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29.12.10

Não posso dizer adeus

Ao poeta Armando Artur.

Todas as manhãs invento um novo motivo
para permanecer, enquanto lá fora
cruéis as aves me ensinam a partir.
Não posso dizer adeus. Aqui as noites
são menos gélidas, e as madrugadas, cálidas
embalam o meu medo de me aventurar.

Não posso dizer adeus. Nunca ninguém
me ensinou o seu real sentido, mas se este
é realmente o teu desejo, eu irei, sem no entanto,
provar a dor da despida, pois não posso dizer adeus.
O olhar, volvendo compungido, atrás,
meu porto de partida e chegada jaz, fulmina-se
também o calor da primeira habitação.

Em meu peito, tudo está gasto, menos o silencio.
Enfio a mão na algibeira do casaco, e já não
encontro tudo aquilo que outrora tínhamos
um para o outro.

Eusébio Sanjane

27.11.10

Os teus olhos infinitos



Hoje roubei todas as estrelas do céu
e quando pensei em colá-las nos teus olhos
faltava-me ainda o universo todo...

Eusébio Sanjane
Moçambique

13.11.10

A nossa (in)consciência



Vejo a madrugada resvalando-se
num abismo de tenebrosa cólera, fértil
o olhar da prostituta sufoca o grito
do recém-nascido, transformando-o num coágulo de sangue que
fenece pelos esgotos ignotos
das ruas da nossa consciência...
Se a nossa consciência
não fosse esta exímia parturiente da maldade,
que sentido faria a benevolência?

Eusébio Sanjane

28.10.10

O teu riso


Antes a morte,
que perder o instante em que sorris.

Não me negues
o milagre que inventas,
a rosa que de súbito
brota da tua alegria.

Regresso por vezes com as mãos
vazias, o corpo dormente,
o sol já não morre, o mar
já não preenche infinitos caminhos,
mas logo tu sorris,
e tudo regressa a sua mansa ordem,
o mar que secara,
ressurge dos teus lábios,
o tempo que me atravessava como
um espada afiada, é agora
o meu único refugio.

O teu riso, meu pão,
sustenta os caminhos há muito estancados
que me guiavam ao teu colo... Escuta,
o rio, as algas, o vento,
que eu escutei um murmúrio
e entendi o teu riso,
essa porta que para mim
se abre.

Eusébio Sanjane

28.9.10

E eu partirei



E eu partirei.
No caminho o sabor de nós dois
se extinguira, as mãos, iniciadas na arte de submergir
por entre extensas planícies azuis, irão
quedar deflagradas em mil e um pedaços.
A dor intensa,
a lágrima espinhosa,
o rosto que se afasta,
o peito que mingua...sou eu!
E eu partirei,
levando comigo somente os resquícios
dos beijos havidos,
das manhãs todas que a sede transformou-te, assim como se transformaram esses rios de caminhos incertos
e que seguem a eterna busca do infinito mar.
O silencio inquietante,
o vazio profundo,
a voz que de longe
desperta a tua atenção...sou eu!
E eu partirei, mesmo que me falte o corpo, mesmo que não me bastem os passos, pois sei que em algum lugar, em algum momento, lá estarás tu, esperando por mim, e sorrindo dirás: — Já estava cansada de te esperar!
E nesse instante,
um sorriso em pérola,
uma lágrima em flecha,
uma flor apenas,
será bastante para te mostrar a minha felicidade.

Eusébio Sanjane

2.9.10

Um lugar no meu coração


1. Choras...
Por vezes até morres,
e afundas em teu fosso de orgulhosa cólera,
até que nada te reste, senão, um instante,
um só, em que amaste sem medo, que te entregaste
sem corpo, sem alma, que foste mulher.

2.Nas noites frias e duras,
o traço forte da loucura irrompe
pela vidraça das tuas janelas,
embaçadas, sujas, e ofusca o brilho
de tudo, e até mesmo o teu, e permaneces
assim, no teu fosso de silêncio, silenciada...

3.E ai, eu também choro,
que amar é partilhar,
E ai, eu também sofro,
que amar é esperar,

4.Sei somente, que um dia,
teus olhos despertarão, coloridos,
e acredite, meu amor, não haverá
uma manhã sequer, que negra
não assuma o teu esplendor,
uma manhã em que não sorrias,
é isto que eu te ofereço:
— Um lugar no meu coração!

Eusébio Sanjane

23.8.10

Há um homem



1.Há um homem em cada
noite, que se multiplica em suadas mãos
para esmerar um corpo amado.


2.Há um homem
que se dissolve em suspiros
e queda fatigado nos teus braços
a cada noite, mulher!


3. E no oficio árduo das madrugadas
nasce um homem, um homem novo,
um homem de mil e uma auroras
assim como se plagiasse o resplandecer
dos teus olhos, mulher,
para cravar os astros de prazer.


4. Há um homem, mulher,
um homem que sou,
um homem que nasço,
somente quando te amo.

Eusébio Sanjane

14.7.10

Amor


Quero sonhar-te
no vazio da esperança

Quero amar-te
na dor da tua ausência

Quero escrever-te
no vagar do tempo

Quero perpetuar
A luz que transcende de teu olhar.


