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7.1.11

Os vivos ouvem poucamente



Os vivos ouvem poucamente. As plantas,
como o elemento aquático domina,
são dadas à conversa. A menor brisa abala
a urna de concórdia estremecida
que, assim, sensível, se derrama
e é solidão solícita.
Os vivos não ouvem nada.
Mas, havendo acedido a essa malícia
de experiência cândida,
os mortos deixam que o ouvido siga
o fluvial diálogo das plantas
umas com outras e todas com a brisa.
Melhor ainda. Quando, nas noites cálidas,
as plantas se sentem mais sozinhas,
os mortos brincam à imitação das águas
inventando palavras de consonâncias líquidas.
E esse amoroso cuidado de palavras
a urna de concórdia vegetal espevita
até que, a horas altas,
a noite, os mortos e as plantas
caiam no sono duma luz solícita.


Fernando Echevarría

21.2.10

Vénus

Venus and Cupid Art Print

Subleva-se no verbo uma brancura
onde sucumbem subtis
trampolins de alvaiade com que a espuma
se exalta na penumbra e nos quadris.

E impugna o púbis. O assusta quase
no aperto da sua tumidez
batida pelo mar feliz da frase
que se ergue do triunfo do que fez

com Vénus firme a resistir ao meio
da onda aonde se debate a trança.
E de onde o desafio do seu seio

emerge, enquanto o justo ritmo avança
na só brancura duma espuma escrita
que ambas instrui e que uma só visita.

Fernando Echevarria (1929)

1.2.10

Vendo as jovens

Rhumba in Red I Art Print

Madruga. E água vos desnuda alegres
por dentro dos espelhos. Repentinas
partis. E a superfície exerce
profundidade. E salpicais os dias

de movimento, súbito nem leve,
mas pura luz ao longo da retina.
E enquanto sobem músculos ou descem,
visível ave rítmica respira,

regressa, vai, ou cega. Tão verdade
que um fundo de água a apaga. E as esquinas
são anúncios antigos de cidade

pensando-se na noite, que dominas,
real como quem tem só idade
e, de repente, o azul é meio dia.

Fernando Echevarría

30.12.09

Se em Nós a Solidão Viver Sozinha



Se em nós a solidão viver sozinha,
sem que nada em nós próprios a perturbe,
cada figura passará rainha
na antiguidade súbita da urbe.

Um acento de pena irá na linha
vincar a eternidade de figura
a um rosto que quase só caminha
para dentro de o vermos pela pura

substância em si que vive a solidão
dentro de nós. E sendo nós só margem
do seu reino de ver por onde vão

as figuras passando na paisagem
de um antigo fulgor de coração
aonde passam desde sempre. E agem.

Fernando Echevarría (poeta timorense)


3.12.09

Natal



Com a esquadria da palavra, assento
o fogo e a lareira.
Depois reuno-vos à volta. Perto,
sobre a alvura da mesa,
escorrem do pão o pensamento
e uma luz espessa
que nos alargam as margens do silêncio,
para nos vermos com essa
alegria que nos torna atentos
até à vibração mais funda da tristeza.
Então, há uns lugares que a si mesmos
se abrem. Neles se sentam
os mortos que nos amam. E só os vemos
por estar à lareira,
que nos alarga as margens do silêncio
e prolonga confins à inteligência.
Por isso vos reuno. Vos escrevo
o fogo que aproxima a transparência.


Fernando Echevarria (poeta timorense)

19.11.09


Escrevemos Docemente


Iris Nine Patch Art Print by Don Li-Leger

Escrevemos docemente. Se a figura
sobe de estar tão funda a essa mesa
é que escrever se lembra. E só da altura
de se lembrar percorre a linha acesa

a ponta de escrever, que traça a pura
forma de rosto que abre na tristeza.
E a tristeza ilumina de escultura
penumbras de volumes com que pesa.

Por isso é docemente que da linha
de estar ali aonde sempre esteve
aparece figura de rainha

que sempre foi e agora só se escreve.
E escrevermos é como se na vinha
o sol se iluminasse. E fosse breve.

Fernando Echevarría (poeta timorense)



27.10.09

Estar Assim, Assente na Saudade
Bamboo Division Art Print by Don Li-Leger

Estar assim, assente na saudade,
com todo o peso repousando em si,
a prende à luz da sua antiguidade
parando na de aqui.

Concentra-se na sua densidade.
A tarde, à volta, ilustra no perfil
uma penumbra de profundidade
de onde o azul aviva a luz de Abril.

E a juventude adensa-se na tarde.
Agrava, ao lume duma paz antiga,
o modelado meditar. O ar de

estar ao centro de um amor que diga
quanto está perto da sua eternidade
este toque de luz na rapariga.

Fernando Echevarría (poeta timorense)

13.10.09



Que triste que era não ser triste nunca
Andar à chuva como deve andar
quem por ela se molha e nela estuda,
pensando dela o que pensado esta.

Ou passeando ao sol do mesmo modo.
Como se andar por ele andasse em si,
nem triste nem alegre, mas só como
ao sol a que anda e que se move ali.

Com, evidentemente, a consciência
de passar no relevo dessa imagem
como se passa pela indiferença

de se saber um ponto na paisagem.
E de saber que nunca houve tristeza,
nem ser triste foi triste, mas passagem.

Fernando Echavarria (poeta timorense)

16.9.09

Qualquer Coisa de Paz

Bryony Stretched Canvas Print by Daniel Phill

Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.

