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15.10.11

Como são belos


Como são belos os teus seios!
Foram feitos
à medida das minhas mãos.
Pousa-os
na minha boca e conta-me
a tua história.
Não tens história?
Não tens noite nem vazio nem praia
branca?
Fala-me então
do sol, da migração dos pássaros, da mansidão
das estrelas - fala-me de ti antes de possuíres
um nome, uma história.
Sim
em qualquer parte
lançaremos os nossos corpos na relva;
alfaias efémeras; armas exíguas
ardidas na guerra.
Como são belos os teus seios!
Trémulas palavras.
Deixa que neles eu me queime como quem
se deita num rio.
Sinto a terra mover-se.
Iluminas as águas e as estrelas.
O percurso é longo.
O silêncio montanhoso.
Debruço-me
na tua solidão.


Casimiro de Brito

15.9.11

Adormecer assim


Adormecer
assim: inclinado
sobre um rio
em repouso.
A mão esquerda
caída em palma
no crânio; a boca
no ombro no aroma
da pele; o joelho
e a mão direita
na coxa no canteiro ainda
molhado. Acordar assim: ouvir
o breve adágio do corpo amado
a respiração pouco a pouco mais tumultuosa
sob os lençóis subitamente visitados
pelo sol da manhã.


Casimiro de Brito

15.8.11

Amor e alma



O amor também se faz com a alma,
almas encostadas uma à outra,
com os seus aneis erógenos,
a sua aflição,
o seu desassossego.

Casimiro de Brito

2.7.11

Deitado na areia



Horas e horas deitado na areia caído
Na praia
Ou por algum braço arremasado. Pouco a pouco
Deixei de sentir os grãos finíssimos
Colarem-se-me à pele. Deixei de ver
O céu que meus olhos olhavam.
As primeiras ondas que me tocaram os pés
Ainda as senti − bocas minúsculas
Bebendo meu sangue silencioso.
Mas as segundas já não eram frias nem quentes já não
Eram
Suaves nem ríspidas já não possuíam
Lábios nem dentes. E nada sei
Das seguintes como nada já sabia
Da areia nem do sal nem dos bichos que passavam
Por cima do meu corpo depois de terem passado
Pelo corpo da areia.
Durante algum tempo durante a rigorosa eternidade
De um momento
Foi como se eu fosse também areia mar e sol
E talvez eu tenha sido
Areia sol e mar. O resto
É vento.


Casimiro de Brito

12.1.11

63


Ontem caminhei
Nos campos de chuva; hoje
chove dentro de mim.


Casimiro de Brito

15.9.10

Voo


Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.


Casimiro de Brito

28.3.10

Noite por Ti Despida



Adulta é a noite onde cresce
o teu corpo azul. A claridade
que se dá em troca dos meus ombros
cansados. Reflexos
coloridos. Amei
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada
sem fim. Canto apenas (enquanto os álamos
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite
por ti despida. Lume e perfume
do sol. Íntimo rumor do mundo.

Casimiro de Brito

15.12.09

Carícias


Acaricio-te a barriga a suave ondulação
do dorso a fina cintura
onde o barro montanhoso das nádegas
nasce. Beijo-te nos vales mais íntimos
e nos rios - és a mãe carnívora
que vai morrer que se vai derramar
na terra toda.


Casimiro de Brito

4.12.09

Natal



As emissoras difundiram
a mensagem de Natal
do Presidente da Cruelândia:
“Inventamos um novo míssil
capaz de destruir
em pleno silêncio
o ventre da mais pequena
semente da terra”.

As sementes no entanto prosseguem
em seu ofício
de liberdade. Indiferentes
aos mecanismos
da usura e da guerra. Operários
da paz
no centro da terra.


Casimiro de Brito

15.11.09

Chamas



Paraíso é quando não sentimos o corpo.
Quando nos esquecemos.
Ou quando o sentimos com tal intensidade
que estamos mergulhados na chama,
que parece eterna.


Casimiro de Brito

26.9.08

Quantas vezes...



