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10.12.10

Édipo recuperando a visão



Não me escutes.
Eu passo através das salas como uma noite violenta.
Atravesso e não sou senão essa noite peremptória,
que bate nos claustros inebriados,
onde tu procuras escutar-me.


Onde digo noite, digo a inesperada
muralha materna. E digo: somos
o eco de vozes mais simples.
Que um fruto é cego para dentro,
e toda a terra está ameaçada
pela cauda de um cometa.

Não me escutes.
Este é um labor devastado pelo frio,
vontade de um gesto esplêndido
para erguer cada coisa dentro de si mesma.
Surpreender o outro a meio da sua morte
e tocar-lhe as pálpebras, os lábios,
as mãos silenciosas.

Tantas vezes regresso para contemplar
a ressurreição nos campos.
Então a casa é como uma tocha enraizada,
um ser exemplar que domina o horizonte
e no corpo quebra a difusão da luz, gerando
sombras inacessíveis, nomes que se entregam
devagar a crianças vivas e súbitas.
O tempo exaltado das crianças.

Se alguém dorme, é porque se perdeu
no labirinto da sua própria força.~
Lá fora, os frutos tombam e cedem.
O sono expande-se como uma imagem
inquietante, infiltrando-se no segredo das sementes.
Sementes atingidas pelo relâmpago,
metidas e água fria e memória: estalam.
São nervos que estalam.
Não me escutes.

Um crime lento, pedras transidas debaixo da fala.

Quando alguém dorme, o seu nome é tomado de assalto.
E os seus pulsos rebentam de lado, e a boca
enche-se de uma pura intenção de palavras,
e cria as palavras,e cria celurarmente o próprio corpo
num furor gramatical, um imenso texto orgânico.
Quando alguém dorme, lê-se em absoluto silêncio.
Quando alguém dorme, o seu verdadeiro nome
é-lhe restituído.

A terra cresce sobre a paisagem.
Os frutos operam a sua loucura, levantam a terra.
Levantam a falésia central, a lâmina invisível.
Os claustros respiram a cauda de fogo do cometa.
Eu vejo-te, ao fundo das salas atravessadas vejo-te,
e deslumbro-te com a noite entoada,
e surpreendo-te a meio da tua morte

- e amo com os dedos o silêncio em que estás.


Vasco Gato

6.12.10

Se alguém disser


se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas do sangue.

Vasco Gato

26.8.09

Búzio


sei que nunca viste o oceano,
sei que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte.
mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.
por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.


Vasco Gato