Fernando Echevarría (poeta timorense)




12.9.09




É doce envelhecer quando o que avança
e ir recrudescendo a inteligência.
Entra-lhe o mundo no vagar. Decanta
o seu volume inteiro de contenda.
Transporta-se. E entrega na palavra
a inteligível criação. Entrega
o desenvolvimento. O pulso. A trama
que ajustam sua refundacão aberta.
E a docura de se ir vendo alarga
o envelhecimento a quase ciência.
Uma ciência onde o enigma é alma.
E onde o mundo contunde. Insiste. E pesa.

Fernando Echavarria (poeta timorense)



17.8.09

Que Glória tão Completa

Luisia II Art Print by Judeen

Que glória tão completa não estar nunca
onde ela sobe da multidão. Que glória
é ordem alastrando da estrutura
pela massa de vir a ser a obra
até que ser em si tanto a institua
que ser em si seja uma luz à volta.
E, que glória, perder-nos pela funda
atenção à tarefa, quando a nossa
corporeidade apenumbra
estarmos destruindo alguma sombra.
Então o afinco da paciência a blusa
quase ilumina. E as horas,
na oficina do tempo, ampliam sua
ondeação de se ir perdendo a história.

Fernando Echevarría (poeta timorense)

2.8.09



Não é o que passa que nos faz estar tristes.
É amarmos que passe na tristeza,
tocado a luz interior que exige
cada vulto chegado a transparência.
Porque amarmos que passe é um limite.
A luz aí se eleva
em cada vulto. E assiste-se
ao apogeu de trânsito e inocência.
Cada qual se despede. E cada qual a triste.
Mas todos cumprem a rotação imensa
e, chegados ao apogeu, assistem.
Amam o lume abrupto da tristeza.

Fernando Echavarria (poeta timorense)

14.7.09


Quando é Grande o Poderio da Solidão


Palm Study II Art Print by Judeen

Quando é grande o poderio
da solidão, ao seu lado
estanca a aura exterior do brilho
que a fica aí preservando.
Às vezes, outra se avizinha. O sítio
da vizinhança contamina o espaço.
E uma como que luz que antecedesse o espírito
remove o vácuo,
de forma a ele se ir constituindo
espera de verbo. Âmbito
a iluminar-se recinto
aonde as solidões, aproximando-
-se a frequência aumentassem do alto poderio
e estancassem ao bordo granítico do canto.

Fernando Echevarría (poeta timorense)



Quando a melancolia for doce, é porque é grande.
Todos podem, então, entrar por ela.
E, ao mesmo tempo, irão por entre as árvores
com a estúrdia dos lenços nas clareiras,
sem que, por isso, se perturbe a grande
doçura. Que a tristeza
nem ja é triste. Está-se
movendo para onde somente grande seja.


Fernando Echavarria (poeta timorense)

27.6.09

A Velhice é um Vento

Palm Serenity II Art Print by Judeen

A velhice é um vento que nos toma
no seu halo feliz de ensombramento.
E em nós depõe do que se deu à obra
somente o modo de não sentir o tempo,
senão no ritmo interior de a sombra
passar à transparência do momento.
Mas um momento de que baniram horas
o hábito e o jeito de estar vendo
para muito mais longe. Para de onde a obra
surde. E a velhice nos ilumina o vento.

Fernando Echevarría (poeta timorense)

4.6.09


Pensar a história e ser pensado nela
sendo ela pensada noutra parte
com a nossa a, se possivel, vê-la
no nó especular de onde ela parte.

E, alem do nó, o azul rasga a janela
e nele se move, sem lugar, amar-te
sendo amado de ti, como uma estrela
no pensamento de que não se aparte.

Ou arruina-se a mágoa, a perspectiva
e o próprio azul por onde se mover
é amar-te numa história viva

que ainda nao soubemos escrever.
Porque escrevê-la a ensombra e a deriva
para a seguirmos como ja não é.


Fernando Echavarria (poeta timorense)

25.5.09

A Obra o Leva

Tuscadero I Art Print by Edwin Douglas

Depois de havê-lo feito, a obra o leva
pela tarefa maior
em que quase de si e dela se desprenda
para ampliar somente a solidão.
Mas uma solidão em que tropeça
a linha, às vezes, a descrever-se com
aquela claridade de paciência
que a leva além de onde jamais andou.
Oscila, treme, timbre de tristeza
o espaço à volta. E o sítio aonde for
será cidade surdida de uma mesa
que ele fez longínqua. E ela o coroou.

Fernando Echevarría (poeta timorense)

18.5.09


A Base e o Timbre


indonesia_bergerak.jpg image by audeemirza

Iluminar-se a análise
por trás de cada ponto da pupila
desembacia a base
de ver. E ver culmina
na ordem luminosa por onde as mãos se fazem
inteligência que desliza
e arde quase
no material que surge análise
da ciência divina.

Benzo-me em nome da melancolia,
ciência teológica que funda
sermos a história reflectida
de não haver nenhuma,
senão a de um espelho que ilumina
os pensamentos da sua face pura
e onde sermos pensados nos inclina
a ver história onde só há leitura
do esquecimento e da melancolia,
ciências da lógica absoluta.


Fernando Echevarría (poeta timorense)

14.5.09

Sobre as Horas



Ver-te dourava
o corpo da pupila.
A sombra. E as estátuas
por onde ver-te vinha
animal. E parava
redondo na retina.

O grande movimento era-nos sempre
margem de olhar um rio.
Ia-se-nos perdendo
ver algum navio
entrar nas águas de tê-lo
alguma vez ouvido.
Ou, se quiserem, havia o movimento.
E, à volta dele, o rio
estava perto de sermos
lugar. Ponto de frio
de onde os amantes sempre
partiram esquecidos.

Fernando Echevarría (poeta timorense)

10.5.09

O silêncio



O silêncio arredonda-se em domingo,
E, dentro dele, um arrepio alarga
sua prévia suspeita de recinto

Fernando Echevarría (poeta timorense)