinzas
onde das lágrimas de crianças crucificadas
nasceram raças de cantos de vitória
raças de perfumes de alegria
E hoje pelos ruídos das armas
que ainda não se calaram pergunto-me:
Eras tu que subias montanhas de exploração?
que a miséria aterrorizava?
que a ignorância acompanhava?
que inventariavas os mortos
nos campos e aldeias arruinados
hoje reconstituídos nos escombros?
A resposta está no meu olhar
e
nos meus braços cheios de sentidos

(Angola meu fragmento de esperança)
deixai-me beber nas minha mãos
a esperança dos teus passos
nos caminhos de amanhã
e
na sombra d'árvore esplendorosa.)


João Maimona (Angola)

29.1.10

A sentinela vinha



A sentinela vinha. Cruzava os pés à porta
do meu jardim.

A sentinela da porta
das portas do meu jardim vinha
à hora primitiva.

Chegava. Cuspia na minha relva.
Como para render homenagem
ao meu sangue. É tão fácil
fazer a retrospectiva!

A sentinela vinha. Cruzava os pés à porta
do meu jardim. Cuspia na minha relva.
Enumerava as portas do jardim.
Perdido em declamações que acabavam
à porta das portas do jardim
não recordava os seu filhos. Suas trevas.
Seus caminhos.

Era o seu poema. A porta das portas do jardim.

João Maimona (poeta angolano)

20.11.09

Arte poética



Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.

Cai areia na areia.

Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos.


João Maimona (poeta angolano)

10.2.09

Poema para Carlos
Drummond de Andrade



No meio do caminho tinha uma pedra.


C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.

João Maimona (poeta angolano)

6.2.09

A Nelson Mandela



(Descer os degraus da Humanidade. Ver o mar
escuro do fenómeno
errante do atrito de armas. Sentir com as palavras
presas nos lábios
o perfume da discriminação distribuído a preço
derrisório em Durban,
Pretória, Soweto...Olhar na propagação de sinais
sombrios o desenho
da desunião e de outras dores inspiradas que nos
vigiam enquanto
os homens degrau a degrau sobem o horizonte cruel.
E assim surgimos
na árvore do quotidiano, quotidiano vivo,
ingrediente da nossa tragédia.)


João Maimona (poeta angolano)

8.3.08

As Muralhas da Noite


A mão ia para as costas da madrugada.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.

Entre os dentes do mar acendiam-se braços.

Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.

Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.


João Maimona (poeta angolano)

21.2.08

Memória



Baloiçando nos escombros de teu itinerário
saberás que os gados constroem estradas.
E quando a mão deslizar pela margem
das cicatrizes que se afundam na noite
saberás que a tua mão viaja para a
colina dos dias sem escombros
e saberás que no berço da noite jaz a luz
drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.

João Maimona (poeta angolano)