Quantas vezes caminhei pela praia
à espera que viesses. Luas
inteiras. Praias de cinza invadidas
pelo vento. Quantas estações quantas noites
indormidas. Embranqueceram-me
os cabelos. E só hoje
quando exausto me deitei em mim
reparei
que sempre estiveste a meu lado. Na cal frágil
dos meus ossos. Nas hastes do mar
infiltradas no sangue. Na película
dos meus olhos quase cegos.

Casimiro de Brito


4.9.08


A Paz


hostingpics.net

Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?

Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: O que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
ao centro do coração?

Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cima. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te: o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?

Casimiro de Brito

13.8.08

Os signos da caça

hostingpics.net

«Fraqueza da humana sorte:

Que quanto da vida passa
Está recitando a morte!»
CAMÕES



Em Portugal nascido católico me quiseram, ad
Vitam aeternam, com duas gotas de sal e algumas
Moedas. Português porém não sou nem pátria nem
Deuses além do corpo e da língua onde agora me
Concentro tenho. Antes de mim outros o disseram.

Embora português me descrevam papéis oficiais
Como se rugas severas e velhas cicatrizes de família
Me tivessem transformado em surdas informações
Estatísticas. Português & católico (em minha semi-
Obscuridade) não fui nem sou. Nem essas nem outras

Mutilações incrustadas no tempo que faz de mim
Um cadáver mas onde uma fenda subitamente se
Abre! Húmida fissura entre o meu corpo
E o vosso de cidades desmoronadas. Resposta porém
Não sei para nada. Os mitos da pátria

Renego. E deuses. E amigos e tábuas de lei
Se com pátrias e deuses me limitam ou com outras
Filomitias me limitam o corpo, incêndio reconstruído
À sombra dos ossos. Pátria (se pátria ouso
A meus sinais de som chamar) é este canto devastado,

Esta carnívora linguagem por acaso portuguesa
Em que me lavro e gasto e mato – são estes
Pobres e poucos movimentos derramados
Na pedra do sangue; a memória dos mortos, grandes
E pequenos; a febre e o chão macerado

Do meu país de míldio e alcatruzes; e mais a indústria
Do ódio e do ócio – mas também a filha em seu sono
Deitada; e águas distantes, cerimónias de Eros,
Onde me distendo e uma certa vertigem luminosa
Invento. Como se à morte a vida eu pudesse vender

Tropeço em palavras alucinadas, ar espesso através
Da noite mais canina. Neste pulsar de ruínas
Acumulam-se as cinzas do meu retrato: sangue transfigurado
E sem ogiva! Ávidos dedos, ávida vida que não sabe
De símbolos definitivos, obras de magia

Onde se inscreva o tempo, a morte administrada
Por máquinas incompreensíveis, surdas, subcutâneas
Como ter nascido aqui, praias de Portugal, e não
Onde canto a cal dos ventos, o vazio e o mais seco
Sal. Que dizer porém da luz cicatrizada

Em árvores de cimento? As origens da morte lusitana
Canto: as origens do corpo em seu exercício de salto
Para um sol mais alto. Esse é o lavrar tão débil
Que te mata! Com palavras entaladas na garganta
Canto a morte que me lavra, e nem morte se chama.

Casimiro de Brito



3.7.08

Hebergeur d'images

Branco no branco, cantou
Bashô. Despes o vestido,
dispo o teu corpo.
A tua sombra na parede
branca. Sorris.
Apagas a luz.
Sabes que a tela da tua pele
me vai iluminar.
Debruças-te no meu peito:
sabes que o teu hálito me vai
acender. Branco
no branco.
Derramados
um no outro. Quem é luz?
Quem é sombra?
A cotovia
começa a cantar.

Casimiro de Brito

2.2.08



Sentado no Outono desta praia quase deserta

vou contando os grãos de areia
em volta, e tudo são grãos
de areia onde se inscreve
uma lava
cada vez mais fria. As mãos
na terra, o pensamento nas nuvens
que derivam
ao sabor do vento. Cada vez mais frio.
O mesmo que agita
os meus cabelos brancos.

Casimiro de Brito