Eusébio Sanjane
Moçambique

12.7.10

O nosso sonho, irmãos




O nosso sonho
cresce fértil nas vísceras da terra
e é nosso o suor que o alimenta.

Eusébio Sanjane

13.6.10

Tão longe o esquecimento, tão perto a lembrança


Partiste e,
somente eu sei,
tudo que te dei
e tudo aquilo que não recebi.

Partiste e,
o que encontras nesses caminhos
feitos de espinhos onde te magoas?
Sangue, charcos, ou algas?
O que sentes, alegria, felicidade,
ou somente dor? Vá diga-me!

As noites aqui
são cada vez mais duras
mas não temas, esquiva-te das minhas lágrimas,
não te firas com a minha dor, que seria inútil.

Eusébio Sanjane

27.5.10

Índicos caminhos



Quero me afogar por estes caminhos em que morrem as flores de cada luar.

Quero recriar as raízes de cada noite e entender como morre o sol na boca dos peixes...

Deixa-me entender os segredos que suavemente o vento revela aos pinheiros,

Provar da curiosidade da terra que despe as rosas dos seus vestidos vermelhos, ou mesmo das suas folhas que pairam no ar como verdes aves de esperança.

( Digam-me quem amputou o sexo das rochas, que já não gemem, quando as cálidas mãos da tarde as afagam.)
Quem silenciou o cantar dos búzios,
que embalavam as revoltas ondas do mar?

Eusébio Sanjane
Moçambique

7.5.10

A liturgia dos insanos


1. Por aqui somos de carne e sal,
ou mesmo, de sol nascente,
longe do estéril turbilhão da rua.

2.As palavras que nos revelam,
são de luz pura e de encantamento,
e mais ainda, o delírio incessante
que nos confessa o tépido bafejo da aurora.

Eusébio Sanjane

28.3.10

Não há lua no céu



1.Letárgico o rio deflui
silencioso dentro de uma noite afável,
E vagando pelo cosmo
vai tecendo estrelas-marinhas
pelas dóceis nuvens, que são também
de agua imaculada, e resguardam as profunduras
da tranquilidade, que somente os anjos desfrutam.

2.Pela janela quebrada
do meu quarto, vislumbro
o plenilúnio romper, e quedar
ensombrando a monocromática paisagem
de arvoredos tímidos, e de cores fugidas.

3.Nas calçadas frias, os dedos pedintes
dos meninos reluzem, trepidantes
remendam sonhos havidos, de um áureo
alvorecer.

Eusébio Sanjane

6.12.09

Para Leinecy




E no dorso das manhãs, revela-se nua a tua face.
Pelas frestas entorna-se a claridade, para as tuas
mãos mestiças, e assim, silenciosamente, mulher,
esculpis em minha pupila encardida, os sabores morenos,
de dias azuis, que ainda hão-de vir...

E por momentos, somos a doçura, o fruto,
Ou ainda, o tão esmerado sonho...

E por momentos, conseguimos preencher todas as coisas
E todas as coisas são belas, quando nos amamos.

Eusébio Sanjane
Moçambique

16.7.09

???Dúvidas I???




1. De quem é a arma que embala o medo da criança órfã que vagueia pelas ruas frias do nosso remorso?

2. Por que há tantos atalhos para a tristeza
e tão poucos caminhos para a felicidade?

3. Por que se mede o mundo
mas não as tristezas?

4. Como conseguiram os homens
descobrir o abismo da maldade,
e desconhecem a escadaria da bondade?

5. Por que não extraem o ouro do sol os homens?

6. Quantas bíblias há no céu?

7. Por que os grandes aviões não fazem ninhos? E quem já os viu ensinarem os seus filhos a voar?

8. É verdade que a dor se deve regar com lágrimas para a felicidade florir?

9. Como entenderão a minha poesia aqueles que jamais sentirão o meu sangue?

10. Se Deus está em todos os cantos por que olham para o céu os homens?

11. Se quando morremos vamos ao paraíso por que preferimos antes o inferno?

12. O que dizem sobre a morte os abutres?


Eusébio Sanjane
Moçambique

6.4.09

A tua ausência





Em teu olhar aprendi a sonhar
Em teu corpo aprendi a amar
Nas tuas lágrimas aprendi a chorar
Em teus lábios aprendi a falar
Em teus passos aprendi a andar


Foste mãe, amiga e namorada...
Foste sonho, alegria e esperança...
Foste tudo para mim... que me esqueci de ser teu
E foi assim que o nosso sonho morreu
Como o sol se rendendo ao mar.

Ensinaste-me a viver
Ensinaste-me a idolatrar-te... Rainha!
Mais jamais ensinas-te a esquecer-te
E muito menos a perder-te.

E agora sonho que me amas
Choro a tua ausência
Dedilho em ritmo de desespero
A tua presença
Canto, grito, falo...
Mas nada trará a alegria de teu sorriso
E ninguém saberá pintar o sol como tu!


Eusébio Sanjane
Moçambique

6.2.09

Pétala de sangue




Se houvessem palavras...
se palavras tivesse eu,
meu amor...


Para falar-te sobre esta dor,
dor esta que o coração se rende
e a alma se vende...
escreveria na lonjura da tristeza
a beleza deste ser
que me tem cativo
ser este que me faz vivo...


Eusébio Sanjane
Moçambique