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2.3.09

Flamingo

FLAMINGO

O pescoço dobrou-se sobre
o corpo róseo

uma pata encolhida descansa noutra
transformada em estaca

o flamingo adormece em si o horizonte
como flor espetada no pântano


Júlio Carrilho
Moçambique

4.1.09

Estranha Forma



Estranha forma de engolir subúrbios
de dar sobranceria à urbe nobre
não só com cal não só com traça forte
para afastar o olhar do bairro pobre

As gentes simples que fazem lembranças
que as fundem finas as tecem em prata
pintaram seus sorrisos de brancura
cercando-se de beijos de mulata

Se ateiam lares no fundo rochoso
regados de suor antepassado
na superfície incerta da pedreira
impera o tufo pelo maticado

É este o Sul que eu abro nos meus livros
nas ilhas ou nas terras adornadas
que teimam em subir com o mar desperto
e garrir-se de cor e gargalhadas


Júlio Carrilho
Moçambique


9.12.08

não chove

Ilha Surrounds-Lumbo I


Não chove há muitos dias.
Meus límpidos caminhos de água recuaram
por entre as ramagens verdes da baixa-mar.
Mas os poços ainda estão cheios
de preguiça e espelhos de água velha.
É esta magia subterrânea que nos alimenta.

Nas ancas coleantes das virgens
não se alegra a lua pardacenta.
Salpicada de sarro e salitre,
a igreja
ganhou musgo suave a desenhá-la.
Está tão pequena
como o sacristão que eu teatrava
a subir os degraus rangentes da torre sineira
altiva e triunfante
por sobre o zinco e a telha
desafiando com o seu vermelho
o verde carregado de uma específica amendoeira.
A pedra talhada da vida arrepiou-se,
desmontando-se sorrateira e acactona-se
para lá do cemitério.
Arrependida.
As encostas douradas do areal
esboroam-se no toque da maré.
Outra nova maré de entusiasmo já caiu.
Como mancha loura num tapete negro.


Júlio Carrilho
Moçambique

2.12.08

Porta de água

Abandono

Quarenta e tal quilómetros quadrados
de modorras viradas para a praia
escoam dos solares escancarados
a deixar os mortos a olhar
luzentes cristas de água de cambraia

Não sei ainda se isto é alegria
deixada até ao estoiro da miséria
mas a calma tecida dia-a-dia
tem o vagar da pressa que se quer
no endógeno assumir-se de matéria

Ah porta minha que me deste as águas
para buscar as faces da verdade
hoje descontraída em tuas mágoas:
não tens a quem explicar o teu saber
que a nudez distorce sem maldade.

Teremos que esperar que se decante
no teu líquido palco o som dos remos
se afinem silhuetas de ar cortante
para depois por ruas sem licença
abrirmos planos que só nós podemos

Júlio Carrilho
Moçambique


24.11.08

Casquinha


Ilha de Bazaruto


Um vulto emerso na casquinha
tem asas de pau a equilibrar o tronco
como cintura numa dança de água
vasado tronco de árvore a nadar
Se um sobressalto de ar lhe enfuna o
pensamento
a concha de tecido apressa-o
na onda a respigar

Júlio Carrilho
Moçambique

9.11.08

Respigos

Ilha de Moçambique, praia


Descidos os degraus da fantasia
de lá dos píncaros do dirigir
olhar distante a desbravar os sonhos
um vale de pudores a desfingir

de cada patamar os grãos de mágoa
escoam a estender-se num remanso
uma praia de pedras a marcar
saber de experiência em que descanso

esse descanso vai valer coragem
gelar temores conservar a calma
nos nervos a boiar em mil mensagens

Há ironias no amansar da alma:
o embarcar na cor d'outra miragem
o fresco ressoar de velhas palmas

O caos que variou a nossa margem
e abriu-a em curvas para o mar ingente
trouxe-nos mil abraços e chantagem
e cacos de vidro na areia ardente

São tantas enseadas que interagem
tão funda a introspecção e o olhar dolente
que a guerra quando se abre na paisagem
capricha no ferir que se consente
É neste variar de realidades
no calar de desgostos e verdades
que a gente amadurece o seu olhar

E no saber mestiço de vontades
os ódios se travestem de irmandade
e as armas se transferem p'ro bazar

