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19.8.08

Venceremos



A última coisa que vi foi nada.
Logo a seguir às labaredas foi nada o que vi então
Com um grande silêncio espantíssimo por cima de nada
E um cheiro queimado de carne
Que vinha de dentro do peito para a boca.

Agora estou só nos ouvidos e na língua vagarosa
Eu que só pensava dentro dos olhos penso mal na língua
E o mundo inteiro é muito pouco agora
E tudo quanto está chegando aos meus ouvidos é pouco.

Não poderei fazer mais a mesma tarefa
Mas a Luta continua pois é independente de um homem só
E haverá outra tarefa para dois ouvidos e uma língua.
Venceremos.


Mutimati Barnabé João
Moçambique

11.8.08

Povo no mato


Entre Kaúle e Mapapaia vi um elefante abrindo o trilho
Mais depressa que a máquina de destronca
Este elefante estava no trilho da sua conveniência
Mas não estava na linha correcta da Frente de Libertação.

Quando o Povo mandar na sua terra
Vai haver Instrução Política para elefante abrir trilhos correctos
O Povo vai ensinar o elefante a utilizar esta força toda
O Povo vai aprender que o elefante não é só marfim e carne
E digo o elefante, a goma, o búfalo, a zebra, o leão mesmo
E digo o bicho pequeno, porco-espinho e rato e gafanhoto.
O Povo vai utilizar com a cabeça o animal bravo
De muitas maneiras diferentes e todas boas
E nenhuma para estragar mais, todas para pôr melhor.

Vai usar a boa armadilha antiga que não espanta a caça
Vai respeitar a cria e a fêmea cheia
Vai dizer ao animal bravo grande e pequeno:
Xô bicho camarada, vai para a fila da Produção com cabeça.

Há unia Verdade Simples aqui:
O animal bravo nasceu e vive nesta terra dele e nossa
O Homem do Campo não é bicho do mato. E Rural.
O Animal Bravo é Moçambicano. Respeito. Este é o Povo do Mato.


Mutimati Barnabé João
Moçambique

4.8.08

O Vento na Produção


O vento é de ninguém e não custa dinheiro
O vento tem muita força, tem direcção só, não tem cabeça
O vento está à espera da cabeça do Povo para pensar.

Com uma faca e um machado o Povo vai fazer já
Mil e mil e mil armadilhas no vento
Vai apanhar o vento todo e dar-lhe Instrução de Treino
Vai pôr o vento na Produção
Vai convencer o vento a fazer força útil
Não vai prender o vento para o matar fechado
Vai ensinar o vento na canção da Liberdade Vigilante.

O camarada pescador sabe do vento todo
Faz a sua pequena armadilha a todos os ventos
Com um pau prumo e outro deitado que anda à roda
E entre os dois põe a vela de pano de esteira ou plástico
Para apanhar o vento malandro naquela rede tapada.

O camarada camponês vai aprender esta lição
Vai arranjar uma mecânica de pau e machado
Vai pôr quatro paus andando à roda
Do pau prumo deitado de face ao vento.
Com quatro velas de quatro sacas para encher de vento
Vai levar o vento e fazer força em redondo
Vai levar a força redonda até ao pilão de pedra
Vai pôr a força redonda em força aos saltos iguais

Vai pôr os saltos na bomba de água, no gerador
Vai pôr o vento a girar no gera Alegria.

Vamos aprender do Vento e de todos.
Vamos pôr o Vento na Produção.


Mutimati Barnabé João
Moçambique

29.7.08

Operação da guerra de libertação


Esta árvore amiga é o inimigo
Destroncar esta árvore é uma operação contra o inimigo.

Escolhemos um inimigo, inimigo, à medida da nossa grandeza
Um inimigo do tamanho da nossa tarefa
Que vai dar muita chatice a cair, e táctica e estratégia
E vai servir derrubado melhor que em pé
Pois se que esta terra é boa para uma árvore tão alta
Há-de ser muito boa para dar machamba.

Vai ser ataque de serrote ou machada ou enxada na raiz?
Vai cair para o lado do vento?

Vai ser de cinto de fogo ou trotil mesmo?
Vai ser com as mãos fazendo força, camaradas?

