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11.1.09

Poema



Comprei o caminho por dois vinténs

(ai do homem chope
que compra caminho sem poder voltar)

No Rand as minas são escuras
densas de amargura

Os relâmpagos são chicotadas

Os desabamentos trovoadas

Têm um sugadouro de energia
um processo infalível de roubar a juventude

(ai do homem chope
que parte a caminho
sem direito a voltar)

Cada dia que corre alonga o regresso
cada mshao que chora é uma ferida que sangra sem estancar
e cada vez que pensa em escapar é uma semana na galeria sem sol

(ai do homem chope
que parte a caminho
e sabe que não vai voltar)

Fernando Ganhão
Moçambique

1.2.08

Poema




O comboio que vem com as lúcidas nortadas
corta o veludo negro do cacimbo
e os homens nos wagons sabem a sangue
despertam as moscas de seu longo Inverno.

Os homens nos wagons
com a saudade errada de um sabor que paira
um sabor de canho e mágoa

O comboio que vem com as nortadas
derrama na savana
o leite azedo
o leite espesso
o leite antigo de uma saudade de homens nos wagons

A saudade dos homens nos wagons
é cólera, revolta e dor.

O comboio que volta durante as nortadas
fere o cacimbo da savana
com o gemido dos homens nos wagons.

Fernando Ganhão
Moçambique