Há uma nave de ontem encalhada
no recife da nossa independência
retém-se na saudade decantada
que a História apressa com impaciência

As pedras enegrecem na toada
que o vento lança com sua incidência
um riquexó prostrado na calçada
esvai-se na tortura da abstinência

Nos ares moles do amplo amanhecer
nas paredes de ócios a escorrer
jamais ressoam mandos de alvorada

Há muita cerimónia por fazer
nos quartos sombrios do entardecer
para tirar do encalhe a nau cambada
Adormecido nos blocos das ameias
que denteiam a linha do horizonte
o tempo espera erguer-se um novo trono
que a era dos odores de desdém
nas raízes de uma imensa mangueira
se retêm

Ninguém sonda o horizonte
ninguém meneia a cabeça
porque o transe é um ficar
ficar de costas para a terra
a repetir o mar
todas as noites
as manhãs inteiras
As pedras olham-nos
nas brisas a varrer detritos
com uma música a elas me ligando
com elas me deixando em harmonia
A parada dos dias só nos vem
da terra
numa vela a varar o fosso azul:
guarda-a um cântico com braços leves
deste novo ócio a desenhar
labirintos de gente acantonada
a Sul

Estranha forma de engolir subúrbios
de dar sobranceria à urbe nobre
não só com cal não só com traça forte
para afastar o olhar do bairro pobre

As gentes simples que fazem lembranças
que as fundem finas as tecem em prata
pintaram seus sorrisos de brancura
cercando-se de beijos de mulata

Se ateiam lares no fundo rochoso
regados de suor antepassado
na superfície incerta de pedreira
impera o tufo pelo maticado

É este o Sul que eu abro nos meus livros
nas ilhas ou nas terras adornadas
que teimam em subir com o mar desperto
e garrir-se de cor e gargalhadas

Dói sempre a indiferença
Face ao pedido de palavra
Das ruínas.
Mas doíam também as diferenças
Com que elas dividiam
Nossas sinas


Júlio Carrilho
Moçambique

3.10.08

Maré vazante

Ilha - Gentes e costumes XXXI

Só a tensão feminina sabe avaliar
os gostos que se guardam na maré vazante
nos trilhos invisíveis
pontuando o manto multicolorido de algas
tatuando areias.

Não há temores à espreita
nem monstros que se atrevam
a impedir o brilho das cipreias.
É o maravilhoso a desvendar-se
no afastar das águas;
O pátio de recreio devolvido
alarga-se pelo areal da praia
tanto quanto diminui o marulhar das ondas
contra o paredão desarrumado
a resguardar as aulas.
Papagueantes

Os meninos recitam "a Clarinha e as pombas"
com um pesado silêncio de palmatória
em fundo.


Júlio Carrilho
Moçambique

24.9.08

Amas e amos


Ilha - Gentes e costumes XIX


Babos, Amas, Muénhes, Nunos
dão-nos o destino à inocência
para que os muros altos nos desvendem
seus quintais ilhados
e sejam limpas e lisas
as varandas da nossa adolescência


Júlio Carrilho
Moçambique

14.8.08

Sexo


Ilha - Gentes e costumes XXXXIX

Da tarde que se apressa
emerge o sexo
cantando exótico ao luar sincero
um apelo irresistível apregoa
molhes de juventude
aonde qualquer idade desembarca
com palavras curvas
com esmero


Júlio Carrilho
Moçambique


9.7.08

Tambores


Kid XXX- a criança e a vida


São os tambores da noite
distantes
são as folhas das palmeiras bêbedas
constantes
são as pinceladas das brisas
sibilantes
são os lussúnguis finos
ondulantes
a panejar o apetite discreto
dos amantes


Júlio Carrilho
Moçambique

12.6.08

E a cruz crescente?...