Onde há uma árvore maior que a força do Povo?

Se vier o velho, a mulher, o menino, todos um e um e um
Riscar com a unha do dedo pequeno, lamber com a língua
Nove milhões de pequenas carícias e pouca força Esta árvore cai mesmo.
Por onde passa o Exército de Libertação
Fica um rasto verde e cheiroso e o caminho aberto
Para passar a Liberdade e o Futuro.
E fácil ver quem passou aqui.


Mutimati Barnabé João
Moçambique

22.7.08

Para sul


Na noite em que passámos o Rio Rovuma
Apontei para Sul com o nariz, com o coração, com os pés
Fiquei completamente orientado para Sul
Com esta terrível doença de febre da coragem
Que só nos deixa, camaradas, fugir para Sul.

Na noite em que passámos o Rio Rovuma
Fiquei completamente torcido para a frente
Com a minha vida como um trilho direito
Com esta terrível doença da alegria da garganta
Que só nos deixa, camaradas, cantar para Sul.

Na noite em que passámos o Rio Rovuma
O Sul estava sempre na minha frente teimoso
E como uma árvore de messassa que fosse andando
Senti o musgo e os bichos crescerem nas minhas costas
Podia vê-los crescer nas tuas costas camarada da frente
Também com esta terrível doença da impaciência nas costas
Que só nos deixa, camaradas, livres de ir para Sul
O nariz, o coração e os pés apontando.

Levo a arma atravessada na bandoleira e vou para Sul.
A Razão que nos leva para Sul, camaradas
E que é a nossa arma melhor engatilhada apontando
Para todos os lados ao mesmo tempo.


Mutimati Barnabé João
Moçambique

19.7.08

Vigilância



Este missionário está muito claro por dentro
Anda muito bem como um homem na mata
E tem um sorriso de quem está tudo perfeitamente
E chegou agora de estar no serviço de Jesus da Nazaré
Que é um sócio católico romano e compadre.
Está tudo perfeitamente claro fora deste missionário
Com sol ou com chuva ou com noite
Está tudo perfeitamente claro
Claro!

Só o que está um pouco na confusão
E este verniz raspado com o meu nome completo
Nesta carteira escolar da 4.a classe adiantada
E eu aqui incomodado com a arma entalada na porta
Não me lembrar de ter estado dentro da pessoa
Que escreveu o meu nome completo no verniz
Nem me lembrar de ter estado fora.

Há com certeza um pormenor que me subtraiu
E que explica haver tantos dentes neste missionário.
Vou sair no cuidado sem virar costas
Acho muito escuro nesta clareza
São muitos dentes todos na mesma pessoa.


Mutimati Barnabé João
Moçambique

27.2.08

Dia 7



No dia 7
Morreu uma camarada que vai ficar insepulta
Que vai tornar o ar perfumado e morreu
Que vai dar sempre flor de coragem e está morta
Que era da família nossa e ninguém vai chorar
Que os camaradas sabiam importante mas ela não
E vai ficar insepulta porque é um grande cadáver
E não há terra suficiente para cavar esta sepultura.

É assim mesmo
Quando alguém cresce até ao tamanho do Povo
Fica por enterrar porque é muito grande.
O Herói não tem sepultura.


Mutimati Barnabé João
Moçambique

17.1.08

Eu, o Povo


Eu, o Povo
Conheço a força da terra que rebenta a granada do grão
Fiz desta força um amigo fiel.

O vento sopra com força
A água corre com força
O fogo arde com força

Nos meus braços que vão crescer vou estender panos de vela
Para agarrar o vento e levar a força do vento à Produção.
As minhas mãos vão crescer até fazerem pás de roda
Para agarrar a força da água e pô-la na Produção.
Os meus pulmões vão crescer soprando na forja do coração
Para agarrar a força do fogo na Produção.

Eu, o Povo
Vou aprender a lutar do lado da Natureza
Vou ser camarada de armas dos quatro elementos.
A tática colonialista é deixar o Povo ao natural
Fazendo do Povo um inimigo da Natureza.

Eu, o Povo Moçambicano
Vou conhecer as minhas Grandes Forças todas.

Mutimati Barnabé João
Moçambique