Jambesse III


Não é da gente certa a vila desenhada
é de salamaleques e de casarões
só nos quintais fervilham vozes coloridas
de sarcasmo de interrogações
Não são de gente aberta
esses jardins guardados
na geometria estrita das pedras caiadas
apenas corvos passeiam sobre eles seu negrume
seu vôo vasto e livre
isento de volume
Não são brancos os dentes
que a alvura do sorriso negro nos ensina
são apenas portos de sinceridade
um contraponto neutro de evasão
do forte colorido de paixões contidas
nesse cerco de água
preto vermelho
e açafrão

A cruz aqui apenas tem esse significado
o de nos cruzarmos com o mundo
para não morrer


Tantos de nós a aguardar um Deus vindo de longe, como se as religiões, que põem todo o seu afã em conquistar-nos, estivessem a partilhar-nos com o acordo da nossa ironia.
Que diferença faz a sombra da torre sineira por consolo, ou a delicadeza curva do crescente fino a coroar-nos?
Somos de qualquer crença que nos lave as mágoas as pilhagens, a desvalorização e o opróbrio, os roubos locais e internacionais.
Entre o padre do oeste e o maulana oriental há essa paz, do almofadado saber da nossa convivência, desarmando cismas nas ofertas recíprocas que nos enviamos nos dias da festa do outro.


Júlio Carrilho
Moçambique


18.5.08

Ser mwani


Velho de Jembesse II


Não é que ser mulato me abra portas:
é preciso que se tenha aprendido a beber
esse saber da praia
qualquer que seja a dor que se transporta
A Guerra aqui não se reproduz. Sofre-se.
A escravatura aqui não se aprimora. Degrada-se:
na sabedoria dos escravos
na subtileza do servir dos servos
na paciência dos barcos adornados
Tudo sucumbe no equilíbrio sustentável
da intriga
viscosamente escrutinada nas sub-ilhas de murmúrios
dos quintais fechados


Júlio Carrilho
Moçambique

24.4.08

Do resto


Jambesse VI


Do resto sei somente que a Quirimba é um palmar
teutão
um batalhão de coqueiros em parada;
Quirambo um cesto de songomas que não esqueço;
Matémwé imensa mancha aprisionada
num horizonte azul de lágrimas salgadas
e pudores
grande e vazia;
só dona Elisa e o Kesso
na ausência pendular dos pescadores


Júlio Carrilho
Moçambique

21.3.08

Na brisa


Mulher Makua XI

Os lenços esculpidos na cabeça
de formas leves a abrigar o rosto
desvendam cores para que não esmoreça
a luz que morre atrás do dia posto

O coro agarra firme mas sem pressa
o olhar da multidão a que me encosto
os corpos e a toada uma só peça
as vozes lentas a dobrar-me o gosto

Ah brisa feminina a alongar traços
de conchas várias a nascer dos braços
que a ilha pelos séculos coou

Do mundo se juntaram mil pedaços
cor e tecidos neste porto escasso
que a ponte de mariscos adensou

Júlio Carrilho
Moçambique

13.2.08

O mar do Wimbe

A Glória de Sant'Anna


O mar do Wimbe
ficou mais azul nestes meus lábios
mais libertas as algas dos meus dedos

me recomponho nos corais partidos
pela predação do tempo
colheita a colheita

partidos para sempre
mas sempre a reviver
numa indelével beleza

deixo-me no vento
que me embala
no ir e vir das ondas

assim se lava a praia
dos meus olhos
no profundo sentido dos elos
de uma ausência



Júlio Carrilho
Moçambique

9.2.08

Me amansa


Ilha -Retalhos VII


As linhas que se desenrolam das mãos da
madrugada
nem sempre no seu termo apagam peixes
nem sempre na sua tensão se desenganam

mas levam nos olhos um prazer de vida inexplicável
na carapinha levezas adoçadas de orientes
nos cofiós adornos de sextas-feiras brancas

confundem-se nos terços de várias crenças
deuses de água a deslizar sentenças
nas noites prateadas de luar

e me amanso e me moldam sonhos infantis
para que o ruído dos dias se harmonize
duros dias de aprender vénias controlar humores

temos de ser capazes de adivinhar as máscaras
do vento a modelar matizes no calar das faces
da mágoa que se tem no peito presa

é que a doçura infinita dos saberes forros
carrega em si milhares de desimpressões
no choro de alegria ou num subtil sorriso de tristeza


Júlio Carrilho
Moçambique

10.1.08

Os truques



Quantas Áfricas terão de se afirmar no truque
do aparente desprendimento? Quantas ainda
terão de se aprimorar na sua própria
ignorância calculada?

Hoje já não creio que só o futuro é que nos
traz mensagens. E a Nação? Era candura a
minha, essa de fazer da história uma tábua de
passar a ferro. E queimei-me nas minhas
próprias subtilezas de argumentação.

Júlio Carrilho
Moçambique